Ilustração “Carnaval”. Manifestações da Cultura Tradicional Brasileira. Série Brasis em Traços

A maior festa popular do Brasil, uma explosão de alegria, música e dança que toma as ruas do país. De desfiles suntuosos a blocos de rua, é uma celebração da liberdade, da criatividade e da identidade nacional.

Ilustração "Carnaval", da série "Manifestações da Cultura Brasileira. 
 Copyright Lu Paternostro. Proibida cópia, uso ou reprodução desta imagem sem a autorização da artista.
Ilustração "Carnaval", da série "Manifestações da Cultura Brasileira.
Proibida cópia, uso ou reprodução desta imagem sem a autorização da artista.

Carnaval, desengano
Deixei a dor em casa me esperando
E brinquei e gritei e fui vestido de rei
Quarta-feira sempre desce o pano

Carnaval, desengano
Essa morena me deixou sonhando
Mão na mão, pé no chão
E hoje nem lembra não
Quarta-feira sempre desce o pano

Era uma canção, um só cordão
E uma vontade
De tomar a mão
De cada irmão pela cidade

No carnaval, esperança
Que gente longe viva na lembrança
Que gente triste possa entrar na dança
Que gente grande saiba ser criança

Sonho de um Carnaval
Chico Buarque
Música e poesia

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Carnaval: Uma festa que faz o Brasil vibrar como um único corpo!

Prepare-se para mergulhar na alegria contagiante do Carnaval, a festa mais popular do Brasil e uma das maiores celebrações culturais do planeta! É um período de pura folia, onde a música, a dança, as cores e a criatividade tomam conta das ruas, unindo pessoas de todas as idades e origens em um só ritmo.

Uma Festa com Raízes Antigas e Globais

A palavra Carnaval vem do latim carnem levare, que significa "retirar a carne". Historicamente, o Carnaval é um período de festas e excessos que antecede a Quaresma, os 40 dias de jejum e penitência do calendário cristão.

Suas origens são muito antigas, remontando a celebrações pagãs da Antiguidade, como as festas dionisíacas na Grécia e as saturnálias em Roma, onde as pessoas se entregavam à alegria, à inversão de papéis sociais e à liberdade. Com o tempo, essas tradições foram incorporadas e adaptadas pela cultura cristã, chegando à Europa e, de lá, ao Brasil.

A Chegada ao Brasil: Do Entrudo à Folia Organizada

No Brasil, o Carnaval chegou com os colonizadores portugueses, na forma do Entrudo. Essa era uma brincadeira mais rude, onde as pessoas jogavam água, farinha e até ovos umas nas outras. Com o tempo, o Entrudo foi perdendo força e dando lugar a novas formas de folia, influenciadas pelas tradições europeias e, principalmente, pela rica cultura africana e indígena que se desenvolvia no país.

No século XIX, o Carnaval começou a se organizar, com a criação dos primeiros cordões, ranchos e blocos, que desfilavam pelas ruas com músicas e fantasias. Foi um período de transição, onde a festa popular ganhava novas formas e se adaptava à diversidade cultural brasileira.

Curiosidade Nostálgica: Antigamente, era comum ver os "carros de capota" desfilando, com as mulheres sentadas sobre o banco de trás, em uma cena elegante e charmosa que marcava a folia da época.

O Carnaval como Patrimônio Imaterial: Uma Celebração Viva

Embora o Carnaval como um todo não tenha um único título de Patrimônio Imaterial da Humanidade (como a Roda de Capoeira ou o Bumba Meu Boi do Maranhão), diversas de suas manifestações regionais são reconhecidas como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo IPHAN. Isso mostra a riqueza e a importância de cada expressão carnavalesca para a identidade brasileira.

Patrimônio Imaterial são as tradições vivas, as expressões, os conhecimentos e as práticas que uma comunidade reconhece como parte de sua herança cultural. O Carnaval, em suas múltiplas formas, é um exemplo vibrante de como a criatividade, a música, a dança e a alegria são transmitidas de geração em geração, moldando a identidade de um povo.



Os Mil Carnavais do Brasil: Uma Explosão de Diversidade

O Brasil é um país de muitos Carnavais, cada um com sua identidade, seus ritmos e suas tradições. Essa diversidade é o que torna a festa tão única e grandiosa:

  • Rio de Janeiro: Famoso pelos desfiles grandiosos das Escolas de Samba na Marquês de Sapucaí, com suas alegorias gigantescas, fantasias luxuosas e o samba-enredo que conta histórias e emociona. Além disso, os blocos de rua arrastam milhões de foliões em uma festa democrática e espontânea.
  • Salvador: Onde a festa acontece nas ruas, com os trios elétricos que arrastam multidões em circuitos como o Dodô (Barra-Ondina) e o Osmar (Campo Grande). O axé music, o afoxé e os blocos afro como o Ilê Aiyê e o Olodum celebram a cultura negra e a ancestralidade.
  • Pernambuco (Recife e Olinda): Conhecido pelo Frevo, um ritmo frenético e contagiante, e pelo Maracatu, com seus tambores fortes e cortejos reais. Em Olinda, os bonecos gigantes desfilam pelas ladeiras históricas, e o Galo da Madrugada, em Recife, é o maior bloco de Carnaval do mundo.
  • Minas Gerais: Com seus blocos de rua que crescem a cada ano, especialmente em Belo Horizonte, e os carnavais históricos de cidades como Ouro Preto e Diamantina, que mantêm a tradição dos blocos e das repúblicas estudantis.

