Dança de roda com tambores sagrados, pontos enigmáticos e umbigadas que convidam à roda. Ritmo ancestral banto, considerado um dos “avós” do samba e guardião da memória dos cativeiros.

Ilustração "Jongo", da série "Manifestações da Cultura Brasileira. 
 Copyright Lu Paternostro. Proibida cópia, uso ou reprodução desta imagem sem a autorização da artista.
Ilustração "Jongo", da série "Manifestações da Cultura Brasileira.
Proibida cópia, uso ou reprodução desta imagem sem a autorização da artista.

Quando a noite descia,
ao som da Ave-Maria,
um som de tambor se ouvia.
Dentro de uma senzala, 
em um caminho pra Minas,
vozes de jongueiros se ouviam.

Na Fazenda da Bem Posta, em pleno Estado do Rio,
um jongueiro sentindo falta do caxambu,
tocava o candongueiro, após o angú.

Cantarolava a saracura,
levou o lenço da moça 
que ficou chorando, 
que pecado que ela leva quando morrer....

Saracura
Jongo de Serrinha

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Jongo: A Voz Ancestral que Pulsa nos Tambores e Ginga na Roda do Sudeste!

“Tava dormindo quando Quingoma me chamou Tava dormindo, Quingoma me chamou Levanta, nego, cativeiro se acabou Levanta, nego, cativeiro se acabou!” – Ponto de Jongo

Prepare-se para sentir a força da ancestralidade e a batida que ecoa a liberdade!

Jongo, também conhecido como tambu, batuque, tambor ou caxambu, é uma das mais profundas e emocionantes manifestações da cultura afro-brasileira.

Considerado um dos ritmos precursores do samba, o Jongo é uma forma de reverência e louvação aos antepassados, lembrando profundamente de suas raízes negras e exaltando suas histórias em suas canções.

A Origem no Cativeiro e a Voz da Resistência

O Jongo foi trazido para o Brasil pelos escravos angolanos, sendo uma expressão rítmica da mesma família do tambor de crioula, do samba de roda e do coco. Ele integra a percussão de tambores, as danças coletivas em roda, o bater das palmas e a umbigada – elementos comuns a essas danças de matriz africana.

Consolidou-se entre os escravos nas lavouras de café e cana-de-açúcar do Vale do Paraíba, no Sudeste brasileiro. Nos tempos da escravidão, o Jongo era uma forma de comunicação secreta e resistência. A poesia metafórica dos "pontos" (cantigas) permitia que os praticantes da dança se comunicassem por meio de enigmas que os capatazes e senhores não compreendiam . Era nos quintais das senzalas, à noite, que eles cantavam seus pontos de reclamação, de dor e de amor, encontrando força e consolo na comunidade.

Patrimônio Imaterial: Um Legado de Luta e Cultura!

A importância histórica e cultural do Jongo foi oficialmente reconhecida: o Jongo do Sudeste foi inscrito no Livro de Registro das Formas de Expressão como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo IPHAN em dezembro de 2005. Este reconhecimento celebra a relevância dessa expressão para a formação da multifacetada identidade cultural brasileira.

Patrimônio Imaterial são as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas que uma comunidade reconhece como parte de sua herança cultural. O Jongo é um exemplo potente de como a dança, o canto, a fé e a memória moldam a identidade de um povo e se tornam um legado de luta e resistência para o país.

A Roda do Jongo: Onde a Magia Acontece

O Jongo é praticado nos quintais das casas de periferias urbanas e de comunidades rurais do Sudeste brasileiro, em estados como Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. A dança e o canto acontecem em uma roda, onde a energia flui e a comunidade se conecta:

  • A Roda: Os dançarinos e cantadores formam um círculo, batendo palmas e respondendo ao solista.
  • O Solo e o Coro: Um dançarino faz o solo, cantando um "ponto" (cantiga), e os outros respondem em coro, criando um diálogo musical.
  • A Umbigada: Sozinhos ou em pares, os dançarinos vão até o centro da roda e dançam até serem substituídos por outro par, muitas vezes através da umbigada – um toque de umbigo que simboliza a transmissão de energia e o convite para entrar na dança.
  • A Dança Livre: Os praticantes dançam como sabem dançar: pulando, arrastando os pés, devagar ou mais rápido e solto. O passo masculino e feminino, embora com a mesma base, é executado com delicadeza pelas mulheres e com mais vigor pelos homens.



