Roda de dança de pé arrastado, caixas de couro e cantos que nasceram nos porões dos navios negreiros. Maior manifestação cultural do Amapá, une Festa do Divino, fé católica e matriz africana em um longo ciclo festivo.

Ilustração "Marabaixo", da série "Manifestações da Cultura Brasileira. 
 Copyright Lu Paternostro. Proibida cópia, uso ou reprodução desta imagem sem a autorização da artista.
Ilustração "Marabaixo", da série "Manifestações da Cultura Brasileira.
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Aonde tu vais rapaz?
Neste caminho sozinho
Eu vou fazer minha morada
Lá nos campos do laguinho

As ruas do Macapá
Estão ficando um primor
Tem hospitais, tem escolas
Pros fíos do trabalhadô
Mas as casas que são feitas
É só prá morar os doutô
Dia primeiro de junho...

Marabaixo
Luiz Gonzaga
Música e poesia

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Marabaixo: A Batida da Resistência e da Fé que Pulsa no Coração do Amapá!

“Eu tinha bom, eu te diga aí que eu tinha Mama, eu tinha, eu disse: olha, achava preso na gaiola Bateu as asas, foi embora, acaba Preto a gaiola, a scheila já foi embora, tô Ela já foi embora, tu indo depois na água e foi do veículo dentro do meu coração” – Toada de Marabaixo

Prepare-se para descobrir um dos mais vibrantes e emocionantes rituais do Brasil, um tesouro cultural que pulsa no extremo norte do país: o Marabaixo! Essa manifestação, praticamente desconhecida de muitos brasileiros, é a maior expressão cultural do Amapá, um ritual de origem africana que compõe festas católicas populares em comunidades negras da área metropolitana de Macapá, a capital do estado

A dança e o canto do Marabaixo constituem o lado profano da Festa do Divino e acontecem integradas a esta comemoração.

O Marabaixo acontece no ritmo de tambores ou das caixas, instrumentos de percussão construídos com madeira e pele de animais. As mulheres dançam de forma vigorosa, com suas saias de cores vivas, no ritmo forte e intenso dos batuques. Durante o ritual são servidas bebidas, sendo a mais típica a gengibirra.

No dia 16 de junho comemora-se o dia estadual do Marabaixo no Amapá.

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A Origem no Mar e a Força da Resistência

O Marabaixo é uma dança da cultura africana, provavelmente trazida pelos negros que chegaram ao Amapá no século XVIII, escravizados para a construção da Fortaleza de São José, ou por famílias africanas fugidas de guerras.

Sua origem é contada em lamentos que ecoam a travessia do Atlântico: "No mar acima, no mar abaixo, nós cantávamos", referindo-se ao movimento do navio nas ondas. Essa dança de "pé arrastado no chão", com movimentos de lado, simboliza a dificuldade de se movimentar estando acorrentado, mas também a resistência e a capacidade de expressar a vida mesmo na adversidade.

O Marabaixo é, portanto, luta, resistência, história e memória. É a identidade amapaense que surge da vivência e convivência dos seus ancestrais.

Patrimônio Imaterial: Um Tesouro Nacional do Amapá!

A grandiosidade e a importância do Marabaixo foram oficialmente reconhecidas: o Ciclo do Marabaixo foi inscrito no Livro de Registro das Formas de Expressão como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo IPHAN em 2018. Este reconhecimento celebra a riqueza dessa manifestação e a dedicação das comunidades que a mantêm viva.

Patrimônio Imaterial são as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas que uma comunidade reconhece como parte de sua herança cultural. O Marabaixo é um exemplo potente de como a dança, o canto, a fé e a memória moldam a identidade de um povo e se tornam um legado para o país.

O Ciclo do Marabaixo: Fé e Folia por Sessenta Dias

O Marabaixo não é apenas uma dança; é um ciclo de celebrações que se estende por aproximadamente sessenta dias, unindo o sagrado e o profano. As festividades têm início no Domingo de Páscoa e se desenvolvem com uma série de rituais:

  • Levantamento de Mastros: Em homenagem ao Divino Espírito Santo e à Santíssima Trindade.
  • Missas, Novenas e Procissões: O lado católico da festa, onde a fé é expressa em devoção.
  • Danças e Cantorias do Marabaixo: O lado profano, onde a comunidade se reúne para dançar e cantar ao ritmo dos tambores.
  • Derrubada dos Mastros: Marca o encerramento do ciclo anual, em um ritual que simboliza a renovação.

Comunidades como o Quilombo Maruanum, por exemplo, vivem o Marabaixo como parte intrínseca de sua fé e tradição, festejando santos como Santa Luzia em dezembro.



A Dança: Vigor, Ginga e Expressão Coletiva

A dança do Marabaixo é vigorosa e contagiante, um verdadeiro "batuque marabaixo”:

  • Mulheres: Dançam de forma intensa, com suas saias de cores vivas, girando e batendo os pés no ritmo forte dos tambores. Levam uma toalha nos ombros para limpar o suor, que se tornou um adorno típico de suas vestimentas. Muitas usam um ramalhete de flores na cabeça, como rosas ou jasmins, para dar um visual ainda mais bonito.
  • Homens: Fazem gestos que remetem à queda de corpo e à capoeira, que era jogada antigamente em frente à secular Igreja de São José.

