Ilustração "Alemães a dança Volkstanz", da série "Imigrantes do Brasil". Copyright Lu Paternostro. Proibida cópia, uso ou reprodução desta imagem sem a autorização da artista.
Alemães
No estado do Rio de Janeiro, a
cidade de Nova Friburgo é considerada o berço da colonização alemã no Brasil.
Imigrantes chegaram na região em busca das prometidas terras férteis. Na época,
1824, o Imperador Dom Pedro I, incentivou as autoridades para os levar para a
região. Os alemães pagaram suas passagens de vinda para o Brasil, foram para
Nova Friburgo, porém não receberam qualquer ajuda de qualquer governo ou
autoridade. Custearam suas vidas durante um grande tempo, quando, enfim, receberam
os lotes de terra prometidos. Estavam sem dinheiro, em situação adversa, mas se
ergueram com a força de seu povo e de seu trabalho. Iniciava-se, oficialmente,
a imigração germânica no país.
Os grupos de alemães que aportaram
no Brasil no século XIX, tinham uma notável diversidade. Vieram para povoar as
colônias do Sul e Sudeste.
No sul, a experiência começou na cidade
de São Leopoldo, a primeira experiência de povoamento do Sul, tendo se
transformado num dos grandes sucessos da política de colonização do governo
imperial. As cidades de São Pedro de Alcântara e Mafra, no estado de Santa
Catarina, e Rio Negro no estado do Paraná, são outro exemplo de colônias
estabelecidas pelo governo imperial.
Os colonos alemães expandiram-se
pelo território brasileiro e levaram consigo esse sistema de colonização para
além da Região Sul, para os estados Espírito Santo, Minas Gerais e Bahia. Porém
entraram e se dispersaram entre a população brasileira, marcando e
influenciando fortemente determinadas áreas. Um traço dessa expansão são
construções das igrejas luteranas, que acabaram influenciando alguns aspectos
dos rituais católicos.
Também podemos encontrar influência
na arquitetura das cidades por onde se estabeleceram.
Na agricultura introduziram o
cultivo do trigo e a criação de suínos.
No estado de Santa Catarina, com
mais de 180 anos de história, tudo começou no município de Dona Emma, uma
cidade com menos de 4.000 habitantes, onde podemos encontrar a “Casa do
Imigrante”, da família AX, construída na típica arquitetura enxaimel. Lá a
família mantém um acervo de fotos, documentos, objetos, moveis e louças. A casa
é aberta para visitação.
Localizada, também, no estado de Santa
Catarina, a cidade de Pomerode é considerada a mais germânica das cidades
brasileiras, onde se comemora o Festival de inverno de Pomerode, o Pomeroder
Winterfest. Lá o visitante assiste às danças folclóricas, saboreia pratos
típicos e aprecia o artesanato típico germânico entre eles a pintura Bauer, uma
técnica de pintura que vem desde o século XVII, aplicada em móveis, objetos
decorativos, utilitários, e o Quebra Nozes que, ao invés do Papei Noel, é o símbolo
do Natal Alemão.
No estado do Espirito Santo, a
cidade de Domingos Martins, foi fundada por imigrantes alemães do século XIX. Em
1846 chegaram os imigrantes pomeranos, que ajudaram na colonização e acabaram influenciando
a cultura alemã local. Lá se encontra o “Museu Histórico da Colonização Alemã”,
criado para preservar e valorizar a cultura através da história dos imigrantes.
No museu pode-se encontrar uma variedade imensa de objetos, livros, moveis,
cenários, documentos, culinária típica e até aula de pomerano. Uma curiosidade:
o gramofone, alternativa para quem quisesse ouvir música no século IXI, foi uma
invenção de um alemão, Emil Berliner, em 1887. Na região se fala 4 línguas: o português,
o italiano, o pomerano e o hunsrück, uma espécie de dialeto alemão. Ainda em Domingos
Martins, encontramos o grupo de danças folclóricas alemãs Bergfreunde de
Campinho.
A primeira comunidade luterana no
Brasil foi a dos alemães chegados em Nova Friburgo que, em 1827, construíram o
primeiro templo luterano do país. Porém as autoridades, na época, mandaram
demolir.
A gastronomia alemã utiliza as
carnes de porco, bovina e de aves sendo a suína, a mais usada e popular, tanto
que o assado de porco, quase sempre a perna, é a refeição de domingo ou em dias
festivos, em muitas regiões da Alemanha.
Um outro prato típico é o porco frito
com rodelas de limão. A carne é muitas vezes comida em forma de salsicha,
sendo que no país são produzidos mais de 1.500 tipos diferentes de salsichas.
Outros pratos são a salada de batata,
conhecida como Kartoffelsalat, popular por todo o país; o
chucrute ou Sauerkraut, prato típico da culinária alemã, comido no mundo todo,
sendo uma conserva de repolho fermentado. Ainda destacamos a batata Rosti
Recheada; o joelho de porco ou Eisbein;o Spatzle, uma massinha de batata, semelhante a um inhoque que pode ser
servida como acompanhamento de carnes; o Goulash com Batata, um guisado de
carne de vaca.
Nos doces encontramos o típico Bolo
Floresta Negra, que leva cerejas em seu recheio; o Strudel, de maçã que pode
ser servida com chantili; a cuca alemã; o Rote Gruetze, sagu de vinho com creme
de baunilha; os Pretzel, famosos
pãezinhos tradicionais, feitos em formato de pequeno nó: o milho brot,
feito com batata doce, cará e fubá de milho branco, cozidos em folhas de
bananeira ao forno.
Nas bebidas, apesar do vinho estar se tornando
mais popular, a bebida alcoólica nacional é a cerveja.
As variedades de cerveja incluem a Alt, Bock, Dunkel, Kölsch, Lager,
Malzbier, Pils e Weizenbier.
A contribuição na música e na dança, uma herança da cultura alemã, são as bandas: os alemães tocavam, por tradição, instrumentos de metais de sopro, sempre em grupos, um som bem tradicional das festas alemães.
A Dança Volkstanz
Nesta imagem fiz um destaque para a cerveja, um produto que o brasileiro ama e aprecia em festas e feiras típicas alemães. O trigo faz a decoração do fundo onde vemos a bandeira da Alemanha.
Na frente, o casal dança a Volkstanz, uma dança folclórica, provavelmente com origem no século XII.
Os primeiros registros das danças folclóricas alemães aparecem no século XII. Eram dirigidas por um dançarino e sua parceira, com cantos e gestos que eram imitados pelas pessoas ao redor. Muitas danças tinham o caráter cômico imitando os cavaleiros em suas conquistas e nas batalhas.
