Cortejo devoto que percorre casas e estradas, cantando a jornada dos Três Reis Magos até o Menino Jesus. Bandeiras, violas, fitas e promessas tornam a Epifania uma festa de fé, música e comunidade.
Ilustração "Folia de Reis", da série "Manifestações da Cultura Brasileira. Proibida cópia, uso ou reprodução desta imagem sem a autorização da artista.
Senhor e dono da casa, vai chegando a folia
Vem beijar a nossa bandeira e escutar a cantoria
Vem beijar a nossa bandeira e escutar a cantoria ai ai ai !
Senhor e dono da casa, se não for muito custoso
Vem abrir a sua porta que nóis viemos de pouso
Vem abrir a sua porta que nóis viemos de pouso ai ai ai !
Nosso corpo quer descanso nóis precisamos dum canto
Nossa arma quem vigia é o divino espírito santo
Nossa arma quem vigia é o divino espírito santo ai ai ai !
Senhor e dono da casa, a folia vai saindo
Fica com deus nosso pai e a proteção do divino
Fica com deus nosso pai e a proteção do divino ai ai ai !
Folia de Reis André e Andrade Moda de folia aos santos reis
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Folia de Reis: A Procissão Sagrada que Une Fé, Música e Comunidade!
Prepare-se para mergulhar em uma das mais antigas e sagradas tradições do Brasil: a Folia de Reis, também conhecida como Reisado ou Companhia de Reis. É um auto popular, um teatro do povo, que une fé, música e caminhada em uma jornada que se repete todos os anos, entre o Natal e o dia 6 de janeiro — a Festa de Santos Reis. _____
A Origem da Jornada: Uma Viagem que Vem da Europa
A Folia de Reis representa simbolicamente a viagem dos Três Reis Magos — Gaspar, Melchior e Baltazar — à gruta de Belém, para adorar o Menino Deus recém-nascido. Essa tradição tem raízes europeias, possivelmente relacionada às “Jornadas de Pastorinhas” e outras procissões natalinas, onde grupos percorriam as casas pedindo esmolas e cantando em louvor ao nascimento de Jesus.
No Brasil, a Folia de Reis se enraizou profundamente, especialmente em populações rurais, adaptando-se à realidade local e ganhando contornos únicos de devoção, arte e sociabilidade.
Patrimônio Imaterial: A Tradição que se Renova
Embora a Folia de Reis ainda não tenha um título unificado de Patrimônio Imaterial da Humanidade, ela é reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil em diversas regiões, sendo um dos rituais mais importantes para a identidade cultural do interior do país.
Patrimônio Imaterial são as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas que uma comunidade reconhece como parte de sua herança cultural. A Folia de Reis é um exemplo vivo de como a fé, a música e a caminhada coletiva moldam a alma de um povo.
A Chegada na Casa: O Ritual de Porta em Porta
A Folia de Reis é, antes de tudo, uma procissão itinerante. O grupo, chamado de “Companhia”, caminha de casa em casa, cantando, tocando e levando a bandeira com a imagem dos Santos Reis. O ritual é sempre o mesmo, mas cada visita é única:
Canto de Chegada: O mestre ou embaixador pede permissão ao dono da casa para entrar, saudando a família e pedindo acolhida.
Adoração ao Presépio: A Companhia se dirige ao altar, onde está o presépio ou a lapinha, e canta em louvor ao Menino Jesus.
Coleta e Agradecimento: Os foliões recolhem doações (mantimentos, dinheiro, bebidas), que serão usadas para a grande festa do dia 6 de janeiro. Em troca, agradecem com cantos, versos e até danças.
Canto de Despedida: Antes de seguir viagem, a Folia se despede, deixando a bênção dos Santos Reis na casa visitada.
Como relata um folião: “Tem pessoa que chega a chorar quando a companhia chega na casa… Você chega, canta, agradece o mantimento que a gente recebe, e no dia da festa, faz o comes e bebe para todo mundo.”
