Arte afro-brasileira que mistura luta, dança, música e jogo simbólico em uma roda marcada por berimbau, atabaque e palmas. Nascida nos tempos de escravidão como forma de resistência, hoje é Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil e da Humanidade, praticada em todo o mundo.

Ilustração "Capoeira", da série "Manifestações da Cultura Brasileira. 
 Copyright Lu Paternostro. Proibida cópia, uso ou reprodução desta imagem sem a autorização da artista.
Ilustração "Capoeira", da série "Manifestações da Cultura Brasileira.
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Quem é homem de bem não trai
O amor que lhe quer seu bem
Quem diz muito que vai, não vai
Assim como não vai, não vem
Quem de dentro de si não sai
Vai morrer sem amar ninguém
O dinheiro de quem não dá
É o trabalho de quem não tem

Capoeira que é bom não cai
Mas se um dia ele cai, cai bem
Capoeira me mandou dizer que já chegou
Chegou para lutar
Berimbau me confirmou vai ter briga de amor
Tristeza, camará

Se não tivesse o amor
Se não tivesse essa dor
E se não tivesse o sofrer
E se não tivesse o chorar
Melhor era tudo se acabar

Eu amei, amei demais
O que eu sofri por causa de amor ninguém sofreu
Eu chorei, perdi a paz
Mas o que eu sei é que ninguém nunca teve mais, mais do que eu

Capoeira me mandou dizer que já chegou
Chegou para lutar
Berimbau me confirmou vai ter briga de amor
Tristeza camará

Berimbau
Baden Powell
Música e poesia

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Capoeira: A Luta-Dança que Libertou Corpos e Almas!

“Capoeira me mandou dizer que já chegou. Chegou para lutar Berimbau. Me confirmou, vai ter briga de amor Tristeza, camará”
– “Berimbau”, Baden Powell e Vinicius de Moraes

Imagine uma arte que é ao mesmo tempo luta, dança, música, jogo e filosofia de vida. Essa é a Capoeira, uma das mais poderosas e belas expressões da cultura afro-brasileira, que se espalhou por todo o Brasil e por mais de 150 países, encantando o mundo com sua ginga e sua história de resistência.

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A Semente Africana em Solo Brasileiro

A Capoeira tem sua origem nas raízes africanas, trazida pelos escravos para o Brasil. Desenvolveu-se com força e expressão, principalmente em grandes cidades portuárias como Salvador, Rio de Janeiro e Recife.

No cenário de opressão da escravidão, os negros, em seus raros momentos de lazer, preservavam suas culturas através da música, dança e brincadeiras. Foi assim que a Capoeira nasceu: uma luta criada para a autodefesa e para auxiliar nas fugas, praticada nas senzalas e, posteriormente, nos quilombos.

A astúcia da Capoeira: Como os senhores de escravos não aceitariam que eles praticassem qualquer tipo de luta, os movimentos eram disfarçados em forma de dança. A musicalidade sempre esteve presente, tornando a Capoeira uma luta que se camuflava em arte, uma estratégia de sobrevivência e resistência.

Capoeira: O que significa esse nome?

A palavra Capoeira tem origem na língua indígena Tupi, de ka'a ("mata") e pûer ("que foi"), significando "mato ralo" ou "mato que foi derrubado". Essa vegetação rasteira era típica das clareiras e periferias das cidades, onde os escravos e libertos costumavam praticar essa luta espetacular. Era ali, nesse "mato que foi", que eles transformavam seus corpos em armas poderosíssimas contra os ataques e perseguições dos capitães do mato.



Patrimônio Imaterial: Um Tesouro da Humanidade!

A Capoeira é tão importante que foi reconhecida mundialmente!

  • Em outubro de 2008, a "Roda de Capoeira" e o "Ofício de seus Mestres" foram inscritos no Livro dos Registros de Bens Imateriais do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), nas categorias "Formas de Expressão" e "Saberes".
  • Em 2014, a UNESCO reconheceu a Roda de Capoeira como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.