Um dançarino e sua parceira se cortejam durante a dança intercalando com um ou mais dançarinos que representam cenas cômicas de cavalheiros em suas batalhas. As vestimentas são simples, lembrando camponeses.
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Ilustração "Povos Africanos", da série "Imigrantes do Brasil". Copyright Lu Paternostro. Proibida cópia, uso ou reprodução desta imagem sem a autorização da artista.
Povos Africanos
A construção da identidade do povo
brasileiro passa pela contribuição dos povos africanos que chegaram ao Brasil
como escravos enraizando, na forma de ser do brasileiro, sua rica e variada
cultura.
O continente africano é
caracterizado pela diversidade de culturas e línguas. Só na África fala-se cerca
de 2 mil línguas, com seus dialetos. Esta diversidade é encontrada também em
cada país, em cada região.
Durante 400 anos a África passou
por um processo muito cruel de violência e discriminação que foi a escravidão e
o colonialismo. Mas a alma deste povo continua florescendo em seu território e
no mundo todo através de seus ritmos, danças, gastronomia, religião.
Foram cerca de 11 milhões de
africanos que chegaram nas Américas, no maior processo de imigração forçada da
história humana, sendo que vieram para o Brasil, trazidos pelos portugueses, 4
milhões desse “comércio infame”. Vieram como escravos, trazidos para as lavouras
de cana de açúcar, tabaco, algodão, cacau, café, diamantes e outros para a
construção de igrejas, casa, ferrovias.
Vieram para o Brasil em navios
negreiros ou tumbeiros. A maioria deles eram jovens de 8 a 25 anos, mas nos
navios vinham de tudo: cego, manco, surdos, chefes religiosos, príncipes,
mulheres gravidas, mulheres com bebes.
Atravessaram o Atlântico em
condições mínimas de higiene, vivendo em estado de sofrimento com os mals
tratos de uma tripulação sem escrúpulos.
Vinham confinados em porões, junto a comidas podres. Neste tétrico
cenário, pegavam doenças, morriam e seus corpos, jogados no mar. Muitos se
matavam, jogando-se dos navios, num ato de desespero pelo sofrimento.
O negro tem marcado em sua forma de
ser, a força. Resistiam, lutavam contra os colonos, criavam os quilombos, comunidades
próprias dos negros, onde viviam suas culturas sem a arbitrariedade dos
brancos. O Quilombo dos Palmares, cujo o líder era Zumbi, era o mais famoso, símbolo
da resistência negra no Brasil.
Embora a proibição do trafego de
escravos tenha partido da Europa, por puro interesse próprio, a escravidão no
Brasil terminou muito tarde, num longo processo de proibições em leis que não
eram cumpridas, pois a mão de obra barata dos escravos, gerava muito lucro aos
senhores de terra. Com as sanções e proibições da Europa, o Brasil começou a
comercializar escravos internamente: estes vinham do nordeste para os estados
de São Paulo e Minas Gerais.
No dia 13 de Maio de 1888, a filha
de Dom Pedro II, a Princesa Isabel, que assumiu o trono por conta de uma viagem
de seu pai à Europa por motivo de saúde, assina a Lei Aurea, abolindo
totalmente escravidão. Os escravos foram soltos, porém sem nenhuma indenização,
deixando-os rivalizados, sem leis e proteção. Desta forma foram largados, sem
educação, moradia, em estado de sub existência.
Porém, sendo um povo de tradição
nas lutas, “seus tambores nunca se calaram” e continuaram firmes e fortes
levando, ao longo dos anos, sua rica cultura para cada canto do Brasil, desde
as religiões afro-brasileiras, as danças, a música, a culinária e o idioma.
Gastronomia
Na gastronomia, a África deu sua
contribuição na construção de nossa identidade brasileira. Encontramos na
culinária africana um grande universo de modos de fazer, temperos,
ingredientes, utensílios, sabores, história, religião, todos aspectos que influenciaram
nossa mesa.
De todas as culturas do mundo, a
africana é a mais representativa da junção destes fatores. De norte a sul da
África encontramos pratos com influência mediterrânea, das tribos locais,
asiáticas, mulçumanas, árabes. E quando vieram para o Brasil, trouxeram uma
rica sabedoria culinária.
O Azeite de Dendê é um exemplo emblemático. Outro
exemplo, fruto da adaptação do negro diante das condições desumanas em que eram
submetidos, foi a feijoada, feita com as sobras das carnes dos seus senhores,
processadas pelo modo africano de cozinhar.
O Acarajé, uma especialidade
gastronômica da culinária afro-brasileira, um bolinho de massa de feijão
fradinho, cebola e sal, frito em azeite-de-dendê,
oferecidos no Candomblé para Xangô e Iansã. A forma de fazer e comercializar, o
“Oficio das Baianas de Acarajé”, é registrado como “Bem Cultural de Natureza
Imaterial”, inscrito no “Livro dos Saberes” do IPHAN – Instituto do Patrimônio
Histórico, Artístico Nacional.
Sua receita tem origens no Golfo do Benim, na África Ocidental, tendo sido
trazidos ao Brasil pelos escravos que vieram dessa região.
No caso da culinária brasileira,
que leva a influência dos indígenas e europeus também, os africanos trouxeram outros
quitutes e pratos bem típicos: o Abará, um bolinho de origem africana feito com
a massa do feijão fradinho, camarão seco, azeite de dendê e temperos, enrolados
em folha de bananeira, cozidos em água, sendo, no candomblé, comida de santo,
oferecido para Obá e Ibeji; o Aberém, um bolinho feito de milho, arroz moído na
pedra, macerado em água, salgado e cozido em folhas de bananeira secas, sendo
também, comida de santo no Candomblé, oferecidos a Omulu e Oxumaré; o Quibebe,
um prato típico nordestino de origem africana, feito de carne, caruru, mocotó.
O Aluá é uma bebida feita de milho,
de arroz ou casca de abacaxi, fermentados com açúcar ou rapadura, usada como
oferenda em festas de orixás. Da cultura africana adquirimos o habito de se
comer camarão seco, utilizar panelas de barro e a colher de pau, dentre outras.
Religião
A religião africana, apesar de ser
considerada herege pela Igreja Católica na época da escravidão, influenciou os
rituais e as crenças do povo brasileiro.
Os escravos que vieram para o
Brasil entre os séculos XVI e XIX, trouxeram o Candomblé, considerado
feitiçaria pelos colonos portugueses que reprimiu seus rituais de forma brutal.