Os Personagens da Folia: Uma Hierarquia Sagrada
Cada membro da Companhia tem uma função específica, formando uma verdadeira “corte” em movimento:
Mestre ou Embaixador: É o líder, o organizador e o conhecedor dos fundamentos da Folia. É ele quem inicia as cantorias e mantém a coesão do grupo.
Bandeireiro (ou Bandeireira): Conduz a bandeira, o símbolo que legitima a Companhia. É uma figura de grande respeito, responsável por proteger o estandarte sagrado.
Músicos e Cantadores: Divididos em vozes (quinta, contra-tala, tala, requinta), formam o coro que entoa as toadas características. Os instrumentos variam conforme a região, mas geralmente incluem viola, violão, cavaquinho, sanfona, pandeiro e caixa.
Palhaços ou Bastiões: Personagens curiosos e sagrados, vestidos com roupas coloridas e, muitas vezes, máscaras. São os “guerreiros” da Folia, responsáveis por proteger a bandeira, recolher as ofertas, “quebrar os atrapalhos” (desafios e brincadeiras) e anunciar a chegada da Companhia. Nomes como Pai Juão, Catrina, Mocorongo, Mateus e Alferes aparecem em diferentes regiões do Brasil.
Reis Magos: Alguns grupos incluem pessoas caracterizadas como os Três Reis, reforçando o sentido do auto.
Festeiro: Pessoa que organiza a festa de chegada da bandeira em sua casa ou comunidade.
Apontador de Prendas: Anota todas as ofertas recebidas, garantindo a transparência da coleta.
Música, Dança e Instrumentos: A Trilha da Caminhada
A música é a alma da Folia de Reis. As toadas (cantigas) são passadas de geração em geração, e cada região tem seu estilo: a toada baiana, a mineira, a paulista, a goiana… Algumas são idênticas, outras têm variações melódicas e de letra.
Os instrumentos mais comuns são:
Viola e Violão: Enfeitados com fitas coloridas, que carregam simbolismos (fitas azuis, rosa e amarelas para a Virgem Maria; branca para o Divino Espírito Santo).
Sanfona: Traz o calor e a melodia contagiante das toadas.
Pandeiro e Caixa: Marcam o ritmo da caminhada e dos cantos.
Rabeca, Bandolim, Cavaquinho: Comuns em algumas regiões, enriquecendo a sonoridade.
As danças, como a dança-da-jaca, o balanceado, o cateretê e o “meio-dia”, são executadas principalmente pelos palhaços e bastiões, trazendo alegria e energia ao ritual.
VAMOS CONHECER A RABECA?
A Voz Rústica e Encantadora do Brasil Profundo
Muito mais que uma "prima" do violino, a rabeca é a síntese da nossa identidade. Enquanto o violino erudito busca a perfeição cristalina das salas de concerto, a rabeca busca o "chão de barro" — um timbre terroso, visceral e profundamente afetuoso.
A Alma Esculpida à Mão
O que torna a rabeca fascinante é o seu fazer artesanal. Ela é fruto do conhecimento de mestres luthieres que utilizam madeiras nativas e segredos ancestrais. Diferente dos instrumentos industriais, cada rabeca é única: tem corpo, rosto e uma alma própria, moldada pelo carinho de quem a esculpe.
O Olhar dos Mestres
O mestre Luís da Câmara Cascudo, em seu clássico Dicionário do Folclore Brasileiro, já a definia como o instrumento de arco por excelência das nossas festas. Para ele, a rabeca é o fôlego das folias, bailes e procissões, adaptando seu som ao "sotaque" de cada região do país.
Um Patrimônio de Todos Nós
A importância da rabeca é tamanha que o IPHAN a reconhece como elemento vital de bens registrados como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. Ela é a protagonista absoluta de celebrações como:
Fandango Caiçara (SP/PR)
Cavalo-Marinho (PE)
Maracatu Rural (PE)
Ouvir uma rabeca não é apenas apreciar uma música; é abraçar um Brasil que canta sua própria história com as mãos e o coração.
