Baile de Congo capixaba que encena a disputa entre o Rei de Congo e o Rei de Bamba para homenagear São Benedito. Batas brancas, chapéus floridos e tambores marcam uma ópera popular de forte raiz banto.

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Entre serra e mar,
Das tardes num rio a se banhar,
Os pensamentos vagueiam num dourado céu de acolá.
Vales e montanhas, verde e azul de uma terra ao léu...
Dorme um sonho de quem acredita naquele lugar.
Em roda da pedra ou na Barra
Um congo a cantarolar, a dançar...
Ticumbí nas dunas,
Jongo e Folia vêm lá.
Gente que planta a semente,
Sopro de vida de um ser maior...
Cala a palavra e o que fala é a vida ao luar
Em roda da pedra...
Entre serra e mar...
Mar e Montanha
Grupo Moxuara
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Ticumbi: O Baile de Congo que Canta a Força e a Fé do Povo Negro!
Prepare-se para adentrar um dos mais poderosos rituais da cultura afro-brasileira: o Ticumbi, ou Baile de Congo de São Benedito.
Uma dança dramática, uma ópera popular, um auto sagrado que nasceu do encontro entre a fé católica e as tradições dos reinos africanos bantos.
É a história de reis, guerras e reconciliação contada em versos, danças e cores, no extremo norte do Espírito Santo.
O Berço do Ticumbi: Entre Serra, Mar e Memória
O Ticumbi é um folguedo tradicional do Vale do Cricaré, região entre as cidades de Conceição da Barra e São Mateus, no Espírito Santo. Essa é considerada a “região mais africana” do estado, onde prosperaram fazendas que utilizavam o trabalho de milhares de negros de tradição banto, vindos da África e desembarcados no porto de São Mateus.
A vila de Itaúnas, palco de uma das celebrações mais emblemáticas do Ticumbi, carrega em si a própria história do folguedo: a antiga vila foi soterrada pelas dunas, mas seu povo, com amor e resiliência, reconstruiu a comunidade do outro lado do rio, mantendo viva a chama da tradição.

Patrimônio Imaterial: A Memória que Dança
O Ticumbi é um registro vivo da história, transmitido de geração em geração. Embora ainda não tenha um título unificado de Patrimônio Imaterial da Humanidade, ele é reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Espírito Santo e um dos mais importantes representantes da cultura banto no Brasil.
Patrimônio Imaterial são as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas que uma comunidade reconhece como parte de sua herança cultural. O Ticumbi é a prova de que a memória pode ser cantada, dançada e celebrada, mantendo viva a identidade de um povo.
O Auto do Ticumbi: Uma Ópera Popular em Atos
O Ticumbi é um auto dramático, dividido em mais de 10 partes, que conta a história de dois reis negros: o Rei de Congo (cristão) e o Rei de Bamba (pagão). A trama gira em torno da disputa para ver quem terá o direito de realizar a festa de São Benedito, padroeiro dos negros, pobres e oprimidos.
- Cortejo e Embaixadas: Os reis, acompanhados de seus secretários (chamados de “sacratários”) e seus exércitos de congos, trocam desafios e embaixadas, dialogando em versos.
- A Guerra “Sem Travá”: Como não chegam a um acordo, inicia-se a primeira guerra, uma “luta bailada” coreografada, cheia de energia e simbolismo.
- A Guerra “Travada”: Os reis batem espadas, e a batalha se intensifica, representando o conflito entre o cristianismo e as tradições ancestrais.
A Rendição e o Batismo: Ao final, o Rei de Bamba se rende, é batizado e todos celebram a união. O clímax é o “Te Cumbia”, uma dança de ombros que celebra a vitória e louva a Zambi — palavra banto que significa “Deus”.
Personagens: Reis, Guerreiros e a Coroa de Flores
Cada personagem tem um papel fundamental na encenação:
- Rei de Congo e Rei de Bamba: Usam coroas de papelão dourado ou prateado, peitoral de espelhinhos e flores, capa comprida e uma longa espada.
- Secretários (Sacratários): Atuam como embaixadores, desafiando o lado oposto em diálogos cantados.
- Congos: O corpo de dança, composto por guerreiros que tocam pandeiros e ganzás, vestindo longas batas brancas rendadas, calças largas com friso de fita, fitas trançadas no peito e, na cabeça, um chapéu ou lenço branco adornado com flores e fitas coloridas — um dos visuais mais bonitos e característicos do Ticumbi.
- Violeiro: Acompanha o grupo, com vestimenta semelhante à dos dançantes, entoando as melodias que guiam o auto.