Para continuar existindo, se transmutou e tornou-se a maior representação do
sincretismo religioso afro-brasileiro. Para cada orixá, ou deuses africanos, há
um corresponde santo católico, uma forma criativa que os escravos encontraram
para esconder suas devoções com as “vestes católicas”, enganando, assim, seus
senhores.
Alguns exemplos de sincretismos são:
o orixá Oxalá seria representado na religião católica por Jesus Cristo e Senhor
do Bonfim; Xangô, São Jerônimo e São Pedro; Ogun, São Sebastião na Bahia e São Jorge
no Rio de Janeiro; Oxóssi, São Sebastião no Rio de Janeiro e São Jorge na Bahia;
Obaluaiê, São Lazaro e São Roque; Oxum are, São Bartolomeu; Logun Edé; Santo
Expedito e São Miguel Arcanjo; Ibeji, São Cosme e São Damião; Exu, Santo
Antônio e, erroneamente, o Diabo; Ewá, Nossa Senhora das Neves; Nanã, Santa
Ana, mãe de Maria; Iemanjá, Nossa
Senhora da Glória e Nossa Senhora dos Navegantes; Oxum, Nossa Senhora da
Conceição no Rio de Janeiro e Nossa Senhora das Candeias na Bahia; Iansã, Santa
Bárbara; Obá, Santa Catarina; Xangô, São Jerônimo, Santo Antônio, São Pedro,
São João Batista, São José e São Francisco de Assis.
A lavagem das escadarias do Senhor
do Bonfim, ritual que acontece todos os anos desde 1754, em Salvador, capital
do estado da Bahia, é um dos exemplos da fusão religiosa do catolicismo com o Candomblé.
O cortejo é comandado pelas baianas com seus ricos trajes típicos. Carregam
vasos com águas de cheiro. Atrás delas vêm os Filhos de Gandhi e uma multidão
de fiéis, todos vestidos de branco, a cor de Oxalá, o deus Yoruba, sincretizado
com o Senhor do Bonfim.
A Umbanda, é uma religião
brasileira, formada por elementos de outras religiões como o catolicismo e o espiritismo,
juntando elementos das culturas indígenas e africanas. A palavra significa
“Curandeiro” em banto, língua falada em Angola. Tem origem nas senzalas, onde
os escravos vindos da África, louvavam e incorporavam seus deuses através de
danças e cantos acompanhados de atabaques.
Incorporados, também, da cultura
africana, estão as superstições, os talismãs, os amuletos e outros objetos onde
se atribui um valor de encantamento e proteção. Eram objetos usados pelos
escravos vindos para o Brasil. Entre ao mais conhecidos, encontramos as pencas
de balangandãs, símbolo típico da Bahia, as figas, antigos objetos de proteção
e sorte. Os patuás, já utilizados pelos etruscos, foram incorporados na cultura
africana. Os patuás são pequenos saquinhos de plástico ou tecido contendo
orações, terra santa, ervas e tantos outros preenchimentos, voltados para a
proteção de quem os carrega.
Outro aspecto dos cultos
africanistas é a leitura de Búzios, uma arte adivinhatória, utilizados nas religiões
tradicionais da África.
Em Salvador, no estado da Bahia,
encontramos a festa de São Roque, desde 1737, uma manifestação de sincretismo
Afro-católico. Além da missa católica que acontece na Igreja de São Lázaro, o
povo da tradição Candomblé oferece rituais de banho de pipoca para os
visitantes, para limpar o corpo e espantar o mal olhado, além de diversas
outras atividades, gastronomia, etc.
Festas e Danças
As festas e tradições populares
brasileiras de origem, ou que tiveram influências africanas, marcam nosso
calendário. Normalmente feitas em comunidade carregam ritmos variados, coreografias
que envolvem a coletividade, muita alegria, formas e cores. Com enredos ou não,
os participantes cantam, tocam e dançam juntos, muitas vezes em ritmos rápidos
e enérgicos, outros sensuais, muitas vezes quase em estado de transe.
Podemos citar como típicas da
cultura afro-brasileira o Maracatu, a Congada, a Festa de Iemanjá,
manifestações de devoção a São Benedito, o santo negro, dentre inúmeras outras.
Música
Os ritmos da África influenciaram a
música do planeta. Aqui no Brasil, praticamente toda nossa música popular
brasileira tem um toque dos ritmos africanos, tornando-se uma mistura de
influencias da música africana com elementos da música portuguesa.
As expressões das músicas
afro-brasileira mais conhecidas são o Samba; o Maculelê, uma dança afro-indígena;
o Maracatu, ritmo tradicional do nordeste do Brasil, nascido nas cidades de Recife e Olinda, no estado de Pernambuco; o
Ijexá, um ritmo musical suave, de batida e cadência marcadas de grande beleza,
no ritmo e na dança, sendo o “Afoxé Filhos de
Gandhi” do estado da Bahia, o mais persistente dos grupos culturais
brasileiros na preservação desse ritmo. Temos ainda o Coco, o Jongo, o Carimbó,
a Lambada, o Maxixe, o Samba Reggae, Axé, o Lundu, o Cafezal, o Caxambú, e
tantos outros ritmos.
Destacamos a Roda de Capoeira, que une luta e dança tornando-se um símbolo da resistência da cultura africana, com os ritmos típicos do berimbau, instrumento musical de origem angolana. A Roda de Capoeira recebeu o título de “Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade” da “Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura” (Unesco).
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Por Lu Paternostro NOTA LEGAL: Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização expressa dos autores
Ilustração "Os Jangadeiros", da série "Tipos Tradicionais Brasileiros" Copyright Lu Paternostro. Proibida cópia, uso ou reprodução desta imagem sem a autorização da artista.
O sol nasce no horizonte Entre as florestas e os monte, despertando o Jangadeiro. Homem que não teme a morte Jangadeiro do norte trabalha nos enterros Solta a jangada no mar, vai remando devagar. Vai ficando a branca areia. Fica as mata e os palmiteiro, diz adeus ao jangadeiro. Suas folhas balanceia.
Por ter sua devoção, não tira o pé do chão. Ele faz sua oração para se arretirar. Ai, ai, pra enfrentar as ondas do mar.
Eu sô um pobre pescador, ajudai ó meu senhor. Manda um anjo protetor para o meu barco guardar Ai, ai, pras ondas não me tragar.
E o sol já se despedindo, sobre as águas vai sumindo. E as estrelas vão surgindo, fica as estrelas e o luar. Ai, ai, sol, ele, Deus e o mar.
Ele volta carregado, o seu corpo já cansado. Seu amor desesperado, no seu ranchinho a esperar. Ai, ai, ela se põe a rezar.