Vamos apurar nosso ouvido? Ao ouvir uma rabeca tocando, preste atenção nas "imperfeições" do som, que parecem até "desafinados". É nessa sensação de "imperfeição" que reside a verdadeira humanidade, a beleza e a essência deste instrumento.
A Folia como Missão: “É um Chamado!”
Para muitos foliões, a Folia de Reis não é apenas uma tradição, mas uma missão espiritual. Como diz um mestre de 75 anos, que segue a tradição desde os 7: “É o chamado, é uma missão que a gente tem. Meu pai faleceu, eu assumi. Se não queria, mas o santo rei manda, não tem jeito.”
A Folia de Reis atravessa gerações. Em muitas famílias, pai, avô, bisavô e filhos participam juntos, mantendo viva a chama da devoção e da comunidade. Há relatos de milagres, promessas cumpridas e vidas transformadas pela fé expressa na caminhada dos Santos Reis.
Por que a Folia de Reis é tão rica?
Porque ela é:
Fé em Movimento: Uma procissão que leva a bênção de casa em casa, unindo o sagrado e o cotidiano.
Comunidade: Uma celebração coletiva, onde todos são convidados a participar, doar e compartilhar.
Tradição Viva: Uma herança cultural transmitida de pai para filho, que resiste ao tempo e à modernidade.
Arte Popular: Um auto teatral, musical e dançante, que expressa a criatividade e a alma do povo brasileiro.
Riqueza nos Detalhes: Os ornamentos se modificam pelo Brasil afora, modificando-se conforme cada local.
A Folia de Reis é a jornada dos Reis Magos reencenada pelo povo, uma procissão de esperança, música e fé que faz do Brasil um país ainda mais sagrado e humano.
A série "Brasis em Traços" é uma coleção de ilustrações autorais da artista brasileira Lu Paternostro, focada na representação da cultura típica, tradicional e imaterial do Brasil. Com estilo colorido e detalhado, a série retrata festas, danças, tipos populares, lendas e a diversidade étnica brasileira, baseada em vasta pesquisa sobre o folclore e a identidade nacional.
Uma pequena lembrança para você:
Cada festa, folguedo, dança ou manifestação genuína de um povo não é algo fixo — é um organismo vivo, enraizado em um território e em constante transformação. Tudo é fluxo. Tudo é vivo, dinâmico. Como um rio, que corre sem nunca se deixar apreender por inteiro: não se captura um instante sem que ele já tenha se transformado.
É justamente aí que reside sua maior riqueza — nesse movimento contínuo, que existe no tempo e no corpo dos brincantes, despertando uma alegria difícil de nomear, mas impossível de não sentir.
Esta é apenas uma breve introdução ao tema, acompanhada de desenhos que buscam revelar um fragmento desse movimento. Lu Paternostro
Teatro de rua que celebra a coroação de reis do Congo, com espadas, bastões e cantos de fé. Mistura de catolicismo e matriz africana que exalta São Benedito, Nossa Senhora do Rosário e a realeza negra.
Ilustração "Congada", da série "Manifestações da Cultura Brasileira. Proibida cópia, uso ou reprodução desta imagem sem a autorização da artista.
Benedito Santo De Jesus querido Valha-me Deus Que eu tenho sofrido
Que santo é aquele Que vem no andor É São Benedito Enfeitado de flor
É conga, é conga, é congada Bate marimba e tambor Vou pegar minha espada Que eu também sou lutador....
Congada Romildo e Toninho Nascimento Música e poesia
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Congada: A Realeza Negra que Dança a Fé, a Luta e a Memória no Coração do Brasil!
Prepare-se para testemunhar um espetáculo de fé, resistência e realeza!