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Música e Instrumentos: O Ritmo que Conta História
A trilha sonora do Ticumbi é marcante e africana:
- Pandeiros e Ganzás (Canzás): Chocalhos feitos de latas, que dão o ritmo pulsante da dança.
- Viola: Entoa as melodias e os versos, que são renovados a cada ano para comentar fatos sociais, políticos ou histórias locais.
- Cantos: As letras são improvisadas ou adaptadas, transformando o Ticumbi em um jornal vivo, que narra o cotidiano da comunidade.
Rito e Identidade: “São Benedito é Filho de Zambi!”
O Ticumbi é uma fusão única de elementos católicos e africanos. Embora aconteça em torno da Igreja e da devoção a São Benedito e São Sebastião, seus movimentos, gestos e coreografias são de clara referência banto.
Durante o “Te Cumbia”, os participantes afirmam: “São Benedito é filho de Zambi”, unindo a fé cristã à espiritualidade africana. O auto, portanto, é também um ato de afirmação da identidade negra, um ritual de resistência e celebração da ancestralidade.
A Tradição que se Renova: Mestres e Comunidade
O Ticumbi é mantido vivo graças à dedicação de seus mestres e da comunidade. O Mestre Tertolino Balbino (Mestre Terto), falecido em 2022, liderou o grupo de 1954 a 2018, mantendo a força da tradição quilombola da região.
Os ensaios começam em outubro e novembro, nas roças, e a festa acontece em janeiro, com procissões, apresentações e banquetes comunitários. O grupo do Ticumbi – Baile de Congo de São Benedito de Conceição da Barra é um dos mais antigos e importantes expoentes dessa manifestação cênico-musical.
Por que o Ticumbi é tão importante?
Porque ele é:
- Memória Viva: Um auto que narra a história dos reinos africanos, da escravidão e da resistência negra no Brasil.
- Arte Total: Une teatro, dança, música, poesia e artes visuais em uma só apresentação.
- Identidade e Resistência: É um ritual de afirmação da cultura banto, que resiste ao tempo e à invisibilidade.
- Comunidade: Une gerações, celebra a fé e fortalece os laços sociais, sendo um pilar da cidadania capixaba.
O Ticumbi é a força da ancestralidade que dança, canta e luta em cada gesto, um tesouro do Espírito Santo que pulsa como um coração africano no Brasil.

A série "Brasis em Traços" é uma coleção de ilustrações autorais da artista brasileira Lu Paternostro, focada na representação da cultura típica, tradicional e imaterial do Brasil. Com estilo colorido e detalhado, a série retrata festas, danças, tipos populares, lendas e a diversidade étnica brasileira, baseada em vasta pesquisa sobre o folclore e a identidade nacional.
Uma pequena lembrança para você:
Cada festa, folguedo, dança ou manifestação genuína de um povo não é algo fixo — é um organismo vivo, enraizado em um território e em constante transformação. Tudo é fluxo. Tudo é vivo, dinâmico. Como um rio, que corre sem nunca se deixar apreender por inteiro: não se captura um instante sem que ele já tenha se transformado.
É justamente aí que reside sua maior riqueza — nesse movimento contínuo, que existe no tempo e no corpo dos brincantes, despertando uma alegria difícil de nomear, mas impossível de não sentir.
Esta é apenas uma breve introdução ao tema, acompanhada de desenhos que buscam revelar um fragmento desse movimento.
Lu Paternostro
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- Samba de Coco de Arcoverde. Manifestações da Cultura Tradicional Brasileira. Série Brasis em Traços.
- Folia de Bois de Arcoverde. Manifestações da Cultura Tradicional Brasileira. Série Brasis em Traços.
- Cientistas e Sanitaristas Brasileiros
- NFT ART “Little Worlds ‘Multi Mundos’ Cryptos LWCU” (1987-88)
- Livro Brazílske Legendy | Lendas Brasileiras
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Para mim, a grande arte está no todo. 
Já fui a Itaunas e assisti, adorei!!
Quero saber a data do evento em 2020.
Acontece no começo do ano, dias 19 e 20 de janeiro. Mas sempre bom confirmar! Agora só em 2021! Abraço!
Lindo trabalho e inspirações. Mas uma pergunta: por que não representa essa manifestaçao com atores negros, já que estamos falando de uma cultura de plena herança negra?
Olá, tudo bem?
Obrigada! Fico honrada!
Encontrei pouquíssima coisa sobre esta manifestação, pesquisando mais em imagens mesmo. Pelo que pude ver, a festa é feita com atores negros e brancos, não havendo distinção.
Na verdade, como designer, me preocupei muito com as flores, pois queria a ilustração com mais riqueza de detalhes, não focando, sendo bem honesta com você, nas cores dos personagens! Mas que bom que tenha gostado e interagido comigo! Gosto muito de saber a opinião das pessoas e, gosto mais ainda, de saber suas dúvidas e questionamentos!
Um abraço grande e cordial!
Lu Paternostro