Caboclos de lança, mantos brilhantes e orquestra de metais levam a zona da mata a um transe colorido. Um maracatu mais rápido e rural, misturando teatro, batalha simbólica e devoção.

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“O Caboclo de Surrão
Que sabe bem o que quer na cama
Deixa a mulher para
Ele dormir no chão
Para não manchar a nação,
Três dias de carnaval Capricha no ritual, no cravo
Bota um mistério, que não tem nada mais sério
Que o Maracatu Rural”
Mestre Barachinha.
A poesia e a rima o tornaram
um grande mestre do Maracatu.
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Maracatu: Figuras Curiosas que Pulsam nos Canaviais
Prepare-se para uma viagem vibrante ao coração de Pernambuco, onde a história, a fé e a resistência do povo negro ganham vida em um espetáculo de cores, música e dança! O Maracatu é um cortejo carnavalesco de origem afro-brasileira, uma mistura poderosa de teatro, música e dança que ecoa a alma da África em solo brasileiro.
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Pernambuco: O Berço de uma Tradição Real
O Maracatu nasceu dos trabalhadores rurais, nas fazendas de cana-de-açúcar do interior de Pernambuco, na época do Brasil Império. Em sua origem, foi criado para camuflar a história e os cultos africanos, que eram proibidos pela coroa portuguesa e pela Igreja Católica. Era uma forma de resistência, uma linguagem secreta para preservar a herança e encontrar força na comunidade. No começo do século XIX, o Maracatu veio para Recife e hoje é um dos grandes momentos do Carnaval, especialmente na cidade de Nazaré da Mata, a 70 km de Recife, carinhosamente conhecida como a Cidade dos Maracatus.

Patrimônio Imaterial: A Coroa da Cultura Brasileira!
O Maracatu é uma manifestação cultural de valor inestimável, reconhecida por sua importância histórica e artística:
- O Maracatu Nação (Baque Virado) foi reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo IPHAN em 2014.
- O Maracatu Rural (Baque Solto) encontra-se em processo de Registro como patrimônio imaterial brasileiro pelo IPHAN.
Patrimônio Imaterial são as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas que uma comunidade reconhece como parte de sua herança cultural. O Maracatu, em suas duas formas, é um lembrete poderoso da força e beleza da cultura afro-brasileira, um elo vivo com nossos ancestrais e um símbolo de resistência e celebração.