São Paulo: Que também se destaca pelos desfiles das Escolas de Samba no Sambódromo do Anhembi, com um espetáculo de alta qualidade, e por uma crescente e vibrante cena de blocos de rua.

Os Bonecos Gigantes – A Alma Caricata e Amada do Carnaval Brasileiro

No vibrante mosaico do Carnaval brasileiro, há figuras que se erguem acima da multidão, não apenas em tamanho, mas em carisma e significado: os Bonecos Gigantes, carinhosamente chamados de "bonecões". Longe de serem meros adereços, essas imponentes esculturas de papel machê são a alma e o coração de carnavais tradicionais, carregando consigo a história, a irreverência e o afeto de um povo.

Feitos de papelagem, madeira e tecido, com uma técnica artesanal que remonta a séculos, os bonecos gigantes ganham vida nas mãos de mestres artesãos. Cada detalhe, do sorriso largo à expressão caricata, é pensado para evocar personagens importantes da nossa história, figuras folclóricas, personalidades políticas, artistas amados e até mesmo o cidadão comum, transformando-os em ícones da folia.

Em Olinda (PE), eles são protagonistas absolutos, desfilando pelas ladeiras históricas e atraindo olhares de admiração e carinho. A cidade, inclusive, abriga um Museu do Boneco Gigante, testemunho da importância cultural desses personagens. Mas a magia dos bonecões não se restringe a Pernambuco; eles agitam carnavais em diversas outras cidades pelo Brasil, como São José dos Campos (SP), Atibaia (SP), Santana de Parnaíba (SP) e muitas outras, onde se tornam o centro das atenções.

Curiosidade que encanta: A forma como esses gigantes ganham vida é um espetáculo à parte. Cada boneco é "animado" por uma pessoa que o carrega por dentro, dançando e interagindo com a multidão. É um trabalho de fôlego e paixão, que exige habilidade e resistência.

Para as crianças, a presença dos bonecões é pura magia. Elas os adoram, correm para tocá-los, tiram fotos e se encantam com a grandiosidade e a familiaridade dos personagens, vendo seus heróis e figuras queridas ganharem vida em proporções épicas. Essa interação direta cria memórias afetivas profundas, garantindo que a tradição seja amada e perpetuada pelas novas gerações.

Os bonecos gigantes são, portanto, mais do que artefatos; são pontes entre o passado e o presente, entre a crítica social e a pura alegria, entre o sonho e a realidade do Carnaval. Eles são a representação palpável da criatividade popular, um convite para olhar para cima e se deixar levar pela fantasia que só o Carnaval brasileiro sabe criar.

Música e Ritmo: A batida que contagia

A música é o coração do Carnaval. Cada região tem seus ritmos característicos, que fazem o corpo vibrar e a alma se soltar:

  • Samba: O ritmo mais emblemático do Carnaval brasileiro, com suas variações como o samba-enredo, o samba de bloco e o pagode.
  • Frevo: De Pernambuco, um ritmo acelerado e acrobático, com passos de dança únicos.
  • Axé Music: Da Bahia, uma mistura de ritmos africanos, pop e caribenhos, que embala os trios elétricos.
  • Maracatu: Também de Pernambuco, com a força dos tambores e a herança dos cortejos reais africanos.
  • Marchinhas: As canções tradicionais e bem-humoradas que animam os blocos de rua e os bailes.

Marchinhas Famosas que Marcaram Época:

  • "Mamãe Eu Quero" (Jararaca e Vicente Paiva)
  • "Cidade Maravilhosa" (André Filho)
  • "Allah-lá-ô" (Haroldo Lobo e Nássara)
  • "Cabeleira do Zezé" (João Roberto Kelly e Roberto Faissal)
  • "Me Dá um Dinheiro Aí" (Ivan Ferreira, Homero Ferreira e Glauco Ferreira)
  • "Sassaricando" (Luiz Antônio, Zé Keti e Oldemar Magalhães)

Os instrumentos variam de acordo com o ritmo: baterias de escolas de samba com surdos, caixas, repiques e tamborins; orquestras de frevo com metais e percussão; trios elétricos com guitarras, baixos, baterias e percussão eletrônica; e os blocos de rua com uma infinidade de instrumentos percussivos.

