Reflexões sobre a curadoria doméstica I

No caminho do conhecimento de mim mesma, projetando-me no espaço de minha casa, podendo eu acontecer lá, de forma (até) livre, me vi completamente amarrada. Estática. Paralisada.

Diante de uma parede, braaaaanca, me vi de costas, de olhos vendados, ainda.

De fato não há nenhuma conexão entre mim e este espaço.

Um abismo real existe – eu não sei quem sou para encarar essa parede de frente.

Agora….Imagina encarar 4 nichos!

Os Nichos são aqueles infinitos em que nos encontramos….

Para mim são invasivos: Formam mais formas que eles próprios.

Eles são estáticos, convictos disso, mudos, cheios de presença no seu eterno vazio. Abertos e limitados. Suas bocas são eternamente abertas. E me chamam…

Pronto, mais uma vez o sempre insuportável vazio – o nicho vazio é meu coração. Oco. Sem ele. O nicho ou o coração?

Ambos….

Olho em volta e vejo as cabeças das pessoas andando, paradas, mortas, falando. São ocas, ocas.

Delas saem sonhos permitidos. Apenas os permitidos.

De volta ao nicho…

La estou eu de frente para eles, sem olhar muito tempo para eles… Perturbam….

“Meu Deus” o que eu coloco nesse monte de buraco aqui?

“Coloca o que tem a ver com vc, que vc usa, usa os nichos para você colocar o que vai usar”, disse meu amável grilo falante. Entendi que seriam as coisas que fazem parte de minha vida neste momento, nada meio decorativo. Será que nichos úteis teriam mais a ver comigo?

Bem, vamos lá, levada por mãos de anjo, eles forma para o primeiro nicho. Estranho….

Dois fones de ouvidos que conforme vão sendo usados, mudam de posição e formam imagens que passam a acontecer dentro do nicho. Os nichos tornam-se molduras.

A luz, a posição que o universo contribui para ficar, tudo vai acontecendo dentro daquele nicho. Eu vou lá e fotografo.

O nicho vai se revelando como algo mais amigável, possível….

Mas tenho mais 3 pela frente…

Passa-se um boooooom tempo, nichos brancos, paredes brancas… sombras… tudo lá.

E cadê…… eu??? Cadê eu?????

Silêncio…. uma respiração…. ainda não há ninguém lá.

A estante de livrinhos e as duas biblias

Achei duas bíblias antigas, uma de uma pessoa e a outra de outra pessoa. Ambas, não sei se  mortas ou não, colocaram suas mãos-crianças sobre as suas páginas…. duas ou mais crianças, porque é antiga, passando eras, por mãos de crianças. Agora está aqui comigo. Por que??? Pérai, uma delas é muito estranha. Acho que terei de perdoá-la.

Coloquei no nicho, lá em cima, do ultimo nicho, o maior nicho, o mais longe de mim. Tá láááááááááááá.

Mais um tempo. Nichos vazios e uma dívida incrível com o universo que me criou. Peço para sonhar com uma dica. “Vai, poder! Você que tudo criou, sabe! Me dá uma dica!”

Que porta eu abro????

Percebo que minhas resistências estão se rompendo, aquela coisa gosmenta que me dizia “protetora”, sua voz esta sumindo, dissolvendo estranhamente. Quase não há mais essa voz dentro de mim. E tudo está acontecendo imensamente rápido, como se estivesse passando para um outro universo de possibilidades. Hoje tenho uma sensação de limpeza interior, uma leveza incrível, mesmo com o desrespeito que vivo na “casa sagrada do trabalho”.

Sinto que o perdão que saí por ai exercitando, está me deixando leve.

Sinto que o movimento que eu faço é de avanço e percebo que soltar-se é saber ir num vento que te chama, que você nunca foi, com gratidão e amor!

Mas e a estante com os livrinhos?

Como ela é estranha, fake, mas é amável. Ela está inconsciente de tudo isso e parou para ler seus pequenos livrinhos de trás para frente, de frente pra trás, abstraindo suas letras em formas e mais formas. Aí ficou, presa em seu tempo que não sei bem qual é! Ela, para mim, hoje, é uma feia incógnita, mas uma linda lembrança que também deve ser perdoada.

Coloquei-a no terceiro nicho, o menorzinho. Mas, tudo ficou estranho!

Um movimento estranho do meu lado…. Um mal estar: Quando a coloquei lá, me senti envergonhada, presa na minha carne.

Prevendo algo de fora, já falei pra mim:

“Por que fez isso?” Uma voz me disse imperiosa. “Isso está horrível, não combina com blablablablablablablablablablablabla”, não ouvi mais nada, pois me perdi na sensação.

Me senti mal e culpada!

Deixei tudo lá e mais uma vez, fui embora.

Tudo se fechou novamente.

Os nichos, quietos.

Eu, oca.

Mas a coisa ainda não acabou…

E o segundo nicho…

Lu Paternostro

#lupaternostro #curadoriadomestica #mundosintrincados #euamocriar #weareconected #pretoebranco #nicho