Lá vem o meu pescador, luto com força e vigor. Agradeço ao meu senhor, por essa benção me dar. Ai, ai, já voltou para o meu lar.
Jangadeiro Cearense Tião Carreiro e Pardinho
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Jangadeiro
Os jangadeiros são populações
tradicionais marítimas que vivem no litoral nordestino, na faixa costeira entre
o Ceará e o sul da Bahia. Muito retratado, é figura típica do litoral
Nordestino. Escasso agrupamento litorâneo, seus hábitos são ligados
estritamente ao mar. Moram em casas simples de telhados de palmas de coqueiro
ou casas de palha.
Com coragem
descomunal, saem pelo oceano, ainda de madrugada, tripulando tradicionais
jangadas de pau piúba, embarcações simples, em busca da pesca. Vão longe. Chegam
a cruzar com embarcações grandes. Em jangadas vão pescar os peixes que vendem
nos portos e mercados.
As jangadas têm
sua origem nas balsas, o mais primitivo dos barcos, composto de paus amarrados
entre si. São embarcações de madeira, típicas, usadas pelos pescadores
artesanais do Nordeste do Brasil. Luiz Câmara Cascudo afirma que a palavra
jangada é de origem asiática, presumivelmente da Malásia.
As jangadas são compostas
de materiais como a madeira de flutuação, tecidos e cordas. As tradicionais não
possuem nenhum elemento de metal para prender os componentes, apenas encaixes e
amarração com cordas de fibras selvagens.
A jangada é
construída com cinco ou seis troncos de piúva (ipê) ou de jangadeira
apeíba (Tibourbou, aUBL.), conhecida também por
pau-de-janga.
Possui uma vela
triangular, também conhecida como vela latina, presa a um mastro, que permite
navegar contra o vento. A vela está intimamente ligada à presença do navegante,
atento todo momento ao movimento do vento.
Encontramos
também objetos e apetrechos como o samburá, cesto feito de cipó ou taquara, com
uma boca estreita, onde se armazena os peixes pescados no mar; a quimanga, vasilha na qual levam
os alimentos dos jangadeiros como a farinha, a banana, a rapadura, o peixe
assado; um barrilote para armazenar a água; o remo de governo em forma de
grande pá, utilizado como leme e dois outros pequenos para propulsão; a bolina, prancha de madeira
fixada no centro da jangada, próximo ao mastro; o tauaçu, a âncora do jangadeiro,
composta de uma pedra, envolta de paus
fortes que a seguram, presas ao barco por uma corda. Da vela ao tauaçu, todos
os elementos da jangada tradicional são feitos artesanalmente.
Sua tripulação
pode ser de três a cinco pessoas que ficam um tanto quanto apertadas sobre a
embarcação.
Os pescadores tradicionais
respeitam a natureza: obedecem as marés, o regime de ventos, das correntes.
Podem ficar muito tempo ao mar dependendo do tipo de pesca. Antigamente iam
para o mar alto, chegando até a 120 quilômetros da costa. Hoje não se afastam
tanto, chegando a cerca de 50 quilômetros.
Na enseada de Mucuripe,
na cidade de Fortaleza, estado do Ceará, acontece o Circuito Cearense de
Jangadas, que compõe o calendário turístico nacional do Ministério do Turismo,
uma homenagem a força dos homens que trabalham nos 573 quilômetros da costa
marítima cearense. As principais colônias de pesca do estado se envolvem na
competição. Dias antes do evento, os jangadeiros reformam suas jangadas,
costuram os tecidos e pintam as estruturas do barco, garantindo a beleza e a segurança
de suas embarcações.
O
conhecimento da construção dessa família de embarcações artesanais está em
extinção: embora ainda haja colônias de pescadores remanescentes das primeiras
comunidades que ocuparam o litoral brasileiro, sobretudo no litoral do estado
do Ceará e do Rio Grande do Norte, praticamente não se constrói mais a jangada
tradicional, com troncos de madeira de flutuação, as jangadas de troncos. As
atuais jangadas são feitas em pranchas de madeira industrializada ou utilizando
instrumentos de corte mecanizado, as chamadas jangadas de tábuas.
As comunidades de jangadeiros são muito importantes no
litoral do Ceará para a pesca da lagosta e na costa do estado do rio Grande do
Norte onde pesca-se a lagosta e outros peixes com redes. Hoje sofrem a
concorrência dos pescadores de botes motorizados e do turismo, que adquirem
terras para a construção de estabelecimento hoteleiro nas praias.
O jangadeiro constitui um tipo original no nordeste, típico de sua paisagem. Vemos as jangadas e seus pescadores, pequenas e frágeis, lá longe, no alto mar. O jangadeiro é consagrado em canções, versos, poesia, cheios de lendas e histórias fantásticas para ouvirmos, lermos e imaginarmos.
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Por Lu Paternostro NOTA LEGAL: Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização expressa dos autores
Chamarra, vaneira, chula, pezinho e tantas outras danças que celebram a vida no campo, o galpão, o chimarrão e a força do gaúcho. Pares marcando o compasso do acordeom e da gaita, em coreografias de orgulho e tradição.
Ilustração "Danças Gaúchas", da série "Manifestações da Cultura Brasileira. Proibida cópia, uso ou reprodução desta imagem sem a autorização da artista.
Tão bela flor, Quero-Mana,
Quero-Mana lá de fora,
Foi um gaúcho que trouxe,
Na roseta da espora, ai!
Minha terra, minha terra,
ela lá e eu aqui, ai,
Por muito bem que me tratem
Não esqueço onde eu nasci
Tão bela flor, Quero-Mana,
Tão bela flor, é verdade,
Do que é ruim ninguém se lembra,
do que é bom se tem saudade, ai!
Quero-Mana Música da dança tradicional gaucha
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Danças Gaúchas: O Coração do Sul que Dança com Honra e Tradição!
Prepare-se para sentir o ritmo forte dos sapateados, a elegância dos pares e a alma fidalga do povo gaúcho! As danças gaúchas são uma das mais belas e autênticas expressões da cultura do sul do Brasil, marcadas pela influência de três grandes culturas: espanhola, portuguesa e francesa. Elas contam a história de um povo que valoriza a honra, o respeito e a celebração da vida.
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Raízes do Sul: Onde Tudo Começou
As danças gaúchas nasceram da mistura de tradições trazidas pelos colonizadores europeus e adaptadas ao modo de vida do gaúcho, o homem do campo, o peão das estâncias. Essa fusão criou um repertório riquíssimo, onde se vê:
A alegria comunitária, onde todos participam, cantam e celebram juntos.