É uma dança de roda, de corpo, braço e gingado, que expressa a alegria e a identidade do povo negro.

Música e Instrumentos: A Batida que Conta Histórias

O Marabaixo acontece no ritmo intenso dos tambores ou das caixas, instrumentos de percussão construídos artesanalmente com madeira e pele de animais. A confecção dessas caixas é um processo totalmente artesanal, que leva semanas e é transmitido de geração em geração.

  • Toques e Ladrões: Existem muitos toques diferentes para cada momento do Marabaixo. As músicas são as "ladrões", versos espontâneos e improvisados que as dançarinas e cantadores entoam durante as reuniões, contando fatos do dia a dia, da comunidade, da natureza e da vida. É uma forma de "jogar direto" a realidade, de lutar e resistir.

A Gengibirra: O Sabor da Tradição

Durante o ritual, são servidas bebidas, sendo a mais típica a gengibirra, feita com gengibre e cachaça. Essa bebida embala os foliões, que chegam a dançar a noite toda, fortalecendo os laços comunitários e a energia da festa.

Sincretismo e Identidade: Fé Católica e Matriz Africana

O Marabaixo é um exemplo vivo do sincretismo religioso brasileiro. Embora esteja integrado às festas católicas do Divino Espírito Santo, ele carrega em si a profunda matriz africana. Como relatam os próprios participantes, eles fazem um culto ancestral, um culto de matriz africana, muitas vezes sem saber, percebendo a conexão entre seus santos e os orixás, como a "Vovó do Barro" e Nanã.

Apesar de alguns preconceitos que associavam o Marabaixo a "macumba", os mestres e a comunidade afirmam que é uma manifestação cultural que envolve a religião católica, mas que merece todo o respeito e valorização, assim como qualquer outra religião de matriz africana.

Sincretismo e Identidade: Fé Católica e Matriz Africana

O Marabaixo é um exemplo vivo do sincretismo religioso brasileiro. Embora esteja integrado às festas católicas do Divino Espírito Santo, ele carrega em si a profunda matriz africana.

Como relatam os próprios participantes, eles fazem um culto ancestral, um culto de matriz africana, muitas vezes sem saber, percebendo a conexão entre seus santos e os orixás, como a "Vovó do Barro" e Nanã.

Apesar de alguns preconceitos que associavam o Marabaixo a "macumba", os mestres e a comunidade afirmam que é uma manifestação cultural que envolve a religião católica, mas que merece todo o respeito e valorização, assim como qualquer outra religião de matriz africana.

A Comunidade: Guardiões de uma Herança Viva

No dia 16 de junho, comemora-se o Dia Estadual do Marabaixo no Amapá, com missas e batuqueradas que reúnem vários grupos de danças folclóricas. Grupos organizados trabalham incansavelmente para manter vivas as tradições de raiz de seu povo e ancestrais.

A juventude, que antes via o Marabaixo como "coisa de velho", tem se inserido cada vez mais, garantindo a continuidade dessa cultura . É uma cultura que se transmite de mãe para filha, de avó para neta, de mestre para aprendiz, em um ciclo contínuo de vida e memória.

Por que o Marabaixo é tão importante para nossa cultura?

Porque ele é:

  • Resistência e Memória: Um elo vivo com a história dos negros escravizados e sua luta pela preservação da cultura.
  • Sincretismo Vibrante: Uma fusão única de fé católica e matriz africana, que celebra a diversidade religiosa do Brasil.
  • Arte Total: Uma expressão completa de dança, música, canto, poesia e artesanato.
  • Comunidade e Identidade: Fortalece os laços sociais, transmite saberes e mantém viva a identidade do povo amapaense.
  • Energia Contagiante: Um ritmo que faz o corpo vibrar e a alma se conectar com a força da ancestralidade.

O Marabaixo é a batida do coração do Amapá, um convite para sentir a força, a fé e a alegria de uma cultura que dança e canta sua história com orgulho e resiliência!


Selo Brasis em Traços de Lu Paternostro

A série "Brasis em Traços" é uma coleção de ilustrações autorais da artista brasileira Lu Paternostro, focada na representação da cultura típica, tradicional e imaterial do Brasil. Com estilo colorido e detalhado, a série retrata festas, danças, tipos populares, lendas e a diversidade étnica brasileira, baseada em vasta pesquisa sobre o folclore e a identidade nacional.


Uma pequena lembrança para você:

Cada festa, folguedo, dança ou manifestação genuína de um povo não é algo fixo — é um organismo vivo, enraizado em um território e em constante transformação. Tudo é fluxo. Tudo é vivo, dinâmico. Como um rio, que corre sem nunca se deixar apreender por inteiro: não se captura um instante sem que ele já tenha se transformado.

É justamente aí que reside sua maior riqueza — nesse movimento contínuo, que existe no tempo e no corpo dos brincantes, despertando uma alegria difícil de nomear, mas impossível de não sentir.

Esta é apenas uma breve introdução ao tema, acompanhada de desenhos que buscam revelar um fragmento desse movimento.
Lu Paternostro

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