Cataculinga: Ela não queria ver alguém feliz

Quem falou foi a boca, que estava atras de sua cabeça, enfiada naqueles cabelos imundos. Cataculinga escutou e perguntou: “Mas por quê?”

A quele ser Tro-lo-ló respondeu, mas a voz veio de suas vísceras secas, de seu útero  áspero, árido, de seu coração carunchoso, de seus olhos empedrados, de sua boca oca e vazia. Tudo era feio. Um desastre.

Mas Cataculinga ficou olhando, investigando, não acreditando, olhando muito tudo isso, aquilo, indo e vindo… Chegou a uma conclusão:

“Já sei! Já sei! O que ela gosta mesmo… Pasmem!!! É de televisão!”

(Televisão, na visão de Cataculinga, é uma caixa, repleta de gente morta que fala o que quer, que não cheira e que nunca esta aqui, mas sempre num eterno lá. )

“Nossa! Claro? Como, então, podia ser diferente?”, pensou.  Ela gosta daquele que vê não te olhando, daquele que recita sem conversa, daquele que chora e não a molha, daquele que sofre sem sofrer. Ela gosta do que não é humano. Ela gosta porque há um ninguém existindo lá, no eterno lá.

E pode-se desligar, tudo isso, apertando um simples botão, e indo dormir. E acabou.

 

As Breves Histórias da Cataculinga
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Cunhada Trololó, a coisa chata da vida da Cataculinga

Cataculinga não se acostuma de todo dia ter de ver o bicho feio. Morava ao lado dela, na casa dela. Um monstrinho em tamanho real. 

Andava pelos corredores e algo verde saia de sua cabeça. Parecia uma fumaça furtacor escura e cheia de alguma coisa feia e meio fedida. Sim, porque pessoas que pensam feio, fedem o ar….

Cataculinga aproveitava para evoluir. O monstrinho feio passava por ela e ela imagina uma fortíssima luz reluzindo de Cataculinga rumo ao sombrio ser. Tudo acontecia imensamente rápido.

As vezes Cataculinga esperava a Trololó sair e fazia um dedão, assim ô, e desabafava…. “Ôôh praga dos infernos, sai pra lá.”

Cataculinga achava as formas de pensar dela tão feias, que sentia uma bolinha verde entrar na sua barriga, sempre leve e feliz. Bolinha verde entrava, onda vermelha saia!

Os dias passam na casa de Cataculinga. Ela vive.

Ela e Cataculinga vivem.

No mesmo teto. No mesmo tempo.

Em vezes, sempre tão longe.

As Breves Histórias da Cataculinga
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Cataculinga: Mesas, mesas, mesa-olho

I

Não aquento mais mesas, grito, passando fininho perto de uma.

Mesa? Na minha casa só tem mesa. Em cada canto tem uma mesa. É mesa, mesinha, mesa de mesa!!!

As mesas começaram a se tornar algo tão presentes, tão presentes que parece que as vejo sorrir. Não, eu não sorri para elas.
Então elas perderam seus sorrisos e passaram a me observar.

Olhei em volta e vi olhos! A mesa-olho não só existia, como estava lá, me olhando.

Descobri, aos pouquinhos, que as mesas me olham e se me olham, nos olham.
Verdade… Pelo menos me olham!

 

II

Passei raspando pela mesa preta.

Ainda bem que eu vi a mesa preta, acredita?

A mesa que me contou uma história e me deu um presente.

A mesa que fez nascer uma cabeça a mais dentro da minha, que já tem inúmeras cabeças dentro.

A mesa que me contou: Ei, toda mesa tem um olho, sabia?

O olho. O olho nasce quando e, apenas quando, você vê a mesa.

 

As Breves e Meio Estranhas Histórias da Cataculinga.
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Cataculinga: As coisa sumiam lá

Ela deixou uma pequena bolinha branca cair e a bolinha sumiu.

Depois foi um clip, velho, feiinho. Foi-se, sumiu.

Mais depois, uma tampinha de caneta. Rolou para aquela sombra… e sumiu.

Tudo ia embora.

As coisas iam para a sombra e iam para outro lugar, onde nada se via.

As coisas sumiam lá, quando nos esquecemos delas.

 

As Brevíssimas Histórias da Cataculinga
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Cataculinga: O dia em que sumi

I

Num ato de extrema dor, ela soltou!

Sentiu o peso de seu fracasso e o engoliu.

Engoliu, mas não aguentou e chorou, um choro derramado,

de tristeza profunda, em constatar o que de fato ela era.

Ela desistira, finalmente. Sua mente era uma estranha.

 

II

Acordou e se viu tão objetiva, tão racional e tão sem sentido.

Não era mais ela, não era mais nada como era, era o que era, uma certeza apenas que nisso tudo, não existia mais lugar para ela.

Antes disso, uma borboleta pousou em sua mão. Estava dentro de um posto de gasolina. Imagina, ela e borboleta, ao mesmo tempo.

Lembrou disso quando em sua nova consciência.

Ontem corria por portas e escadas. Hoje tinha medo de ficar cega se olhasse para alguma luz no seu quarto. Só dentro do seu quarto.

 

III

Tudo não tinha mais sentido.

Não podia mais querer desenhar o seu destino, pois este já estava na mão de alguém.

“Quem sou eu para decidir alguma coisa? Quem sou eu para saber que estou certa, tão certa?”

Percorreu sua vida e viu o quanto era duro se livrar de suas incontroversas verdades.

 

IV

Paro agora e sumo.

“Não sei mais de nada”. Somente isso.
Sei apenas que esse “Isso”vou cultivar no meu jardim,
um jardim que vou cuidar no dia em que me livrarei de mim.

As Breves e Meio Sérias, Histórias da Cataculinga
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Cataculinga: Ele grita para existir

Ele grita e me irrita.

Eu sei quem eu sou. Alguém olhou para mim, um dia, e eu existi.

Ele é só.
Um dia alguém olhou para ele como olhou para mim. Mas um dia, o dia sumiu. Mas um dia, ele sumiu.
Sumiu de si, sumiu de todo o mundo.

Ele grita para se ouvir.
Assim ele grita e passa a existir.

 

As Breves e Reflexivas Histórias da Cataculinga
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