A fidalguia e o respeito à mulher, presentes no cortejo e nos gestos delicados das danças de par.
A força e a perícia dos sapateados, herança das danças ibéricas, que mostram a destreza e a energia dos dançarinos.
Patrimônio Imaterial: A Tradição que se Mantém Viva
Embora as danças gaúchas como um todo ainda não tenham um título unificado de Patrimônio Imaterial da Humanidade, muitas delas, assim como o próprio modo de vida do gaúcho, são consideradas Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil em diversas esferas estaduais e municipais. Elas são a alma do Rio Grande do Sul, transmitidas de geração em geração nos CTGs (Centros de Tradição Gaúcha) e nas festas populares.
Patrimônio Imaterial são as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas que uma comunidade reconhece como parte de sua herança cultural. As danças gaúchas são um exemplo vivo de como a tradição, a música e a dança moldam a identidade de um povo.
As Danças Mais Famosas: Um Baile de Histórias e Passos
O universo das danças gaúchas é vasto e profuso. Cada dança tem sua própria história, seu ritmo e sua coreografia. Aqui estão algumas das mais emblemáticas:
1. Anú
Uma das danças mais tradicionais, dividida em duas partes: uma cantada, com um cortejo cerimonioso entre os pares, e outra para ser sapateada, com evoluções marcantes. Originalmente, os pares dançavam soltos, mas não independentes, em um diálogo de respeito e cortejo.
2. Balaio
De origem nordestina, mas com forte presença no Sul, mistura sapateados vigorosos com movimentos de roda. Tem influências dos lundus africanos e das quadrilhas europeias, sendo uma dança de conjunto que exige sincronia e energia.
3. Chimarrita
Trazida pelos colonos portugueses dos Açores e da Madeira, é uma dança de pares em fileiras opostas, que lembra as danças típicas portuguesas. Reflete a ternura e a delicadeza, sendo muito apreciada pelos tradicionalistas.
4. Pezinho
Também de origem açoriana, é uma dança onde todos os dançarinos cantam durante toda a coreografia. Os pares giram em torno de si, tomados pelos braços, em uma celebração de união e alegria.
5. Cana Verde
Uma dança de pares enlaçados, com evoluções que lembram a quadrilha europeia, mas com um toque gaúcho. Os balanceios e os cumprimentos entre os dançarinos são marcantes.
6. Chamamé
De origem platina (Argentina, Uruguai e Sul do Brasil), é uma dança de par solto, com passos rápidos e giros, ao som de uma música contagiante, geralmente tocada com acordeão.
7. Chula
Uma dança de desafio, praticada apenas por homens. Ao som da gaita gaúcha, os peões sapateiam sobre uma vara de quatro metros, em uma incrível sequência coreográfica que exige força, equilíbrio e destreza. É a expressão máxima da virilidade e da competição saudável.
Essas danças mostram a diversidade do repertório gaúcho. O Xote e a Valsa trazem a elegância dos salões europeus. A Milonga e a Vanera têm uma cadência mais dolente e apaixonada. O Bugio é uma dança típica dos peões, com influências indígenas, marcada por passos arrastados e um ritmo contagiante.
Instrumentos e Ritmos: A Trilha Sonora do Pampa
A música gaúcha é o coração das danças, e seus instrumentos são inconfundíveis:
Gaita (Acordeão): O instrumento mais emblemático, que comanda a maioria das danças, do xote à chula.
Violão e Viola: Acompanham as cantigas e dão base harmônica às melodias.
Bombo Legüero: Um tambor de origem indígena, tocado com uma baqueta, que marca o ritmo forte dos sapateados.
Castanholas: Usadas em algumas danças de influência espanhola, como o Fandango.
Trajes Típicos: O Orgulho de Ser Gaúcho
O traje típico é parte fundamental da dança gaúcha, não apenas como fantasia, mas como símbolo de identidade:
Homem (Pilcha): Bombacha (calça larga amarrada no tornozelo), camisa, lenço no pescoço, poncho e bota. O traje reflete o vestuário do peão do campo.
Mulher (Prenda): Saia rodada e longa, blusa, avental e um lenço colorido. O traje é elegante e remete às tradições das mulheres do campo.
Uma coisa bacana: É bem interessante a forma como o Gaúcho se preocupa em manter sua vestimenta tradicional impecável e cheias de regras. Conheça o Gaúcho Pilchado aqui
A Dança como Identidade: O que Ela Representa
As danças gaúchas são muito mais do que passos coreografados. Elas representam:
Respeito: O cortejo, a condução da dama e a postura dos dançarinos mostram a importância da fidalguia e do respeito mútuo.
Comunidade: As danças de roda e de conjunto celebram a união e a participação de todos.
Tradição: Cada passo, cada melodia e cada traje contam a história do povo gaúcho, suas origens, suas lutas e suas conquistas.
Vigor e Perícia: Os sapateados e desafios, como a Chula, mostram a força física e a destreza do gaúcho.
Por que as Danças Gaúchas são tão tão interessantes?
Porque elas são:
Autênticas: Expressam a alma do povo do sul com sinceridade e orgulho.
Vivas: São praticadas e celebradas todos os dias nos CTGs, festas e encontros de tradição.
Ricas: Com uma variedade imensa de ritmos, passos e histórias.
Patrimônio: Mantêm viva a herança cultural de gerações, sendo um elo entre o passado e o presente.
As danças gaúchas são o coração do sul pulsando em ritmo de sapateado, canto e celebração!
A série "Brasis em Traços" é uma coleção de ilustrações autorais da artista brasileira Lu Paternostro, focada na representação da cultura típica, tradicional e imaterial do Brasil. Com estilo colorido e detalhado, a série retrata festas, danças, tipos populares, lendas e a diversidade étnica brasileira, baseada em vasta pesquisa sobre o folclore e a identidade nacional.
Uma pequena lembrança para você:
Cada festa, folguedo, dança ou manifestação genuína de um povo não é algo fixo — é um organismo vivo, enraizado em um território e em constante transformação. Tudo é fluxo. Tudo é vivo, dinâmico. Como um rio, que corre sem nunca se deixar apreender por inteiro: não se captura um instante sem que ele já tenha se transformado.
É justamente aí que reside sua maior riqueza — nesse movimento contínuo, que existe no tempo e no corpo dos brincantes, despertando uma alegria difícil de nomear, mas impossível de não sentir.
Esta é apenas uma breve introdução ao tema, acompanhada de desenhos que buscam revelar um fragmento desse movimento. Lu Paternostro
A maior festa popular do Brasil, uma explosão de alegria, música e dança que toma as ruas do país. De desfiles suntuosos a blocos de rua, é uma celebração da liberdade, da criatividade e da identidade nacional.
