Gigantes alegóricos, tribos indígenas e orquestras de percussão transformam Manaus em um palco épico durante o Festival Folclórico de Parintins. Uma disputa mítica entre Boi Garantido e Boi Caprichoso, onde cada passo, canto e alegoria celebra a Amazônia em cores, ritmo e devoção.

 
Ilustração "Os Bois de Manaus", da série "Manifestações da Cultura Brasileira. 
Copyright Lu Paternostro. Proibida cópia, uso ou reprodução desta imagem sem a autorização da artista.
Ilustração "Os Bois de Manaus", da série "Manifestações da Cultura Brasileira. 
Copyright Lu Paternostro. Proibida cópia, uso ou reprodução desta imagem sem a autorização da artista.

É com o brilho da lua
Que o meu boi vai brincar
Com todas bonitas
E o povão a cantar

E a magia da floresta
O toque gostoso
Do meu boi bumbá

Boi Caprichoso vai remexer

O coração da galera azul e branca
Olé, olé, olá
Caprichoso acabou de chegar!

A Magia Da Floresta
Boi Caprichoso

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Eu irei, Andirá
Pelo rio Marau navegar
Garantido faz festa na ilha
Minha tribo eu quero levar

Eu vou que vou
Vou numa boa
Não tem despesa eu viajo de canoa
E já me vou é piracema
O meu hotel é de fazenda em fazenda

Eu irei, Andirá
Pelo rio Marau navegar
Garantido faz festa na ilha
Minha tribo eu quero levar

Vou viajando
Na pororoca não faço força
A correnteza me reboca
Vou ver meu boi
Boi Garantido
Ele é o mais lindo é o mais brioso
O mais querido

Eu irei, Andirá
Pelo rio Marau navegar
Garantido faz festa na ilha
Minha tribo eu quero levar

Andirá
Boi Garantido

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Boi de Parintins: O Duelo de Cores que Faz a Amazônia Vibrar!

Prepare-se para uma viagem ao coração da Amazônia, onde a floresta ganha vida em um espetáculo de cores, música e paixão! O Festival Folclórico de Parintins é a maior manifestação folclórica a céu aberto do mundo, um duelo lendário entre o Boi Garantido (vermelho e branco) e o Boi Caprichoso (azul e branco).

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A Ilha Encantada: Onde a Magia Acontece

O Festival de Parintins acontece anualmente em junho, na cidade de Parintins, no estado do Amazonas. Essa ilha no interior do estado se transforma em um palco grandioso, que atrai pessoas de todos os cantos do mundo para testemunhar essa maravilha da cultura amazonense e brasileira.

A tradição dos bois-bumbás foi levada para a região por trabalhadores maranhenses que migraram para o Amazonas durante o ciclo da borracha, no início do século XX. Eles trouxeram consigo a paixão pelo boi, que se consolidou em Parintins e evoluiu para o espetáculo que conhecemos hoje.

Garantido x Caprichoso: Uma Rivalidade de Paixão

O ponto culminante do festival é a disputa acirrada entre os dois bois folclóricos, uma rivalidade que move a cidade e o coração de seus torcedores:

  • Boi Garantido: O “Boi da Promessa”, “Boi do Coração”, “Brinquedo de São João” e “Boi do Povão”. Com suas cores vermelho e branco, leva um coração na testa. Seu fundador, Lindolfo Monteverde, prometeu a São João Batista que, se ficasse bom de uma doença, criaria um boi para homenagear o santo. A cura veio, e o Garantido nasceu, com a promessa de nunca quebrar nas brigas com os "contrários" – "isso era garantido!". Sua sede, o Curral, fica na Cidade Garantido, no bairro São José, onde vivem os "perchés" (pessoas que trabalham com os pés descalços, devido ao trabalho intenso na roça).
  • Boi Caprichoso: O “Guardião da Floresta”, o “Touro Negro” com a estrela na testa. Com suas cores azul e branco, representa o imaginário das lendas caboclas e dos povos indígenas. Seu nome evoca pessoas cheias de capricho, trabalho e honestidade, um personagem extravagante e primoroso em sua arte. Seu Curral está localizado no bairro da Francesa, onde a maioria das casas é pintada em azul e branco.

Curiosidade: A rivalidade é tão intensa que um torcedor de um boi jamais fala o nome do outro boi, referindo-se a ele apenas como "o contrário". E, no Bumbódromo, quando um boi se apresenta, a arquibancada adversária fica totalmente escura e em silêncio, em respeito à arte do oponente.



O Bumbódromo: O Palco da Emoção

As apresentações dos Bois Garantido e Caprichoso são realizadas em uma grandiosa arena em formato de cabeça de boi, chamada Bumbódromo, que abriga cerca de 25.000 pessoas. A cidade se divide ao meio, e a rivalidade é tão grande que até grandes marcas patrocinadoras modificam suas embalagens para serem comercializadas com as cores de cada boi!

Patrimônio Imaterial: A Joia da Amazônia

Embora o Festival de Parintins ainda não tenha o título de Patrimônio Imaterial do Brasil (como o Bumba Meu Boi do Maranhão), ele é, sem dúvida, uma manifestação cultural de valor inestimável.

