Cortejo devoto que percorre casas e estradas, cantando a jornada dos Três Reis Magos até o Menino Jesus. Bandeiras, violas, fitas e promessas tornam a Epifania uma festa de fé, música e comunidade.

Ilustração "Folia de Reis", da série "Manifestações da Cultura Brasileira. 
 Copyright Lu Paternostro. Proibida cópia, uso ou reprodução desta imagem sem a autorização da artista.
Ilustração "Folia de Reis", da série "Manifestações da Cultura Brasileira.
Proibida cópia, uso ou reprodução desta imagem sem a autorização da artista.

Senhor e dono da casa, vai chegando a folia 
Vem beijar a nossa bandeira e escutar a cantoria
Vem beijar a nossa bandeira e escutar a cantoria ai ai ai !

Senhor e dono da casa, se não for muito custoso
Vem abrir a sua porta que nóis viemos de pouso
Vem abrir a sua porta que nóis viemos de pouso ai ai ai !

Nosso corpo quer descanso nóis precisamos dum canto
Nossa arma quem vigia é o divino espírito santo
Nossa arma quem vigia é o divino espírito santo ai ai ai !

Senhor e dono da casa, a folia vai saindo 
Fica com deus nosso pai e a proteção do divino
Fica com deus nosso pai e a proteção do divino ai ai ai !

Folia de Reis
André e Andrade
Moda de folia aos santos reis

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Folia de Reis: A Procissão Sagrada que Une Fé, Música e Comunidade!

Prepare-se para mergulhar em uma das mais antigas e sagradas tradições do Brasil: a Folia de Reis, também conhecida como Reisado ou Companhia de Reis. É um auto popular, um teatro do povo, que une fé, música e caminhada em uma jornada que se repete todos os anos, entre o Natal e o dia 6 de janeiro — a Festa de Santos Reis.
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A Origem da Jornada: Uma Viagem que Vem da Europa

A Folia de Reis representa simbolicamente a viagem dos Três Reis Magos — Gaspar, Melchior e Baltazar — à gruta de Belém, para adorar o Menino Deus recém-nascido. Essa tradição tem raízes europeias, possivelmente relacionada às “Jornadas de Pastorinhas” e outras procissões natalinas, onde grupos percorriam as casas pedindo esmolas e cantando em louvor ao nascimento de Jesus.

No Brasil, a Folia de Reis se enraizou profundamente, especialmente em populações rurais, adaptando-se à realidade local e ganhando contornos únicos de devoção, arte e sociabilidade.

Patrimônio Imaterial: A Tradição que se Renova

Embora a Folia de Reis ainda não tenha um título unificado de Patrimônio Imaterial da Humanidade, ela é reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil em diversas regiões, sendo um dos rituais mais importantes para a identidade cultural do interior do país.

Patrimônio Imaterial são as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas que uma comunidade reconhece como parte de sua herança cultural. A Folia de Reis é um exemplo vivo de como a fé, a música e a caminhada coletiva moldam a alma de um povo.



A Chegada na Casa: O Ritual de Porta em Porta

A Folia de Reis é, antes de tudo, uma procissão itinerante. O grupo, chamado de “Companhia”, caminha de casa em casa, cantando, tocando e levando a bandeira com a imagem dos Santos Reis. O ritual é sempre o mesmo, mas cada visita é única:

  • Canto de Chegada: O mestre ou embaixador pede permissão ao dono da casa para entrar, saudando a família e pedindo acolhida.
  • Adoração ao Presépio: A Companhia se dirige ao altar, onde está o presépio ou a lapinha, e canta em louvor ao Menino Jesus.
  • Coleta e Agradecimento: Os foliões recolhem doações (mantimentos, dinheiro, bebidas), que serão usadas para a grande festa do dia 6 de janeiro. Em troca, agradecem com cantos, versos e até danças.
  • Canto de Despedida: Antes de seguir viagem, a Folia se despede, deixando a bênção dos Santos Reis na casa visitada.

Como relata um folião: “Tem pessoa que chega a chorar quando a companhia chega na casa… Você chega, canta, agradece o mantimento que a gente recebe, e no dia da festa, faz o comes e bebe para todo mundo.”

Os Personagens da Folia: Uma Hierarquia Sagrada

Cada membro da Companhia tem uma função específica, formando uma verdadeira “corte” em movimento:

  • Mestre ou Embaixador: É o líder, o organizador e o conhecedor dos fundamentos da Folia. É ele quem inicia as cantorias e mantém a coesão do grupo.
  • Bandeireiro (ou Bandeireira): Conduz a bandeira, o símbolo que legitima a Companhia. É uma figura de grande respeito, responsável por proteger o estandarte sagrado.
  • Músicos e Cantadores: Divididos em vozes (quinta, contra-tala, tala, requinta), formam o coro que entoa as toadas características. Os instrumentos variam conforme a região, mas geralmente incluem viola, violão, cavaquinho, sanfona, pandeiro e caixa.
  • Palhaços ou Bastiões: Personagens curiosos e sagrados, vestidos com roupas coloridas e, muitas vezes, máscaras. São os “guerreiros” da Folia, responsáveis por proteger a bandeira, recolher as ofertas, “quebrar os atrapalhos” (desafios e brincadeiras) e anunciar a chegada da Companhia. Nomes como Pai Juão, Catrina, Mocorongo, Mateus e Alferes aparecem em diferentes regiões do Brasil.
  • Reis Magos: Alguns grupos incluem pessoas caracterizadas como os Três Reis, reforçando o sentido do auto.
  • Festeiro: Pessoa que organiza a festa de chegada da bandeira em sua casa ou comunidade.
  • Apontador de Prendas: Anota todas as ofertas recebidas, garantindo a transparência da coleta.