Ilustração "Carnaval", da série "Manifestações da Cultura Brasileira. Proibida cópia, uso ou reprodução desta imagem sem a autorização da artista.
Carnaval, desengano
Deixei a dor em casa me esperando
E brinquei e gritei e fui vestido de rei
Quarta-feira sempre desce o pano
Carnaval, desengano
Essa morena me deixou sonhando
Mão na mão, pé no chão
E hoje nem lembra não
Quarta-feira sempre desce o pano
Era uma canção, um só cordão
E uma vontade
De tomar a mão
De cada irmão pela cidade
No carnaval, esperança
Que gente longe viva na lembrança
Que gente triste possa entrar na dança
Que gente grande saiba ser criança
Sonho de um Carnaval Chico Buarque Música e poesia
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Carnaval: Uma festa que faz o Brasil vibrar como um único corpo!
Prepare-se para mergulhar na alegria contagiante do Carnaval, a festa mais popular do Brasil e uma das maiores celebrações culturais do planeta! É um período de pura folia, onde a música, a dança, as cores e a criatividade tomam conta das ruas, unindo pessoas de todas as idades e origens em um só ritmo.
Uma Festa com Raízes Antigas e Globais
A palavra Carnaval vem do latim carnem levare, que significa "retirar a carne". Historicamente, o Carnaval é um período de festas e excessos que antecede a Quaresma, os 40 dias de jejum e penitência do calendário cristão.
Suas origens são muito antigas, remontando a celebrações pagãs da Antiguidade, como as festas dionisíacas na Grécia e as saturnálias em Roma, onde as pessoas se entregavam à alegria, à inversão de papéis sociais e à liberdade. Com o tempo, essas tradições foram incorporadas e adaptadas pela cultura cristã, chegando à Europa e, de lá, ao Brasil.
A Chegada ao Brasil: Do Entrudo à Folia Organizada
No Brasil, o Carnaval chegou com os colonizadores portugueses, na forma do Entrudo. Essa era uma brincadeira mais rude, onde as pessoas jogavam água, farinha e até ovos umas nas outras. Com o tempo, o Entrudo foi perdendo força e dando lugar a novas formas de folia, influenciadas pelas tradições europeias e, principalmente, pela rica cultura africana e indígena que se desenvolvia no país.
No século XIX, o Carnaval começou a se organizar, com a criação dos primeiros cordões, ranchos e blocos, que desfilavam pelas ruas com músicas e fantasias. Foi um período de transição, onde a festa popular ganhava novas formas e se adaptava à diversidade cultural brasileira.
Curiosidade Nostálgica: Antigamente, era comum ver os "carros de capota" desfilando, com as mulheres sentadas sobre o banco de trás, em uma cena elegante e charmosa que marcava a folia da época.
O Carnaval como Patrimônio Imaterial: Uma Celebração Viva
Embora o Carnaval como um todo não tenha um único título de Patrimônio Imaterial da Humanidade (como a Roda de Capoeira ou o Bumba Meu Boi do Maranhão), diversas de suas manifestações regionais são reconhecidas como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo IPHAN. Isso mostra a riqueza e a importância de cada expressão carnavalesca para a identidade brasileira.
Patrimônio Imaterial são as tradições vivas, as expressões, os conhecimentos e as práticas que uma comunidade reconhece como parte de sua herança cultural. O Carnaval, em suas múltiplas formas, é um exemplo vibrante de como a criatividade, a música, a dança e a alegria são transmitidas de geração em geração, moldando a identidade de um povo.
Os Mil Carnavais do Brasil: Uma Explosão de Diversidade
O Brasil é um país de muitos Carnavais, cada um com sua identidade, seus ritmos e suas tradições. Essa diversidade é o que torna a festa tão única e grandiosa:
Rio de Janeiro: Famoso pelos desfiles grandiosos das Escolas de Samba na Marquês de Sapucaí, com suas alegorias gigantescas, fantasias luxuosas e o samba-enredo que conta histórias e emociona. Além disso, os blocos de rua arrastam milhões de foliões em uma festa democrática e espontânea.
Salvador: Onde a festa acontece nas ruas, com os trios elétricos que arrastam multidões em circuitos como o Dodô (Barra-Ondina) e o Osmar (Campo Grande). O axé music, o afoxé e os blocos afro como o Ilê Aiyê e o Olodum celebram a cultura negra e a ancestralidade.
Pernambuco (Recife e Olinda): Conhecido pelo Frevo, um ritmo frenético e contagiante, e pelo Maracatu, com seus tambores fortes e cortejos reais. Em Olinda, os bonecos gigantes desfilam pelas ladeiras históricas, e o Galo da Madrugada, em Recife, é o maior bloco de Carnaval do mundo.
Minas Gerais: Com seus blocos de rua que crescem a cada ano, especialmente em Belo Horizonte, e os carnavais históricos de cidades como Ouro Preto e Diamantina, que mantêm a tradição dos blocos e das repúblicas estudantis.
São Paulo: Que também se destaca pelos desfiles das Escolas de Samba no Sambódromo do Anhembi, com um espetáculo de alta qualidade, e por uma crescente e vibrante cena de blocos de rua.
Os Bonecos Gigantes – A Alma Caricata e Amada do Carnaval Brasileiro
No vibrante mosaico do Carnaval brasileiro, há figuras que se erguem acima da multidão, não apenas em tamanho, mas em carisma e significado: os Bonecos Gigantes, carinhosamente chamados de "bonecões". Longe de serem meros adereços, essas imponentes esculturas de papel machê são a alma e o coração de carnavais tradicionais, carregando consigo a história, a irreverência e o afeto de um povo.
Feitos de papelagem, madeira e tecido, com uma técnica artesanal que remonta a séculos, os bonecos gigantes ganham vida nas mãos de mestres artesãos. Cada detalhe, do sorriso largo à expressão caricata, é pensado para evocar personagens importantes da nossa história, figuras folclóricas, personalidades políticas, artistas amados e até mesmo o cidadão comum, transformando-os em ícones da folia.
Em Olinda (PE), eles são protagonistas absolutos, desfilando pelas ladeiras históricas e atraindo olhares de admiração e carinho. A cidade, inclusive, abriga um Museu do Boneco Gigante, testemunho da importância cultural desses personagens. Mas a magia dos bonecões não se restringe a Pernambuco; eles agitam carnavais em diversas outras cidades pelo Brasil, como São José dos Campos (SP), Atibaia (SP), Santana de Parnaíba (SP) e muitas outras, onde se tornam o centro das atenções.