Patrimônio Imaterial são as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas que as comunidades reconhecem como parte do seu patrimônio cultural. No caso da Capoeira, é a ginga, a música, a filosofia, a história de resistência e a sabedoria dos mestres que são protegidas e valorizadas para serem transmitidas de geração em geração.

A Roda: O Círculo Mágico da Capoeira

roda de capoeira é um local mágico, um espaço de transmissão dos saberes dos mestres capoeiristas. É um círculo de capoeiristas onde a bateria musical comanda o ritmo e onde a capoeira é jogada, tocada e cantada. Diferente de outras lutas, os capoeiristas não dizem que estão "lutando", mas sim que estão "jogando" capoeira.

O jogo deve seguir o ritmo dos instrumentos, e cada toque determina um tipo diferente de jogo: alguns permitem movimentos mais rápidos e agressivos, outros mais acrobáticos ou rasteiros.

Os Movimentos: Ginga, Ataque e Defesa

A Capoeira é composta por diversos movimentos que exigem desenvoltura, flexibilidade, rapidez, destreza e muita agilidade:

  • A Ginga: É o movimento principal, a base da Capoeira. O praticante fica se mexendo, "gingando" o tempo todo, de um lado para o outro, de forma cadenciada e no ritmo do berimbau. A ginga é um movimento de defesa, mas a partir dela pode ser aplicado um golpe fatal!
  • Ataques: Chutes, rasteiras, saltos incríveis, cotoveladas, cabeçadas e movimentos elaborados que acontecem tanto no solo quanto no ar.
  • Mandinga: Um termo comum na capoeira, refere-se à forma como o capoeirista ginga e se conecta com toda a sua ancestralidade durante o jogo. A mandinga é a identidade de cada capoeirista!



Os Sotaques da Capoeira: Angola, Regional e Contemporânea

Atualmente, consideram-se três tipos principais de Capoeira, cada um com suas características e filosofias:

  1. Capoeira Angola (ou Capoeira de Vadiação): É a forma mais antiga, com movimentos mais rasteiros, lentos e focados na malícia e na estratégia. O Mestre Pastinha, em 1941, criou o primeiro espaço formal para o ensino da vadiação, resgatando essa tradição.
  2. Capoeira Regional: Criada no começo do século XX pelo lendário Mestre Bimba, que fundou, em 1932, a primeira Academia de Capoeira no Brasil. A Regional é mais rápida, com movimentos acrobáticos e golpes mais objetivos, incorporando elementos de outras lutas.
  3. Capoeira Contemporânea: Uma fusão de elementos da Angola e da Regional, buscando a versatilidade e a adaptação aos novos tempos.

A Bateria: A Alma Sonora da Roda

A música é o coração da Capoeira, e a bateria é quem comanda a roda. Os instrumentos são tocados pelos mestres e alunos mais experientes, ditando o ritmo e a energia do jogo:

  • Berimbau: O instrumento principal, que praticamente comanda a forma de acontecer a capoeira. Seu toque determina o tipo de jogo.
  • Pandeiros: Trazem o brilho e a marcação rítmica.
  • Atabaques: Tambores que dão a base percussiva e a força ancestral.
  • Agogô: Um instrumento de percussão com dois ou mais sinos.
  • Reco-reco e Caxixi: Adicionam texturas e sons complementares.

As canções da Capoeira são divididas em ladainhas, chulas, corridos ou quadras, e são acompanhadas pelas palmas dos capoeiristas que formam a roda, criando um coro vibrante.

A Perseguição e a Resistência: A Capoeira como Símbolo de Luta

A história da Capoeira é também uma história de perseguição e resistência. No século XIX, no Rio de Janeiro e em Recife, a Capoeira foi duramente reprimida. Em 1890, o governo republicano brasileiro chegou a decretar a proibição da Capoeira em todo o território nacional, criminalizando seus praticantes.