Música, Dança e Instrumentos: A Trilha da Caminhada

A música é a alma da Folia de Reis. As toadas (cantigas) são passadas de geração em geração, e cada região tem seu estilo: a toada baiana, a mineira, a paulista, a goiana… Algumas são idênticas, outras têm variações melódicas e de letra.

Os instrumentos mais comuns são:

  • Viola e Violão: Enfeitados com fitas coloridas, que carregam simbolismos (fitas azuis, rosa e amarelas para a Virgem Maria; branca para o Divino Espírito Santo).
  • Sanfona: Traz o calor e a melodia contagiante das toadas.
  • Pandeiro e Caixa: Marcam o ritmo da caminhada e dos cantos.
  • Rabeca, Bandolim, Cavaquinho: Comuns em algumas regiões, enriquecendo a sonoridade.

As danças, como a dança-da-jaca, o balanceado, o cateretê e o “meio-dia”, são executadas principalmente pelos palhaços e bastiões, trazendo alegria e energia ao ritual.

VAMOS CONHECER A RABECA?

A Voz Rústica e Encantadora do Brasil Profundo

Muito mais que uma "prima" do violino, a rabeca é a síntese da nossa identidade. Enquanto o violino erudito busca a perfeição cristalina das salas de concerto, a rabeca busca o "chão de barro" — um timbre terroso, visceral e profundamente afetuoso.

A Alma Esculpida à Mão

O que torna a rabeca fascinante é o seu fazer artesanal. Ela é fruto do conhecimento de mestres luthieres que utilizam madeiras nativas e segredos ancestrais. Diferente dos instrumentos industriais, cada rabeca é única: tem corpo, rosto e uma alma própria, moldada pelo carinho de quem a esculpe.

O Olhar dos Mestres

O mestre Luís da Câmara Cascudo, em seu clássico Dicionário do Folclore Brasileiro, já a definia como o instrumento de arco por excelência das nossas festas. Para ele, a rabeca é o fôlego das folias, bailes e procissões, adaptando seu som ao "sotaque" de cada região do país.

Um Patrimônio de Todos Nós

A importância da rabeca é tamanha que o IPHAN a reconhece como elemento vital de bens registrados como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. Ela é a protagonista absoluta de celebrações como:

  • Fandango Caiçara (SP/PR)
  • Cavalo-Marinho (PE)
  • Maracatu Rural (PE)

Ouvir uma rabeca não é apenas apreciar uma música; é abraçar um Brasil que canta sua própria história com as mãos e o coração.


Vamos apurar nosso ouvido? Ao ouvir uma rabeca tocando, preste atenção nas "imperfeições" do som, que parecem até "desafinados". É nessa sensação de "imperfeição" que reside a verdadeira humanidade, a beleza e a essência deste instrumento.

A Folia como Missão: “É um Chamado!”

Para muitos foliões, a Folia de Reis não é apenas uma tradição, mas uma missão espiritual. Como diz um mestre de 75 anos, que segue a tradição desde os 7: “É o chamado, é uma missão que a gente tem. Meu pai faleceu, eu assumi. Se não queria, mas o santo rei manda, não tem jeito.”

A Folia de Reis atravessa gerações. Em muitas famílias, pai, avô, bisavô e filhos participam juntos, mantendo viva a chama da devoção e da comunidade. Há relatos de milagres, promessas cumpridas e vidas transformadas pela fé expressa na caminhada dos Santos Reis.

Por que a Folia de Reis é tão rica?

Porque ela é:

  • Fé em Movimento: Uma procissão que leva a bênção de casa em casa, unindo o sagrado e o cotidiano.
  • Comunidade: Uma celebração coletiva, onde todos são convidados a participar, doar e compartilhar.
  • Tradição Viva: Uma herança cultural transmitida de pai para filho, que resiste ao tempo e à modernidade.
  • Arte Popular: Um auto teatral, musical e dançante, que expressa a criatividade e a alma do povo brasileiro.
  • Riqueza nos Detalhes: Os ornamentos se modificam pelo Brasil afora, modificando-se conforme cada local.

A Folia de Reis é a jornada dos Reis Magos reencenada pelo povo, uma procissão de esperança, música e fé que faz do Brasil um país ainda mais sagrado e humano.


Selo Brasis em Traços de Lu Paternostro

A série "Brasis em Traços" é uma coleção de ilustrações autorais da artista brasileira Lu Paternostro, focada na representação da cultura típica, tradicional e imaterial do Brasil. Com estilo colorido e detalhado, a série retrata festas, danças, tipos populares, lendas e a diversidade étnica brasileira, baseada em vasta pesquisa sobre o folclore e a identidade nacional.


Uma pequena lembrança para você:

Cada festa, folguedo, dança ou manifestação genuína de um povo não é algo fixo — é um organismo vivo, enraizado em um território e em constante transformação. Tudo é fluxo. Tudo é vivo, dinâmico. Como um rio, que corre sem nunca se deixar apreender por inteiro: não se captura um instante sem que ele já tenha se transformado.

É justamente aí que reside sua maior riqueza — nesse movimento contínuo, que existe no tempo e no corpo dos brincantes, despertando uma alegria difícil de nomear, mas impossível de não sentir.

Esta é apenas uma breve introdução ao tema, acompanhada de desenhos que buscam revelar um fragmento desse movimento.
Lu Paternostro

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