No coração do Bumba Meu Boi, comunidades se dividem entre sotaques e cores para celebrar a morte e ressurreição do boi, em uma festa de fé, música e identidade. Reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil e da Humanidade, é a maior expressão da cultura popular maranhense.

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Ilustração "Boi Bumbá", da série "Manifestações da Cultura Brasileira.
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Tu precisa ir pro Norte
Ver Bumba meu Boi Bumbá

Ê bum bum Bumba meu Boi
Ê Bumba meu Boi Bumbá
(Ê bum bum bum Bumba meu boi
Ê Bumba meu Boi Bumbá)

Tu precisa ver a dança
Do reisado imperiá

(Ê bum bum bum Bumba meu boi
Ê Bumba meu Boi Bumbá)

No dia desse festejo
Vai toda gente pra rua

Ê bum bum Bumba meu Boi
Ê Bumba meu Boi Bumbá
(Ê bum bum bum Bumba meu boi
Ê Bumba meu Boi Bumbá)

Todo mundo qué espiá
A dança do Boi Bumbá!

Ê bum bum bum Bumba meu Boi...

Bumba meu Boi
Jackson do Pandeiro
Música e poesia

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Bumba Meu Boi / Boi Bumbá: O Milagre que Faz o Brasil Dançar!

“Tu precisa ir pro Norte Ver Bumba meu Boi Bumbá Ê bum bum Bumba meu Boi Ê Bumba meu Boi Bumbá!”
– Jackson do Pandeiro, “Bumba meu Boi”

De norte a sul do Brasil, a figura do boi é um ícone cultural. Mas é no Maranhão que a brincadeira do Boi Bumbá se torna uma explosão de vida, incorporada ao cotidiano do povo. Uma extraordinária mistura de dança, folclore, música, religião e teatro que faz a terra tremer!

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O Coração da Brasilidade: Onde Tudo Começou

O Bumba Meu Boi é um dos traços mais marcantes da identidade cultural brasileira. Nascido no século XVIII, no Nordeste, ele é o resultado de um encontro mágico de três mundos:

  • A Europa: Com seus autos populares e a história da fazenda.
  • A África: Com seus ritmos contagiantes, instrumentos e a força da religiosidade.
  • Os Povos Indígenas: Com a conexão com a natureza, as cores vibrantes e os rituais ancestrais.

Essa rica tradição se mantém viva até hoje, especialmente no Maranhão, onde o Bumba Meu Boi não é apenas uma festa, mas um terreno fértil onde as comunidades dialogam, criam e celebram a vida.



Um Boi, Mil Nomes: A Diversidade pelo Brasil

O Bumba Meu Boi viaja pelo Brasil e, como um camaleão cultural, adquire características diversas na dança, ritmo, personagens e enredo. Por isso, ele ganha muitos nomes:

  • Maranhão, Pará, Rondônia, Amazonas: Boi-Bumbá ou Pavulagem
  • Pernambuco: Boi-Calemba ou Bumbá
  • Ceará: Boi de Reis, Boi-Surubim ou Boi-Zumbi
  • Bahia: Boi-Janeiro, Boi-Estrela-do-Mar, Dromedário e Mulinha-de-Ouro
  • Minas Gerais e Rio de Janeiro: Bumba ou Folguedo do Boi
  • Espírito Santo: Boi de Reis
  • São Paulo: Boi-de-Jacá e Dança-do-Boi
  • Paraná e Santa Catarina: Boi-de-Mourão ou Boi-de-Mamão
  • Rio Grande do Sul: Bumba, Boizinho ou Boi-Mamão

Cada nome é um convite para descobrir um pedacinho da alma brasileira!

O Enredo Mágico: Desejo, Morte e um Milagre Ecumênico!

A lenda central do Bumba Meu Boi é um verdadeiro teatro popular:

  • Mãe Catirina, grávida de Pai Francisco, tem um desejo inusitado: comer a língua do melhor boi da fazenda.
  • Para satisfazer sua amada, Pai Francisco não hesita e mata o boi preferido do seu senhor.
  • Ao descobrir o ocorrido, o fazendeiro fica furioso e ordena a punição do culpado.
  • Temendo pela própria vida, Pai Francisco pede ajuda a santos, orixás e pajés.
  • E, para o alívio de todos, o boi ressuscita! Um verdadeiro milagre ecumênico que une fé católica, religiões afro-brasileiras e saberes indígenas em uma explosão de alegria.

