Teatro de rua que celebra a coroação de reis do Congo, com espadas, bastões e cantos de fé. Mistura de catolicismo e matriz africana que exalta São Benedito, Nossa Senhora do Rosário e a realeza negra.

Ilustração "Congada", da série "Manifestações da Cultura Brasileira. 
 Copyright Lu Paternostro. Proibida cópia, uso ou reprodução desta imagem sem a autorização da artista.
Ilustração "Congada", da série "Manifestações da Cultura Brasileira.
Proibida cópia, uso ou reprodução desta imagem sem a autorização da artista.

Benedito Santo 
De Jesus querido 
Valha-me Deus 
Que eu tenho sofrido 

Que santo é aquele 
Que vem no andor 
É São Benedito 
Enfeitado de flor 

É conga, é conga, é congada 
Bate marimba e tambor 
Vou pegar minha espada 
Que eu também sou lutador....

Congada
Romildo e Toninho Nascimento
Música e poesia

_________________

Congada: A Realeza Negra que Dança a Fé, a Luta e a Memória no Coração do Brasil!

Prepare-se para testemunhar um espetáculo de fé, resistência e realeza!

Congada, também conhecida por Congo ou Congado, é uma manifestação cultural e religiosa de origem Africana, um folguedo de rua que reúne tradições mouras e cristãs. Os grupos vão cantando, marchando e dançando, batendo suas espadas numa coreografia complexa, trocando de lugar. Vestem-se com roupas características e por pura devoção mantém sua tradição viva. Tradicionalmente o ponto alto é representação da coroação do rei e rainha do Congo.

A congada acontece em várias festividades durante o ano todo, principalmente em festas de Nossa Senhora do Rosário e em alguns locais, nas festas do Divino.

_____

A Origem Real e a Resistência no Cativeiro

A Congada remete às lutas travadas no território africano, principalmente no Congo, onde muitos reis perderam seus tronos e vieram a ser escravos no Brasil, durante a colonização portuguesa no século XV. A devoção de seu povo os mantinha reis mesmo sem nada governarem, uma forma de resgatar o reino que foi perdido em suas terras de origem  

No Brasil, a Congada consolidou-se como uma forma de os negros escravizados expressarem sua cultura e fé. Temendo rebeliões, os senhores brancos e a Igreja permitiam que dançassem suas congadas, mas escolheram para isso as datas de devoção dos santos cristãos. Assim, a Congada se tornou uma mistura das peças trazidas pelos negros escravizados com a religiosidade cristã praticada na colônia

Patrimônio Cultural: A Realeza que se Mantém Viva!

A Congada, com sua riqueza e profundidade, é um patrimônio vivo que reflete a identidade do povo afro-brasileiro. Embora não possua um título unificado de Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo IPHAN, diversas manifestações de Congado em estados como Minas Gerais, São Paulo e Goiás são reconhecidas como Patrimônio Cultural Imaterial em nível estadual ou municipal. Sua importância para a formação da identidade cultural brasileira é inegável e amplamente valorizada.

Patrimônio Imaterial são as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas que uma comunidade reconhece como parte de sua herança cultural. A Congada é um exemplo grandioso de como a fé, a dança, o teatro e a música se entrelaçam para manter viva a memória de uma realeza perdida e a esperança de um povo.



O Cortejo da Congada: Teatro, Dança e Devoção

A Congada é uma espécie de teatro de rua, um bailado dramático que relembra a história de lutas e conquistas de forma simbólica, não deixando morrer a lembrança do poder do povo negro  

Os grupos vão cantando, marchando e dançando, batendo suas espadas ou bastões em uma coreografia complexa, trocando de lugar  

Coroação dos Reis: O ponto central da festa é a representação da coroação do rei e da rainha do Congo, um ritual de grande pompa e significado. Embora em muitos lugares essa tradição esteja se perdendo, restando apenas os "ternos" e suas danças compassadas  

  • Ternos ou Guardas: Os cortejos são acompanhados por grupos denominados "ternos" ou "guardas", cada um com seu líder, o capitão .
  • Embaixadas: Em alguns locais, há uma encenação dramática chamada "embaixada", que representa as lutas entre mouros e cristãos, ou pagãos e batizados, em forma de coreografias .

Rituais: Durante as festas, há levantamento de mastros, muita música, dança, batuque de zabumba, canto, louvação e animação.

Personagens e Indumentária: A Hierarquia em Cores e Brilho

As roupas são muito importantes na Congada, pois representam a hierarquia e os personagens, identificando os diferentes grupos do cortejo pelas características das cores e adereços .