Congada, também conhecida por Congo ou Congado, é uma manifestação cultural e religiosa de origem Africana, um folguedo de rua que reúne tradições mouras e cristãs. Os grupos vão cantando, marchando e dançando, batendo suas espadas numa coreografia complexa, trocando de lugar. Vestem-se com roupas características e por pura devoção mantém sua tradição viva. Tradicionalmente o ponto alto é representação da coroação do rei e rainha do Congo.
A congada acontece em várias festividades durante o ano todo,
principalmente em festas de Nossa Senhora do Rosário e em alguns locais, nas
festas do Divino.
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A Origem Real e a Resistência no Cativeiro
A Congada remete às lutas travadas no território africano, principalmente no Congo, onde muitos reis perderam seus tronos e vieram a ser escravos no Brasil, durante a colonização portuguesa no século XV. A devoção de seu povo os mantinha reis mesmo sem nada governarem, uma forma de resgatar o reino que foi perdido em suas terras de origem
No Brasil, a Congada consolidou-se como uma forma de os negros escravizados expressarem sua cultura e fé. Temendo rebeliões, os senhores brancos e a Igreja permitiam que dançassem suas congadas, mas escolheram para isso as datas de devoção dos santos cristãos. Assim, a Congada se tornou uma mistura das peças trazidas pelos negros escravizados com a religiosidade cristã praticada na colônia
Patrimônio Cultural: A Realeza que se Mantém Viva!
A Congada, com sua riqueza e profundidade, é um patrimônio vivo que reflete a identidade do povo afro-brasileiro. Embora não possua um título unificado de Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo IPHAN, diversas manifestações de Congado em estados como Minas Gerais, São Paulo e Goiás são reconhecidas como Patrimônio Cultural Imaterial em nível estadual ou municipal. Sua importância para a formação da identidade cultural brasileira é inegável e amplamente valorizada.
Patrimônio Imaterial são as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas que uma comunidade reconhece como parte de sua herança cultural. A Congada é um exemplo grandioso de como a fé, a dança, o teatro e a música se entrelaçam para manter viva a memória de uma realeza perdida e a esperança de um povo.
O Cortejo da Congada: Teatro, Dança e Devoção
A Congada é uma espécie de teatro de rua, um bailado dramático que relembra a história de lutas e conquistas de forma simbólica, não deixando morrer a lembrança do poder do povo negro
Os grupos vão cantando, marchando e dançando, batendo suas espadas ou bastões em uma coreografia complexa, trocando de lugar
Coroação dos Reis: O ponto central da festa é a representação da coroação do rei e da rainha do Congo, um ritual de grande pompa e significado. Embora em muitos lugares essa tradição esteja se perdendo, restando apenas os "ternos" e suas danças compassadas
Ternos ou Guardas: Os cortejos são acompanhados por grupos denominados "ternos" ou "guardas", cada um com seu líder, o capitão .
Embaixadas: Em alguns locais, há uma encenação dramática chamada "embaixada", que representa as lutas entre mouros e cristãos, ou pagãos e batizados, em forma de coreografias .
Rituais: Durante as festas, há levantamento de mastros, muita música, dança, batuque de zabumba, canto, louvação e animação.
Personagens e Indumentária: A Hierarquia em Cores e Brilho
As roupas são muito importantes na Congada, pois representam a hierarquia e os personagens, identificando os diferentes grupos do cortejo pelas características das cores e adereços .
Reis e Rainhas: Vestem trajes majestosos, com coroas, mantos e adereços que simbolizam a realeza africana.
Guerreiros/Dançarinos: Usam camisas, capas, chapéus, espadas e lenços, feitos de tecidos confortáveis para não inibir os movimentos. Há uma série de fitas e bandeiras coloridas que trazem a imagem dos santos .
Santos Negros: Os santos cultuados nas congadas, presentes em seus estandartes, são normalmente santos negros como São Benedito, Santa Efigênia e Nossa Senhora do Rosário
. A Princesa Isabel também é saudada, cruzando a tradição da monarquia africana com a brasileira .