Eduardo Bueno, o historiador, nos lembra que a Capoeira era crime há muito tempo. No início do século XX, por exemplo, em 1909, um capoeirista chamado Cyriaco detonou um mestre de Jiu-Jitsu japonês em uma luta no Rio de Janeiro, mostrando a força da Capoeira, mesmo sendo proibida. Muitos capoeiristas foram presos e enviados para o exílio em Fernando de Noronha ou para o Acre.

No entanto, a Capoeira nunca se calou. Ela se tornou uma forma de os negros, que não tinham terra, moradia ou trabalho após a abolição, transformarem seu corpo em arma e sua cultura em resistência.

A virada: Durante a Guerra do Paraguai, muitos capoeiras foram cooptados e enviados para lutar, criando o Batalhão dos Zuavos, que se destacou em batalha. Mais tarde, na Revolta da Vacina (1904), no Rio de Janeiro, capoeiristas como o lendário Prata Preta lideraram a resistência popular, mostrando que a Capoeira era a voz e a força do povo.

Foi somente na década de 1930, com o presidente Getúlio Vargas, que a proibição da Capoeira foi suspensa, e ela começou a ser identificada como um esporte genuinamente brasileiro.

Identidade e Tradição: Os Apelidos e as Cordas

  • Apelidos: Um costume muito presente nos grupos de capoeira é batizar um "camarada" (sinônimo de amigo, companheiro) com um apelido. Essa é uma herança dos tempos de perseguição policial, quando o apelido servia como um codinome para dificultar a identificação.

Vestimenta: Geralmente, usa-se uma calça branca chamada ABADÁ e uma corda amarrada como cinto. As diferentes cores das cordas simbolizam a graduação dos capoeiristas, embora a ordem das cores possa variar entre os grupos.

A Capoeira Hoje: Um Patrimônio Vivo e Global

A Capoeira deixou de ser apenas uma forma de defesa pessoal para assumir o papel de resistência cultural. Ela engloba toda a ancestralidade africana e continua a ser um símbolo da identidade brasileira, reconhecido internacionalmente.

Atualmente, a Capoeira está presente em mais de 150 países, sendo uma grande responsável pela propagação da língua portuguesa, já que todas as aulas são ensinadas em português. Inúmeros estrangeiros vêm ao Brasil para conhecer mais da nossa cultura através da Capoeira, e muitos mestres brasileiros levam essa arte para o mundo, onde, infelizmente, muitas vezes são mais respeitados e valorizados do que em seu próprio país.

A Capoeira é um movimento que resgata jovens, promove a cultura e mantém viva a chama da ancestralidade.

Por que a Capoeira é tão importante?

Porque ela é:

  • Luta: Que ensina a se defender e a resistir.
  • Dança: Que expressa a liberdade e a beleza do movimento.
  • Música: Que embala a alma e conta histórias.
  • História: Que revela a força e a resiliência do povo brasileiro.
  • Patrimônio: Que nos lembra da importância de preservar nossas raízes e tradições afro-brasileiras.

A Capoeira é a ginga do Brasil que não se curva, que luta, canta e dança pela liberdade!


Selo Brasis em Traços de Lu Paternostro

A série "Brasis em Traços" é uma coleção de ilustrações autorais da artista brasileira Lu Paternostro, focada na representação da cultura típica, tradicional e imaterial do Brasil. Com estilo colorido e detalhado, a série retrata festas, danças, tipos populares, lendas e a diversidade étnica brasileira, baseada em vasta pesquisa sobre o folclore e a identidade nacional.


Uma pequena lembrança para você:

Cada festa, folguedo, dança ou manifestação genuína de um povo não é algo fixo — é um organismo vivo, enraizado em um território e em constante transformação. Tudo é fluxo. Tudo é vivo, dinâmico. Como um rio, que corre sem nunca se deixar apreender por inteiro: não se captura um instante sem que ele já tenha se transformado.

É justamente aí que reside sua maior riqueza — nesse movimento contínuo, que existe no tempo e no corpo dos brincantes, despertando uma alegria difícil de nomear, mas impossível de não sentir.

Esta é apenas uma breve introdução ao tema, acompanhada de desenhos que buscam revelar um fragmento desse movimento.
Lu Paternostro

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