Curiosidade que encanta: A forma como esses gigantes ganham vida é um espetáculo à parte. Cada boneco é "animado" por uma pessoa que o carrega por dentro, dançando e interagindo com a multidão. É um trabalho de fôlego e paixão, que exige habilidade e resistência.
Para as crianças, a presença dos bonecões é pura magia. Elas os adoram, correm para tocá-los, tiram fotos e se encantam com a grandiosidade e a familiaridade dos personagens, vendo seus heróis e figuras queridas ganharem vida em proporções épicas. Essa interação direta cria memórias afetivas profundas, garantindo que a tradição seja amada e perpetuada pelas novas gerações.
Os bonecos gigantes são, portanto, mais do que artefatos; são pontes entre o passado e o presente, entre a crítica social e a pura alegria, entre o sonho e a realidade do Carnaval. Eles são a representação palpável da criatividade popular, um convite para olhar para cima e se deixar levar pela fantasia que só o Carnaval brasileiro sabe criar.
Música e Ritmo: A batida que contagia
A música é o coração do Carnaval. Cada região tem seus ritmos característicos, que fazem o corpo vibrar e a alma se soltar:
Samba: O ritmo mais emblemático do Carnaval brasileiro, com suas variações como o samba-enredo, o samba de bloco e o pagode.
Frevo: De Pernambuco, um ritmo acelerado e acrobático, com passos de dança únicos.
Axé Music: Da Bahia, uma mistura de ritmos africanos, pop e caribenhos, que embala os trios elétricos.
Maracatu: Também de Pernambuco, com a força dos tambores e a herança dos cortejos reais africanos.
Marchinhas: As canções tradicionais e bem-humoradas que animam os blocos de rua e os bailes.
Marchinhas Famosas que Marcaram Época:
"Mamãe Eu Quero" (Jararaca e Vicente Paiva)
"Cidade Maravilhosa" (André Filho)
"Allah-lá-ô" (Haroldo Lobo e Nássara)
"Cabeleira do Zezé" (João Roberto Kelly e Roberto Faissal)
"Me Dá um Dinheiro Aí" (Ivan Ferreira, Homero Ferreira e Glauco Ferreira)
"Sassaricando" (Luiz Antônio, Zé Keti e Oldemar Magalhães)
Os instrumentos variam de acordo com o ritmo: baterias de escolas de samba com surdos, caixas, repiques e tamborins; orquestras de frevo com metais e percussão; trios elétricos com guitarras, baixos, baterias e percussão eletrônica; e os blocos de rua com uma infinidade de instrumentos percussivos.
Artesanato e Fantasia: A Magia do Carnaval
O Carnaval é um verdadeiro ateliê a céu aberto, onde a criatividade e o artesanato se encontram para criar um universo de fantasia. Por trás de cada pluma, cada bordado, cada estrutura de alegoria, há o trabalho incansável de uma comunidade de artesãos que dedicam meses para transformar ideias em realidade:
Fantasias: Desde as mais elaboradas e luxuosas das escolas de samba, com plumas, brilhos e pedrarias, até as fantasias criativas e bem-humoradas dos blocos de rua, tudo é feito com esmero e paixão.
Alegorias: Carros alegóricos gigantescos, verdadeiras esculturas em movimento, que contam histórias e impressionam pela grandiosidade e riqueza de detalhes.
Bonecos Gigantes: Verdadeiras obras de arte da cultura popular, esses bonecos de grandes proporções, muitas vezes caricaturas de personalidades ou figuras folclóricas, são construídos com maestria e desfilam pelas ruas, interagindo com o público e adicionando um elemento lúdico e espetacular à festa.
Adereços: Máscaras, chapéus, sombrinhas de frevo e outros acessórios que complementam as fantasias e dão vida aos personagens.
Essa comunidade de artistas populares, costureiras, bordadeiras, escultores, carpinteiros e ferreiros é a alma invisível que constrói a magia visível do Carnaval, mantendo viva a tradição e a arte.
Religiosidade e Sincretismo: A Fé na Folia
Embora seja uma festa de excessos que antecede um período religioso, o Carnaval no Brasil também tem suas conexões com a fé e o sincretismo:
Santos Populares: Em algumas regiões, a festa se mistura com a devoção a santos populares.
Matrizes Africanas: A presença de blocos afro e afoxés, especialmente na Bahia, celebra a herança religiosa africana, com cânticos e ritmos que remetem ao Candomblé e à Umbanda, mostrando a força do sincretismo religioso brasileiro.
O Carnaval é um espaço onde o sagrado e o profano se encontram, onde a alegria e a fé caminham juntas, celebrando a vida em todas as suas formas.
Por que o Carnaval é uma festa tão querida?
Porque ele é:
Alegria: Que contagia e transforma as ruas em palcos de celebração.
Cultura: Que expressa a diversidade e a riqueza do povo brasileiro.
Arte: Nas fantasias, na música, na dança, nas alegorias e nos bonecos gigantes, que são a alma de muitos carnavais.
Tradição: Que se renova a cada ano, mantendo viva a chama da folia.
Liberdade: Onde todos podem ser quem quiserem, por alguns dias, em um abraço coletivo de felicidade.
O Carnaval é a alma do Brasil em festa, um convite irrecusável para celebrar a vida!!
A série "Brasis em Traços" é uma coleção de ilustrações autorais da artista brasileira Lu Paternostro, focada na representação da cultura típica, tradicional e imaterial do Brasil. Com estilo colorido e detalhado, a série retrata festas, danças, tipos populares, lendas e a diversidade étnica brasileira, baseada em vasta pesquisa sobre o folclore e a identidade nacional.
Uma pequena lembrança para você:
Cada festa, folguedo, dança ou manifestação genuína de um povo não é algo fixo — é um organismo vivo, enraizado em um território e em constante transformação. Tudo é fluxo. Tudo é vivo, dinâmico. Como um rio, que corre sem nunca se deixar apreender por inteiro: não se captura um instante sem que ele já tenha se transformado.
É justamente aí que reside sua maior riqueza — nesse movimento contínuo, que existe no tempo e no corpo dos brincantes, despertando uma alegria difícil de nomear, mas impossível de não sentir.
Esta é apenas uma breve introdução ao tema, acompanhada de desenhos que buscam revelar um fragmento desse movimento. Lu Paternostro
Ilustração "Pescadores Artesanais", da série "Manifestações da Cultura Brasileira. Copyright Lu Paternostro. Proibida cópia, uso ou reprodução desta imagem sem a autorização da artista.