Chico Rei: A lenda de Chico Rei, um monarca do Congo que foi escravizado, comprou sua alforria e a de mais de 200 escravizados, e levantou a Igreja de Santa Efigênia em Ouro Preto, faz parte das tradições orais e da memória dos congadeiros .
Música e Instrumentos: A Batida que Chama a Energia Ancestral
A música é o coração da Congada, com cantos que são puxados por uma pessoa e a multidão acompanha o refrão . As letras falam do sofrimento da escravidão, dos lamentos de um povo arrancado de sua terra, mas também são cantos de esperança e redenção, na espera de uma vida melhor .
Os instrumentos musicais utilizados são diversos e conferem a sonoridade única da Congada:
Tambores: Cuíca, caixa, pandeiro, tamborim, surdo, tarol, zabumba. Os tambores são a força da Congada, chamando a energia positiva dos antepassados .
Cordas: Cavaquinho, viola, violão, rabeca ou violino popular.
Outros: Reco-reco, sanfona, acordeão, agogô.
O canto é entoado com letras em português, mas também com palavras do idioma banto, na melhor tradição oral . Há um sincretismo musical, onde se cantam músicas públicas como benditos aos santos católicos e, em terreiros, saúda-se marinheiros, pretos velhos, orixás como Iansã e Xangô .
Fé e Espiritualidade: A Devoção que Move a Congada
A Congada acontece em várias festividades durante o ano todo, principalmente em festas de Nossa Senhora do Rosário e, em alguns locais, nas festas do Divino
É uma manifestação que envolve o canto, a dança, o teatro e a espiritualidade cristã e de matriz africana .
Para os congadeiros, a Congada é uma questão de devoção e fé. É uma forma de receber as energias dos antepassados, dos espíritos de luz que protegem o grupo. A vibração dos tambores e a dança sem canseira, mesmo suando, são a prova de que estão recebendo o axé dos que já se foram . É uma missão que exige preparo espiritual e muita dedicação.
Por que a Congada é tão importante para o Brasil?
Porque ela é:
Memória Viva: Um elo direto com a história da realeza africana e a resistência dos negros escravizados no Brasil.
Sincretismo Profundo: Uma fusão única de fé católica e matriz africana, que celebra a diversidade religiosa do Brasil.
Arte Total: Uma expressão completa de dança, música, canto, teatro e artes visuais em um espetáculo de profunda emoção.
Comunidade e Fé: Fortalece os laços sociais, transmite saberes e mantém viva a identidade do povo afro-brasileiro.
Energia Contagiante: Um ritmo que faz o corpo vibrar e a alma se conectar com a força da ancestralidade.
A Congada é a batida do coração da África que pulsa no Brasil, um convite para sentir a força, a fé e a memória de uma cultura que dança e canta sua história com orgulho e resiliência!
A série "Brasis em Traços" é uma coleção de ilustrações autorais da artista brasileira Lu Paternostro, focada na representação da cultura típica, tradicional e imaterial do Brasil. Com estilo colorido e detalhado, a série retrata festas, danças, tipos populares, lendas e a diversidade étnica brasileira, baseada em vasta pesquisa sobre o folclore e a identidade nacional.
Uma pequena lembrança para você:
Cada festa, folguedo, dança ou manifestação genuína de um povo não é algo fixo — é um organismo vivo, enraizado em um território e em constante transformação. Tudo é fluxo. Tudo é vivo, dinâmico. Como um rio, que corre sem nunca se deixar apreender por inteiro: não se captura um instante sem que ele já tenha se transformado.
É justamente aí que reside sua maior riqueza — nesse movimento contínuo, que existe no tempo e no corpo dos brincantes, despertando uma alegria difícil de nomear, mas impossível de não sentir.