Ano após ano, os personagens dessa lenda ganham vida nos grupos de Bumba Meu Boi, mostrando que a fé e a esperança podem mover montanhas… ou ressuscitar bois!

"Quanto mais a gente embelezar aquela cultura que a gente cultiva e gosta, a decoração, e quanto mais a gente trabalhar para ver ela bonita, dar aquela vida para ela, mais feliz na vida a gente fica."

Uma brincante falando sobre os enfeites das vestimentas

Personagens que Encantam e Divertem

O Bumba Meu Boi é um desfile de figuras inesquecíveis:

  • O Boi: A estrela da festa, um boneco imponente, ricamente bordado.
  • Pai Francisco e Mãe Catirina: O casal cômico que inicia a aventura.
  • Capitão: O mestre de cerimônias que comanda a brincadeira.
  • Vaqueiros, índios, índias e caboclos: Com suas danças e indumentárias deslumbrantes, defendem o boi e a fazenda.
  • Cazumbás: Figuras misteriosas com máscaras e batas coloridas, que fazem soar seus sinos ao rebolar, misturando o assustador com o divertido.

Como disse um brincante: "Eu posso ser uma índia, uma Cabocla de pena, um Caboclo Real, uma Catirina, um bicho palha… meu personagem é meio brabo, ele representa a parte mais brava do boi, defendendo o que é nosso!"

A Arte Viva: Bordados, Indumentárias e Artesanato

Toda essa celebração requer muito esforço e dedicação. O Bumba Meu Boi é um terreno fértil para o artesanato e a arte popular:

  • Indumentárias Bordadas: As fantasias são verdadeiras obras de arte, ricamente bordadas com canutilhos, miçangas, lantejoulas e fios dourados. As bordadeiras trabalham com esmero por meses, transformando tecidos em sonhos.
  • Instrumentos Artesanais: As toadas são embaladas por instrumentos construídos de forma artesanal, cada um com seu som e sua história.
  • O Boi: A estrutura de madeira do boi, coberta por veludo e bordados preciosos, é um testemunho do talento coletivo de marceneiros, costureiras e artistas.

É um trabalho que envolve uma parcela grande da população, que se dedica com responsabilidade e paixão para que o brilho desse grandioso acontecimento se revele.

Os Sotaques do Maranhão: Uma Sinfonia de Ritmos!

O Bumba Meu Boi do Maranhão é famoso por seus cinco "sotaques" – formas rítmicas e estéticas que definem cada grupo. A diferença fundamental está nos instrumentos, nos sons e na forma de dançar:

  1. Sotaque da Ilha (ou de Matraca):
    • Ritmo: Mais lento, com gestos curtos e menos gingado, lembrando rituais indígenas.
    • Instrumentos: Predominam as matracas (peças de madeira batidas), e o tambor-onça (uma cuíca que imita o ronco do boi).
    • Personagem: O Caboclo Real, um índio mitológico coberto de penas multicoloridas.
    • Exemplo de grupo: Boi de Iguaíba.
  2. Sotaque de Zabumba:
    • Origem: Antigo, com raízes nitidamente africanas, vindo do município de Guimarães.
    • Ritmo: Vibrante, com alternância de cadências lentas e apressadas.
    • Instrumentos: O zabumba (tambor grande) é o centro da marcação rítmica.
    • Dança: Os brincantes usam os calcanhares como ponto principal de apoio.
    • Fantasias: Ricamente bordadas com canutilhos e miçangas.
    • Exemplo de grupo: Boi da Liberdade.
  3. Sotaque Costa de Mão:
    • Origem: Encontrado na região de Cururupu, litoral oeste do Maranhão.
    • Ritmo: Cadenciado, marcado por maracas, caixas e o pandeiro, que é batido com as costas das mãos (daí o nome!).
    • Fantasias: Calças de veludo bordadas e chapéus em forma de cogumelos.
    • Exemplo de grupo: Boi Brilho da Sociedade.
  4. Sotaque da Baixada (ou de Pindaré):
    • Origem: Vale do Rio de Pindaré.
    • Ritmo: Suave, mas contagiante.
    • Personagem: O Cazumbá veste uma bata bordada ou de veludo, com uma grande máscara de bichos de longos fios, e faz soar seus chocalhos ao rebolar.
    • Instrumentos: Pandeiros e matracas com um toque suave.
    • Exemplo de grupo: Boi Santa Fé.
  5. Sotaque de Orquestra:
    • Origem: Região do Rio.
    • Ritmo: Influenciado por diversos gêneros musicais, com uma batida mais dançante.
    • Instrumentos: Incorpora instrumentos de sopro e de cordas, além da sanfona.
    • Fantasias: Muito coloridas, arrastando multidões.
    • Curiosidade: Alguns veem como descaracterização, outros como uma adaptação aos novos tempos, que só aumenta o interesse pela manifestação.
    • Exemplo de grupo: Boi de Axixá.