Patrimônio Imaterial são as tradições vivas, as expressões, os conhecimentos e as práticas que uma comunidade reconhece como parte de sua herança cultural. É a memória, a identidade e a criatividade de um povo que se manifestam em festas como o Festival de Parintins, que precisa ser valorizado e transmitido.

O Elenco da Floresta: Personagens que Ganham Vida

O festival é repleto de personagens que dão vida às lendas amazônicas:

  • Boi Bumbá Evolução: O próprio boi, feito com leveza e movimentos próximos de um animal real, comandado pelo Tripa ou Miolo do Boi.
  • Apresentador: O mestre de cerimônias que conduz o espetáculo e narra as lendas.
  • Levantador de Toadas: Com sua voz vibrante, ele tem a missão de levar a toada (música) durante toda a apresentação.
  • Amo do Boi: O dono da fazenda, que com seu berrante, chama o boi para bailar.
  • Sinhazinha da Fazenda: Filha do amo, dança com graça em roupas exuberantes que remetem à riqueza colonial.
  • Cunhã-Poranga: A mulher mais bela da tribo, que representa a garra e o mistério das lendárias amazonas.
  • Porta-Estandarte: Conduz o símbolo do boi com desenvoltura e alegria.
  • Rainha do Folclore: Com sua força mágica e rica indumentária, representa a beleza e grandiosidade do folclore e lendas da Amazônia.
  • Pajé: Vindo do auto do boi do Nordeste, ele se insere no festival, ressuscitando o boi em um dos pontos mais esperados da apresentação.
  • Tribos Indígenas: Com suas ricas fantasias e coreografias, representam os agrupamentos nativos da Amazônia.
  • Bonecos Gigantes, Cobras e Animais da Selva: Figuras que representam as lendas amazônicas, com movimentos típicos e harmoniosos.

Ritmos e Instrumentos: A Batida da Amazônia

A música é a alma do Festival de Parintins. As toadas, cantadas por vozes firmes e marcantes, são extremamente populares e disponibilizadas em serviços de streaming. Elas são embaladas por uma orquestra de instrumentos que ecoam a floresta:

  • Tambores: De diversos tamanhos e timbres, são o coração da percussão.
  • Caixas e Repiques: Trazem a agilidade e o brilho rítmico.
  • Maracás: Chocalhos que adicionam um som místico e envolvente.
  • Instrumentos de Sopro e Cordas: Incorporados para dar grandiosidade e melodia às toadas.

Uma Festa que Transcende o Espetáculo

O Festival de Parintins é mais do que uma competição; é uma celebração da riqueza do folclore e da cultura popular brasileira, incorporando elementos do folclore nacional e das culturas indígenas do Amazonas.

  • Economia e Turismo: A festa mobiliza a cidade durante todo o ano. Na época do festival, a população de Parintins chega a dobrar, com turistas de todas as partes do mundo.
  • Inspiração: A grandiosidade do evento é tanta que pessoas que trabalham na preparação dos bois são convidadas para participar do Carnaval em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo.
  • Transmissão: O festival ganha repercussão internacional, sendo transmitido por emissoras de TV, levando a magia da Amazônia para milhões de lares.

Curiosidades da Ilha da Magia

  • Em 1966, aconteceu a primeira competição oficial entre os dois bois, com o intuito de arrecadar recursos para construir uma catedral para Nossa Senhora do Carmo, padroeira da cidade.
  • O festival não foi realizado em 2020 e 2021 devido à pandemia de COVID-19.
  • Em Parintins, para transitar livremente, dizem que é preciso estar trajado com roupas verdes, pois quem está do lado azul não pode ir passear de azul do lado vermelho, e vice-versa!

Por que o Boi de Parintins é tão grandioso?

Porque ele é:

  • Arte: Nas fantasias, nos cenários, nas coreografias e nos bordados.
  • Cultura: Que celebra a Amazônia, suas lendas e seus povos.
  • Paixão: Que move milhares de pessoas em um duelo de cores e emoções.
  • Tradição: Que se reinventa a cada ano, mantendo viva a alma do Brasil.

Venha ver com os próprios olhos um dos movimentos culturais mais ricos do planeta!


Selo Brasis em Traços de Lu Paternostro

A série "Brasis em Traços" é uma coleção de ilustrações autorais da artista brasileira Lu Paternostro, focada na representação da cultura típica, tradicional e imaterial do Brasil. Com estilo colorido e detalhado, a série retrata festas, danças, tipos populares, lendas e a diversidade étnica brasileira, baseada em vasta pesquisa sobre o folclore e a identidade nacional.


Uma pequena lembrança para você:

Cada festa, folguedo, dança ou manifestação genuína de um povo não é algo fixo — é um organismo vivo, enraizado em um território e em constante transformação. Tudo é fluxo. Tudo é vivo, dinâmico. Como um rio, que corre sem nunca se deixar apreender por inteiro: não se captura um instante sem que ele já tenha se transformado.

É justamente aí que reside sua maior riqueza — nesse movimento contínuo, que existe no tempo e no corpo dos brincantes, despertando uma alegria difícil de nomear, mas impossível de não sentir.

Esta é apenas uma breve introdução ao tema, acompanhada de desenhos que buscam revelar um fragmento desse movimento.
Lu Paternostro

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