Música e Instrumentos: A Batida Sagrada dos Tambores

Para os jongueiros, os tambores são sagrados, pois fazem a conexão com as entidades do mundo espiritual. Seus guardiões são os líderes das próprias comunidades jongueiras. Os instrumentos musicais podem ser diferentes de um grupo para outro, mas o mais comum é terem dois ou três tambores. Em algumas comunidades, pode-se encontrar o chamado tambor de fricção, um tipo de cuíca em formato maior.

  • Os Pontos: O "ponto" é um dos elementos mais marcantes do Jongo, onde a palavra cantada assume características únicas. São cantigas que narram histórias, expressam sentimentos, transmitem ensinamentos e, antigamente, serviam como mensagens codificadas.
  • A Força do Tambor: Como ensinava o Mestre Darc, da Serrinha (RJ): "A gente tem que introjetar o tambor para depois tocar. Tambor é coração" .

Sincretismo e Fé: Jongo e o Catolicismo Afro-Brasileiro

Embora não sejam liturgias, os jongos estão associados ao catolicismo afro-brasileiro, em especial ao culto de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário. As festas desses santos são momentos importantes para a prática do Jongo, onde a fé católica se mescla com as tradições africanas, em um belo exemplo de sincretismo.

A Comunidade: Guardiões de uma Tradição Viva

O Jongo é uma tradição que se mantém viva graças à dedicação de mestres e comunidades inteiras. Mestre Darc, da Serrinha, no Rio de Janeiro, é um exemplo de quem ensinou e divulgou o Jongo, uma linha que vem de sua mãe, Dona Maria Joana, e que continua sendo transmitida para as novas gerações .

O inventário Nacional de Referências Culturais pesquisou diversas comunidades jongueiras em atividade, identificando grupos em Madureira (RJ), Valença (RJ), Angra dos Reis (RJ), Guaratinguetá (SP), São José dos Campos (SP), Lagoinha (SP), Conceição da Barra (ES), Linhares (ES), Cachoeiro de Itapemirim (ES), São Mateus (ES), entre outras.

Por que o Jongo é tão importante?

Porque ele é:

  • Precursor do Samba: Um dos ritmos que pavimentou o caminho para o samba, a maior expressão musical do Brasil.
  • Memória Viva: Um elo direto com a história dos escravos angolanos e sua luta por liberdade e dignidade.
  • Resistência Cultural: Uma forma de preservar a herança africana, resistindo à opressão e à invisibilidade.
  • Arte Total: Uma fusão de dança, música, canto e poesia em um espetáculo de profunda emoção.
  • Comunidade e Fé: Fortalece os laços sociais, transmite saberes e mantém viva a identidade do povo afro-brasileiro.

O Jongo é a batida do coração da África que pulsa no Sudeste brasileiro, um convite para sentir a força, a fé e a memória de uma cultura que dança e canta sua história com orgulho e resiliência!


Selo Brasis em Traços de Lu Paternostro

A série "Brasis em Traços" é uma coleção de ilustrações autorais da artista brasileira Lu Paternostro, focada na representação da cultura típica, tradicional e imaterial do Brasil. Com estilo colorido e detalhado, a série retrata festas, danças, tipos populares, lendas e a diversidade étnica brasileira, baseada em vasta pesquisa sobre o folclore e a identidade nacional.


Uma pequena lembrança para você:

Cada festa, folguedo, dança ou manifestação genuína de um povo não é algo fixo — é um organismo vivo, enraizado em um território e em constante transformação. Tudo é fluxo. Tudo é vivo, dinâmico. Como um rio, que corre sem nunca se deixar apreender por inteiro: não se captura um instante sem que ele já tenha se transformado.

É justamente aí que reside sua maior riqueza — nesse movimento contínuo, que existe no tempo e no corpo dos brincantes, despertando uma alegria difícil de nomear, mas impossível de não sentir.

Esta é apenas uma breve introdução ao tema, acompanhada de desenhos que buscam revelar um fragmento desse movimento.
Lu Paternostro

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