Esta é apenas uma breve introdução ao tema, acompanhada de desenhos que buscam revelar um fragmento desse movimento. Lu Paternostro
Arte afro-brasileira que mistura luta, dança, música e jogo simbólico em uma roda marcada por berimbau, atabaque e palmas. Nascida nos tempos de escravidão como forma de resistência, hoje é Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil e da Humanidade, praticada em todo o mundo.
Ilustração "Capoeira", da série "Manifestações da Cultura Brasileira. Proibida cópia, uso ou reprodução desta imagem sem a autorização da artista.
Quem é homem de bem não trai
O amor que lhe quer seu bem
Quem diz muito que vai, não vai
Assim como não vai, não vem
Quem de dentro de si não sai
Vai morrer sem amar ninguém
O dinheiro de quem não dá
É o trabalho de quem não tem
Capoeira que é bom não cai
Mas se um dia ele cai, cai bem
Capoeira me mandou dizer que já chegou
Chegou para lutar
Berimbau me confirmou vai ter briga de amor
Tristeza, camará
Se não tivesse o amor
Se não tivesse essa dor
E se não tivesse o sofrer
E se não tivesse o chorar
Melhor era tudo se acabar
Eu amei, amei demais
O que eu sofri por causa de amor ninguém sofreu
Eu chorei, perdi a paz
Mas o que eu sei é que ninguém nunca teve mais, mais do que eu
Capoeira me mandou dizer que já chegou
Chegou para lutar
Berimbau me confirmou vai ter briga de amor
Tristeza camará
Berimbau Baden Powell Música e poesia
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Capoeira: A Luta-Dança que Libertou Corpos e Almas!
“Capoeira me mandou dizer que já chegou. Chegou para lutar Berimbau. Me confirmou, vai ter briga de amor Tristeza, camará” – “Berimbau”, Baden Powell e Vinicius de Moraes
Imagine uma arte que é ao mesmo tempo luta, dança, música, jogo e filosofia de vida. Essa é a Capoeira, uma das mais poderosas e belas expressões da cultura afro-brasileira, que se espalhou por todo o Brasil e por mais de 150 países, encantando o mundo com sua ginga e sua história de resistência.
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A Semente Africana em Solo Brasileiro
A Capoeira tem sua origem nas raízes africanas, trazida pelos escravos para o Brasil. Desenvolveu-se com força e expressão, principalmente em grandes cidades portuárias como Salvador, Rio de Janeiro e Recife.
No cenário de opressão da escravidão, os negros, em seus raros momentos de lazer, preservavam suas culturas através da música, dança e brincadeiras. Foi assim que a Capoeira nasceu: uma luta criada para a autodefesa e para auxiliar nas fugas, praticada nas senzalas e, posteriormente, nos quilombos.
A astúcia da Capoeira: Como os senhores de escravos não aceitariam que eles praticassem qualquer tipo de luta, os movimentos eram disfarçados em forma de dança. A musicalidade sempre esteve presente, tornando a Capoeira uma luta que se camuflava em arte, uma estratégia de sobrevivência e resistência.
Capoeira: O que significa esse nome?
A palavra Capoeira tem origem na língua indígena Tupi, de ka'a ("mata") e pûer ("que foi"), significando "mato ralo" ou "mato que foi derrubado". Essa vegetação rasteira era típica das clareiras e periferias das cidades, onde os escravos e libertos costumavam praticar essa luta espetacular. Era ali, nesse "mato que foi", que eles transformavam seus corpos em armas poderosíssimas contra os ataques e perseguições dos capitães do mato.
Patrimônio Imaterial: Um Tesouro da Humanidade!
A Capoeira é tão importante que foi reconhecida mundialmente!
Em outubro de 2008, a "Roda de Capoeira" e o "Ofício de seus Mestres" foram inscritos no Livro dos Registros de Bens Imateriais do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), nas categorias "Formas de Expressão" e "Saberes".
Em 2014, a UNESCO reconheceu a Roda de Capoeira como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.