Fé, Devoção e Ecumenismo: A Alma do Festejo

O Bumba Meu Boi é um complexo cultural que congrega diversas manifestações culturais e religiosas:

  • Devoção aos Santos Juninos: Especialmente São João e São Pedro, com fogueiras e bandeirinhas coloridas.
  • Religiões Afro-Brasileiras: Traços do Tambor de Mina, Tambor da Mata e Terecô, com a presença de orixás e entidades espirituais.
  • Rituais Indígenas: Elementos que remetem à ancestralidade e à conexão com a terra.

Na noite de 23 de junho, véspera de São João, o batismo do novo couro do boi é um momento sagrado. Sob a proteção de um altar e velas, o boi é abençoado com água benta e rezas católicas, um ritual de proteção para que não ocorra nenhum acidente ou violência durante a festa. É a expectativa de uma proteção sobrenatural que une diferentes crenças.

O Ciclo da Vida: Da Preparação à Morte e Renascimento

A celebração do Bumba Meu Boi não é apenas um dia, mas um ciclo que movimenta a economia e a vida maranhense por meses:

  • Preparação: Logo após o Carnaval, as sedes dos Bois já estão voltadas para as apresentações juninas.
  • Ensaios: Um mês antes da festa, os ensaios tornam-se cotidianos, com coreografias cuidadosamente ensaiadas e toadas marcantes.
  • Cortejo: Um imponente cortejo ganha as ruas, reunindo vários grupos e recebendo convidados.
  • Apresentação: Com os pandeiros aquecidos em fogueiras e sob a luz da lua, o novo couro do boi é apresentado à comunidade.
  • Matança: O momento derradeiro da festa, em alguns grupos, só acontece em outubro. É a encenação da morte do boi, onde vaqueiros laçam o animal que luta bravamente, cumprindo seu destino traçado pelo desejo de Mãe Catirina.
  • Renascimento: Apesar da tristeza pelo fim do espetáculo, fica a alegria de saber que o ciclo se fechou e que as raízes estão vivas, garantindo que o boi renascerá no próximo ano.

Vida Longa ao Bumba Meu Boi do Maranhão!

O Bumba Meu Boi é, como disse o modernista Mário de Andrade, "a mais complexa, estranha e original de todas as nossas danças dramáticas". É inspiração, pura beleza que une dança, música, religião e folclore.

Manter preservada essa tradição é a certeza de vida longa a esse verdadeiro mosaico de sotaques, que faz São Luís e o Maranhão vibrarem em uma explosão de alegria e criatividade.

“Ó lua, a tua beleza me faz lembrar o tempo bom que se foi Teu brilho quando vem surgindo, vai transluzir o couro do nosso boi Clareia o terreiro, clareia, aonde o meu Batalhão vadeia!”

Essa linda toada, "Ó Lua", é de autoria de Humberto do Maranhão.

Ele é um dos grandes compositores e mestres do Bumba Meu Boi, e essa canção é um clássico que embala muitos grupos e emociona o público.


Selo Brasis em Traços de Lu Paternostro

A série "Brasis em Traços" é uma coleção de ilustrações autorais da artista brasileira Lu Paternostro, focada na representação da cultura típica, tradicional e imaterial do Brasil. Com estilo colorido e detalhado, a série retrata festas, danças, tipos populares, lendas e a diversidade étnica brasileira, baseada em vasta pesquisa sobre o folclore e a identidade nacional.


Uma pequena lembrança para você:

Cada festa, folguedo, dança ou manifestação genuína de um povo não é algo fixo — é um organismo vivo, enraizado em um território e em constante transformação. Tudo é fluxo. Tudo é vivo, dinâmico. Como um rio, que corre sem nunca se deixar apreender por inteiro: não se captura um instante sem que ele já tenha se transformado.

É justamente aí que reside sua maior riqueza — nesse movimento contínuo, que existe no tempo e no corpo dos brincantes, despertando uma alegria difícil de nomear, mas impossível de não sentir.

Esta é apenas uma breve introdução ao tema, acompanhada de desenhos que buscam revelar um fragmento desse movimento.
Lu Paternostro

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