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Os Dois Reinos do Maracatu: Nação e Rural
O Maracatu se divide em dois tipos bem distintos, cada um com sua própria história, personagens e sonoridade:
1. Maracatu Nação (ou de Baque Virado)
É a forma mais antiga, com cerca de 30 a 50 brincantes, que tem como tema central a coroação dos reis africanos. É um desfile da corte real negra, uma forma de perpetuar a história dos ancestrais para as gerações nascidas no Brasil.
- Personagens da Corte: O rei e a rainha são as figuras centrais, acompanhados por uma corte majestosa: damas de honra, príncipe e princesa, duque e duquesa, barão e baronesas, embaixador e porta-estandarte (que carrega o nome da agremiação ou a imagem de um animal). Há também a dama de corte, o vassalo (que carrega o pátio ou guarda-sol) e as damas de passo (Yabás ou baianas), que carregam a Calunga — uma boneca negra que representa as rainhas antepassadas da corte e toda a parte espiritual e ancestral. Em alguns cortejos, o caboclo de pena representa os índios guerreiros, inserindo a tradição brasileira.
- Música e Instrumentos: A orquestra é composta exclusivamente por instrumentos de percussão, criando um ritmo forte e sincopado, a "batida do coração do Maracatu" . Os principais são: gonguê, ganzá, xequerê, maracá, caixas e alfaias (para a marcação grave dos ritmos). As músicas são toadas, cantadas pelo tirador de loas ou versos, que apita no início e no final de cada estrofe.
- Religiosidade: O Maracatu Nação preserva sua origem religiosa. É parte do cortejo fazer a dança das calungas na frente das igrejas para homenagear Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, divindades negras católicas. Em terreiros, os homenageados são os orixás, denotando o caráter sincrético da tradição.
2. Maracatu Rural (ou de Baque Solto)
Criado posteriormente ao de Baque Virado, surge na zona da mata pernambucana nos séculos XIX e XX. Foi criado por agricultores das canas e sofreu influência e mescla de muitos outros folguedos de Pernambuco, como bumba-meu-boi, folia de reis e cavalo marinho. É uma celebração da vida rural, repleta de alegria e improvisação.
- Personagens da Mata: O elenco é vasto e colorido: rei e rainha, porta-bandeira ou baliza, Mateus, Catirina, burro, caçador, porta-buquês, baianas, a boneca Aurora, caboclos de pena (com grandes cocares de penas e machados), o vassalo ou “menino da sombrinha” e o personagem principal, o Caboclo de Lança.
- O Caboclo de Lança: É o guerreiro de Ogum, formado por trabalhadores rurais. Portam lanças de madeira adornadas com fitas coloridas e, na cabeça, ricos e exuberantes capacetes. Usam mantos muito coloridos que representam a armadura na encenação da batalha. Alguns usam grandes óculos e uma flor branca na boca, sendo o cravo a mais tradicional — um mistério que não tem nada mais sério que o Maracatu Rural, como canta Mestre Barachinha.
- A Dança e o Enredo: No Maracatu de Baque Solto não há cortejo linear. Acontece em dois círculos concêntricos. No círculo de fora, os caboclos de lança correm e fazem algazarras, encenando a batalha, golpeando com suas lanças de dois metros de altura e carregando chocalhos nas costas que marcam o ritmo. No círculo menor, dançam as damas de buquê, baianas, caboclo de pena, boneca e estandarte. Quem comanda os movimentos é o apito do mestre, também responsável pelas cantorias das toadas.
- Música e Instrumentos (Maracatu Orquestra): Seu conjunto de instrumentos é maior e mais diversificado que o de Baque Virado, sendo conhecido como Maracatu Orquestra. Nele encontramos: tarol ou caixa, porca ou cuíca, zabumba, surdo, ganzá, chocalho e metais como clarinetes, saxofone, trombone e pistom. No coro, ouvem-se vozes femininas, e seu ritmo é bem mais rápido.
Artesanato e Indumentária: A Arte que Veste a Tradição
O Maracatu é um verdadeiro ateliê a céu aberto, onde a arte da costura e do bordado se transformam em fantasias deslumbrantes:
• Lanças e Calungas: As lanças adornadas e as calungas (bonecas sagradas) são elementos visuais e simbólicos poderosos.
• Bordados e Adereços: As vestimentas são ricas em detalhes, com bordados que podem levar de 15 dias a um mês para serem feitos, como as golas dos caboclos. Plumas, lantejoulas, fitas e espelhinhos adornam os trajes, criando um visual exuberante.
• Capacetes e Coroas: Os capacetes dos caboclos de lança e as coroas dos reis e rainhas são obras de arte à parte, cheios de flores e brilho.
Por que o Maracatu é tão bonito e grandioso?
Porque ele é:
- Realeza Viva: Um desfile que celebra a história e a dignidade dos reis e rainhas africanos no Brasil.
- Resistência Cultural: Uma forma de preservar a herança africana e indígena, resistindo à opressão e à invisibilidade.
- Arte Total: Uma fusão de música, dança, teatro, poesia e artes visuais em um espetáculo único.
- Comunidade e Fé: Fortalece os laços sociais, celebra a fé sincrética e transmite tradições de geração em geração.
- Energia Contagiante: Um ritmo que faz o coração vibrar e a alma se conectar com a força da ancestralidade.
O Maracatu é a batida da alma de Pernambuco, um convite para sentir a força, a beleza e a realeza de uma cultura que dança e canta sua história com orgulho e paixão!

A série "Brasis em Traços" é uma coleção de ilustrações autorais da artista brasileira Lu Paternostro, focada na representação da cultura típica, tradicional e imaterial do Brasil. Com estilo colorido e detalhado, a série retrata festas, danças, tipos populares, lendas e a diversidade étnica brasileira, baseada em vasta pesquisa sobre o folclore e a identidade nacional.
Uma pequena lembrança para você:
Cada festa, folguedo, dança ou manifestação genuína de um povo não é algo fixo — é um organismo vivo, enraizado em um território e em constante transformação. Tudo é fluxo. Tudo é vivo, dinâmico. Como um rio, que corre sem nunca se deixar apreender por inteiro: não se captura um instante sem que ele já tenha se transformado.
É justamente aí que reside sua maior riqueza — nesse movimento contínuo, que existe no tempo e no corpo dos brincantes, despertando uma alegria difícil de nomear, mas impossível de não sentir.
Esta é apenas uma breve introdução ao tema, acompanhada de desenhos que buscam revelar um fragmento desse movimento.
Lu Paternostro
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- Samba de Coco de Arcoverde. Manifestações da Cultura Tradicional Brasileira. Série Brasis em Traços.
- Folia de Bois de Arcoverde. Manifestações da Cultura Tradicional Brasileira. Série Brasis em Traços.
- Cientistas e Sanitaristas Brasileiros
- NFT ART “Little Worlds ‘Multi Mundos’ Cryptos LWCU” (1987-88)
- Livro Brazílske Legendy | Lendas Brasileiras
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Para mim, a grande arte está no todo. 