Patrimônio Imaterial são as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas que as comunidades reconhecem como parte do seu patrimônio cultural. No caso da Capoeira, é a ginga, a música, a filosofia, a história de resistência e a sabedoria dos mestres que são protegidas e valorizadas para serem transmitidas de geração em geração.
A Roda: O Círculo Mágico da Capoeira
A roda de capoeira é um local mágico, um espaço de transmissão dos saberes dos mestres capoeiristas. É um círculo de capoeiristas onde a bateria musical comanda o ritmo e onde a capoeira é jogada, tocada e cantada. Diferente de outras lutas, os capoeiristas não dizem que estão "lutando", mas sim que estão "jogando" capoeira.
O jogo deve seguir o ritmo dos instrumentos, e cada toque determina um tipo diferente de jogo: alguns permitem movimentos mais rápidos e agressivos, outros mais acrobáticos ou rasteiros.
Os Movimentos: Ginga, Ataque e Defesa
A Capoeira é composta por diversos movimentos que exigem desenvoltura, flexibilidade, rapidez, destreza e muita agilidade:
A Ginga: É o movimento principal, a base da Capoeira. O praticante fica se mexendo, "gingando" o tempo todo, de um lado para o outro, de forma cadenciada e no ritmo do berimbau. A ginga é um movimento de defesa, mas a partir dela pode ser aplicado um golpe fatal!
Ataques: Chutes, rasteiras, saltos incríveis, cotoveladas, cabeçadas e movimentos elaborados que acontecem tanto no solo quanto no ar.
Mandinga: Um termo comum na capoeira, refere-se à forma como o capoeirista ginga e se conecta com toda a sua ancestralidade durante o jogo. A mandinga é a identidade de cada capoeirista!
Os Sotaques da Capoeira: Angola, Regional e Contemporânea
Atualmente, consideram-se três tipos principais de Capoeira, cada um com suas características e filosofias:
Capoeira Angola (ou Capoeira de Vadiação): É a forma mais antiga, com movimentos mais rasteiros, lentos e focados na malícia e na estratégia. O Mestre Pastinha, em 1941, criou o primeiro espaço formal para o ensino da vadiação, resgatando essa tradição.
Capoeira Regional: Criada no começo do século XX pelo lendário Mestre Bimba, que fundou, em 1932, a primeira Academia de Capoeira no Brasil. A Regional é mais rápida, com movimentos acrobáticos e golpes mais objetivos, incorporando elementos de outras lutas.
Capoeira Contemporânea: Uma fusão de elementos da Angola e da Regional, buscando a versatilidade e a adaptação aos novos tempos.
A Bateria: A Alma Sonora da Roda
A música é o coração da Capoeira, e a bateria é quem comanda a roda. Os instrumentos são tocados pelos mestres e alunos mais experientes, ditando o ritmo e a energia do jogo:
Berimbau: O instrumento principal, que praticamente comanda a forma de acontecer a capoeira. Seu toque determina o tipo de jogo.
Pandeiros: Trazem o brilho e a marcação rítmica.
Atabaques: Tambores que dão a base percussiva e a força ancestral.
Agogô: Um instrumento de percussão com dois ou mais sinos.
Reco-reco e Caxixi: Adicionam texturas e sons complementares.
As canções da Capoeira são divididas em ladainhas, chulas, corridos ou quadras, e são acompanhadas pelas palmas dos capoeiristas que formam a roda, criando um coro vibrante.
A Perseguição e a Resistência: A Capoeira como Símbolo de Luta
A história da Capoeira é também uma história de perseguição e resistência. No século XIX, no Rio de Janeiro e em Recife, a Capoeira foi duramente reprimida. Em 1890, o governo republicano brasileiro chegou a decretar a proibição da Capoeira em todo o território nacional, criminalizando seus praticantes.
Eduardo Bueno, o historiador, nos lembra que a Capoeira era crime há muito tempo. No início do século XX, por exemplo, em 1909, um capoeirista chamado Cyriaco detonou um mestre de Jiu-Jitsu japonês em uma luta no Rio de Janeiro, mostrando a força da Capoeira, mesmo sendo proibida. Muitos capoeiristas foram presos e enviados para o exílio em Fernando de Noronha ou para o Acre.