Minha jangada vai sair pro mar
Vou trabalhar, meu bem querer
Se Deus quiser quando eu voltar do mar
Um peixe bom eu vou trazer
Meus companheiros também vão voltar
E a Deus do céu vamos agradecer
Adeus, adeus
Pescador não esqueça de mim
Vou rezar pra ter bom tempo, meu nêgo
Pra não ter tempo ruim
Vou fazer sua caminha macia
Perfumada com alecrim
Suíte do Pescador Dorival Caymmi
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Pescadores Artesanais
Há 250 anos, o litoral era dos índios e, posteriormente, dos açorianos,
um povo com muita experiência com o mar. Unindo aos escravos negros, o litoral
brasileiro foi se tornando fortemente povoado por pescadores, que, unido ao
recorte favorável de nosso litoral, impulsionou o desenvolvimento da pesca
artesanal por todo o país. Por isso, o Brasil é o país da pesca artesanal.
A pesca artesanal, dá sustento a milhares de brasileiros e abastece
diversos municípios e comunidades. Feita em pequena escala e de forma
sustentável, representa mais da metade do que é consumido internamente no país.
Por todo o litoral, de norte a sul do Brasil, em cerca de 8.000 quilômetros de
praias, bahias, ilhas, recôncavos, verdadeiros berçários naturais, encontramos
embarcações pequenas, de vários tipos, espalhadas pela orla, próxima as costas,
que acaba caracterizando as paisagens do litoral brasileiro.
Trabalham perto de casa, primeiro para suprir o consumo da família, da
sua comunidade e depois do mercado, quando os peixes são comercializados. Nas
vilas de pescadores podemos encontra-los ao lado de suas redes, tecendo,
concertando-as para a próxima pesca.
A rotina destes pescadores é muito semelhante e normalmente a atividade
é feita pelos homens, embora existem mulheres nesta atividade.
Os pescadores de pesca artesanal se caracterizam por utilizarem
embarcações simples e de pequeno porte. As vezes trabalham sem embarcações como
aqueles que capturam moluscos nas costas. A mão de obra é familiar e o serviço
no mar começa muito cedo.
A pesca local, mais comum, é realizada em rios, lagoas e lagos que
localizam-se próximas ao litoral. Desta forma as embarcações ficam próximas das
costas.
Utilizam vária
técnicas para pescas e capturar como o arrastão; a tarrafa, uma rede
de pesca circular, com pequenos
pesos distribuídos em torno de toda a circunferência dela, arremessada com as
mãos pelo pescador; linha e anzol; armadilhas; a rede de cerco, uma rede
que possui argolas por onde passa um cabo que ao fechar a rede por baixo,
prende os peixes dentro dela; redes de emalhar, um tipo de pesca passiva, em
que peixes e crustáceos, por causa de seus próprios movimentos, ficam presos nas
malhas destas redes.
Também fazem a
pesca artesanal os povos ribeirinhos, uma população tradicional que reside nas
proximidades de rios e têm a pesca e a caça como principal atividade de
sobrevivência. Cultivam pequenos roçados para consumo próprio e também podem
praticar atividades extrativistas. Suas casas
são construídas em madeira, podendo ser palafitas. As palafitas são casas de
madeira localizadas em regiões alagadiças, com a função de evitar que as casas
sejam arrastadas pela correnteza dos rios. Encontramos palafitas nas margens
dos rios da Amazônia, áreas da baixada fluminense e no Pantanal.
Para os ribeirinhos o rio é essencial. Usam-no como via de transporte
para jangadas e barcos. É nele também que os ribeirinhos executam uma das
principais atividades que lhes proporciona fonte de renda e de sobrevivência: a
pesca.
O contato profundo dos ribeirinhos com a natureza, os faz grandes
conhecedores da fauna, da flora, da floresta, dos peixes, dos cardumes, das
fases da lua, do uso de remédios naturais, das condições da maré, do caminho
das águas, dos sons da mata, o
manejo dos instrumentos de pesca, etc.
Este conjunto de conhecimentos fazem parte dos saberes relacionados à
pesca artesanal e alimenta a cultura e os saberes transmitidos através das
gerações. Toda a confiança na hora de
sair para o alto mar vem dos conhecimentos que possuem, sendo assim, se não
adquirem esses saberes, chamados de tradicionais, por serem passados de geração
em geração, podem sofrer consequências sérias na pescaria
A poluição das águas, a destruição dos habitats naturais, especulação
imobiliária, a especulação do pescado, a falta de respeito dos próprios
pescadores com as normas de pesca que servem para regularizar a atividade
tornando-a sustentável, a falta de fiscalização, a falta de respeito ao defeso,
o período de crescimento de camarões, peixes, o crescimento da globalização e
da pesca industrial, estão, Infelizmente prejudicando as atividades no país. Desta
forma, os ambientes marinhos estão cada vez mais ameaçados.
No mundo todo é sabido que devemos preservar e proteger as populações
tradicionais, os ambientes naturais e marinhos e a pesca artesanal sustentável,
mesmo porque a pesca artesanal é responsável por mais da metade do peixe
consumido no país. Os modelos de reservas extrativistas (Resex) é uma saída,
embora a falta de fiscalização leve a invasão dessas reservas pelos barcos de
pesca industrial ou predatória, que brigam de forma desleal com os pescadores
artesanais.
Estes barcos de pesca industrial muito próximos ao litoral, praticamente
aonde estão os pescadores artesanais, utilizam redes de malha fina, que pescam
também os filhotes.
A natureza é o meio de trabalho dos pescadores artesanais. Calcula-se
que mais de 2 milhões de pessoas seja envolvida nesta atividade. Infelizmente
estas comunidades ribeirinhas convivem com o isolamento econômico e social,
ficando à margem de uma série de políticas públicas e mecanismos de controle da
qualidade de vida. A situação geográfica de muitas dessas comunidades é um dos
principais fatores limitantes de acesso aos serviços básicos de saúde e
educação.
A pesca artesanal sustenta, da alimento e dinheiro para inúmeras
gerações de famílias. A maneira como ela é feita, protege a natureza. Infelizmente
a atividade está sendo prejudicada no país.
O Decreto nº 6.040, de 07 de fevereiro de 2007, reconheceu a existência dos povos e comunidades tradicionais, dentre os quais estão os ribeirinhos, instituindo uma política nacional voltada para as necessidades específicas desses povos, a Política Nacional de Desenvolvimento dos Povos e Comunidades Tradicionais (PNPCT).
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Por Lu Paternostro NOTA LEGAL: Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização expressa dos autores