  • Reis e Rainhas: Vestem trajes majestosos, com coroas, mantos e adereços que simbolizam a realeza africana.
  • Guerreiros/Dançarinos: Usam camisas, capas, chapéus, espadas e lenços, feitos de tecidos confortáveis para não inibir os movimentos. Há uma série de fitas e bandeiras coloridas que trazem a imagem dos santos .
  • Santos Negros: Os santos cultuados nas congadas, presentes em seus estandartes, são normalmente santos negros como São Benedito, Santa Efigênia e Nossa Senhora do Rosário  

. A Princesa Isabel também é saudada, cruzando a tradição da monarquia africana com a brasileira .

  • Chico Rei: A lenda de Chico Rei, um monarca do Congo que foi escravizado, comprou sua alforria e a de mais de 200 escravizados, e levantou a Igreja de Santa Efigênia em Ouro Preto, faz parte das tradições orais e da memória dos congadeiros .

Música e Instrumentos: A Batida que Chama a Energia Ancestral

A música é o coração da Congada, com cantos que são puxados por uma pessoa e a multidão acompanha o refrão . As letras falam do sofrimento da escravidão, dos lamentos de um povo arrancado de sua terra, mas também são cantos de esperança e redenção, na espera de uma vida melhor .

Os instrumentos musicais utilizados são diversos e conferem a sonoridade única da Congada:

  • Tambores: Cuíca, caixa, pandeiro, tamborim, surdo, tarol, zabumba. Os tambores são a força da Congada, chamando a energia positiva dos antepassados .
  • Cordas: Cavaquinho, viola, violão, rabeca ou violino popular.
  • Outros: Reco-reco, sanfona, acordeão, agogô.

O canto é entoado com letras em português, mas também com palavras do idioma banto, na melhor tradição oral . Há um sincretismo musical, onde se cantam músicas públicas como benditos aos santos católicos e, em terreiros, saúda-se marinheiros, pretos velhos, orixás como Iansã e Xangô .

Fé e Espiritualidade: A Devoção que Move a Congada

A Congada acontece em várias festividades durante o ano todo, principalmente em festas de Nossa Senhora do Rosário e, em alguns locais, nas festas do Divino  

É uma manifestação que envolve o canto, a dança, o teatro e a espiritualidade cristã e de matriz africana .

Para os congadeiros, a Congada é uma questão de devoção e fé. É uma forma de receber as energias dos antepassados, dos espíritos de luz que protegem o grupo. A vibração dos tambores e a dança sem canseira, mesmo suando, são a prova de que estão recebendo o axé dos que já se foram . É uma missão que exige preparo espiritual e muita dedicação.

Por que a Congada é tão importante para o Brasil?

Porque ela é:

  • Memória Viva: Um elo direto com a história da realeza africana e a resistência dos negros escravizados no Brasil.
  • Sincretismo Profundo: Uma fusão única de fé católica e matriz africana, que celebra a diversidade religiosa do Brasil.
  • Arte Total: Uma expressão completa de dança, música, canto, teatro e artes visuais em um espetáculo de profunda emoção.
  • Comunidade e Fé: Fortalece os laços sociais, transmite saberes e mantém viva a identidade do povo afro-brasileiro.
  • Energia Contagiante: Um ritmo que faz o corpo vibrar e a alma se conectar com a força da ancestralidade.

A Congada é a batida do coração da África que pulsa no Brasil, um convite para sentir a força, a fé e a memória de uma cultura que dança e canta sua história com orgulho e resiliência!


Selo Brasis em Traços de Lu Paternostro

A série "Brasis em Traços" é uma coleção de ilustrações autorais da artista brasileira Lu Paternostro, focada na representação da cultura típica, tradicional e imaterial do Brasil. Com estilo colorido e detalhado, a série retrata festas, danças, tipos populares, lendas e a diversidade étnica brasileira, baseada em vasta pesquisa sobre o folclore e a identidade nacional.


Uma pequena lembrança para você:

Cada festa, folguedo, dança ou manifestação genuína de um povo não é algo fixo — é um organismo vivo, enraizado em um território e em constante transformação. Tudo é fluxo. Tudo é vivo, dinâmico. Como um rio, que corre sem nunca se deixar apreender por inteiro: não se captura um instante sem que ele já tenha se transformado.

É justamente aí que reside sua maior riqueza — nesse movimento contínuo, que existe no tempo e no corpo dos brincantes, despertando uma alegria difícil de nomear, mas impossível de não sentir.

Esta é apenas uma breve introdução ao tema, acompanhada de desenhos que buscam revelar um fragmento desse movimento.
Lu Paternostro

______________

_______________

NOTA LEGAL: Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização expressa dos autores