No entanto, a Capoeira nunca se calou. Ela se tornou uma forma de os negros, que não tinham terra, moradia ou trabalho após a abolição, transformarem seu corpo em arma e sua cultura em resistência.
A virada: Durante a Guerra do Paraguai, muitos capoeiras foram cooptados e enviados para lutar, criando o Batalhão dos Zuavos, que se destacou em batalha. Mais tarde, na Revolta da Vacina (1904), no Rio de Janeiro, capoeiristas como o lendário Prata Preta lideraram a resistência popular, mostrando que a Capoeira era a voz e a força do povo.
Foi somente na década de 1930, com o presidente Getúlio Vargas, que a proibição da Capoeira foi suspensa, e ela começou a ser identificada como um esporte genuinamente brasileiro.
Identidade e Tradição: Os Apelidos e as Cordas
Apelidos: Um costume muito presente nos grupos de capoeira é batizar um "camarada" (sinônimo de amigo, companheiro) com um apelido. Essa é uma herança dos tempos de perseguição policial, quando o apelido servia como um codinome para dificultar a identificação.
Vestimenta: Geralmente, usa-se uma calça branca chamada ABADÁ e uma corda amarrada como cinto. As diferentes cores das cordas simbolizam a graduação dos capoeiristas, embora a ordem das cores possa variar entre os grupos.
A Capoeira Hoje: Um Patrimônio Vivo e Global
A Capoeira deixou de ser apenas uma forma de defesa pessoal para assumir o papel de resistência cultural. Ela engloba toda a ancestralidade africana e continua a ser um símbolo da identidade brasileira, reconhecido internacionalmente.
Atualmente, a Capoeira está presente em mais de 150 países, sendo uma grande responsável pela propagação da língua portuguesa, já que todas as aulas são ensinadas em português. Inúmeros estrangeiros vêm ao Brasil para conhecer mais da nossa cultura através da Capoeira, e muitos mestres brasileiros levam essa arte para o mundo, onde, infelizmente, muitas vezes são mais respeitados e valorizados do que em seu próprio país.
A Capoeira é um movimento que resgata jovens, promove a cultura e mantém viva a chama da ancestralidade.
Por que a Capoeira é tão importante?
Porque ela é:
Luta: Que ensina a se defender e a resistir.
Dança: Que expressa a liberdade e a beleza do movimento.
Música: Que embala a alma e conta histórias.
História: Que revela a força e a resiliência do povo brasileiro.
Patrimônio: Que nos lembra da importância de preservar nossas raízes e tradições afro-brasileiras.
A Capoeira é a ginga do Brasil que não se curva, que luta, canta e dança pela liberdade!
A série "Brasis em Traços" é uma coleção de ilustrações autorais da artista brasileira Lu Paternostro, focada na representação da cultura típica, tradicional e imaterial do Brasil. Com estilo colorido e detalhado, a série retrata festas, danças, tipos populares, lendas e a diversidade étnica brasileira, baseada em vasta pesquisa sobre o folclore e a identidade nacional.
Uma pequena lembrança para você:
Cada festa, folguedo, dança ou manifestação genuína de um povo não é algo fixo — é um organismo vivo, enraizado em um território e em constante transformação. Tudo é fluxo. Tudo é vivo, dinâmico. Como um rio, que corre sem nunca se deixar apreender por inteiro: não se captura um instante sem que ele já tenha se transformado.
É justamente aí que reside sua maior riqueza — nesse movimento contínuo, que existe no tempo e no corpo dos brincantes, despertando uma alegria difícil de nomear, mas impossível de não sentir.
Esta é apenas uma breve introdução ao tema, acompanhada de desenhos que buscam revelar um fragmento desse movimento. Lu Paternostro