Artesanato e Fantasia: A Magia do Carnaval

O Carnaval é um verdadeiro ateliê a céu aberto, onde a criatividade e o artesanato se encontram para criar um universo de fantasia. Por trás de cada pluma, cada bordado, cada estrutura de alegoria, há o trabalho incansável de uma comunidade de artesãos que dedicam meses para transformar ideias em realidade:

  • Fantasias: Desde as mais elaboradas e luxuosas das escolas de samba, com plumas, brilhos e pedrarias, até as fantasias criativas e bem-humoradas dos blocos de rua, tudo é feito com esmero e paixão.
  • Alegorias: Carros alegóricos gigantescos, verdadeiras esculturas em movimento, que contam histórias e impressionam pela grandiosidade e riqueza de detalhes.
  • Bonecos Gigantes: Verdadeiras obras de arte da cultura popular, esses bonecos de grandes proporções, muitas vezes caricaturas de personalidades ou figuras folclóricas, são construídos com maestria e desfilam pelas ruas, interagindo com o público e adicionando um elemento lúdico e espetacular à festa.
  • Adereços: Máscaras, chapéus, sombrinhas de frevo e outros acessórios que complementam as fantasias e dão vida aos personagens.

Essa comunidade de artistas populares, costureiras, bordadeiras, escultores, carpinteiros e ferreiros é a alma invisível que constrói a magia visível do Carnaval, mantendo viva a tradição e a arte.

Religiosidade e Sincretismo: A Fé na Folia

Embora seja uma festa de excessos que antecede um período religioso, o Carnaval no Brasil também tem suas conexões com a fé e o sincretismo:

  • Santos Populares: Em algumas regiões, a festa se mistura com a devoção a santos populares.
  • Matrizes Africanas: A presença de blocos afro e afoxés, especialmente na Bahia, celebra a herança religiosa africana, com cânticos e ritmos que remetem ao Candomblé e à Umbanda, mostrando a força do sincretismo religioso brasileiro.

O Carnaval é um espaço onde o sagrado e o profano se encontram, onde a alegria e a fé caminham juntas, celebrando a vida em todas as suas formas.

Por que o Carnaval é uma festa tão querida?

Porque ele é:

  • Alegria: Que contagia e transforma as ruas em palcos de celebração.
  • Cultura: Que expressa a diversidade e a riqueza do povo brasileiro.
  • Arte: Nas fantasias, na música, na dança, nas alegorias e nos bonecos gigantes, que são a alma de muitos carnavais.
  • Tradição: Que se renova a cada ano, mantendo viva a chama da folia.
  • Liberdade: Onde todos podem ser quem quiserem, por alguns dias, em um abraço coletivo de felicidade.

O Carnaval é a alma do Brasil em festa, um convite irrecusável para celebrar a vida!!


Selo Brasis em Traços de Lu Paternostro

A série "Brasis em Traços" é uma coleção de ilustrações autorais da artista brasileira Lu Paternostro, focada na representação da cultura típica, tradicional e imaterial do Brasil. Com estilo colorido e detalhado, a série retrata festas, danças, tipos populares, lendas e a diversidade étnica brasileira, baseada em vasta pesquisa sobre o folclore e a identidade nacional.


Uma pequena lembrança para você:

Cada festa, folguedo, dança ou manifestação genuína de um povo não é algo fixo — é um organismo vivo, enraizado em um território e em constante transformação. Tudo é fluxo. Tudo é vivo, dinâmico. Como um rio, que corre sem nunca se deixar apreender por inteiro: não se captura um instante sem que ele já tenha se transformado.

É justamente aí que reside sua maior riqueza — nesse movimento contínuo, que existe no tempo e no corpo dos brincantes, despertando uma alegria difícil de nomear, mas impossível de não sentir.

Esta é apenas uma breve introdução ao tema, acompanhada de desenhos que buscam revelar um fragmento desse movimento.
Lu Paternostro

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NOTA LEGAL: Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização expressa dos autores

Maracatu Rural. Manifestações da Cultura Tradicional Brasileira. Série Brasis em Traços

Caboclos de lança, mantos brilhantes e orquestra de metais levam a zona da mata a um transe colorido. Um maracatu mais rápido e rural, misturando teatro, batalha simbólica e devoção.

Ilustração "Maracatu Rural", da série "Manifestações da Cultura Brasileira. 
 Copyright Lu Paternostro. Proibida cópia, uso ou reprodução desta imagem sem a autorização da artista.
Ilustração "Maracatu Rural - Caboclo de Lança", da série "Manifestações da Cultura Brasileira.
Proibida cópia, uso ou reprodução desta imagem sem a autorização da artista.

“O Caboclo de Surrão
Que sabe bem o que quer na cama
Deixa a mulher para
Ele dormir no chão
Para não manchar a nação,
Três dias de carnaval Capricha no ritual, no cravo
Bota um mistério, que não tem nada mais sério
Que o Maracatu Rural”

Mestre Barachinha.
A poesia e a rima o tornaram
um grande mestre do Maracatu.

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Maracatu: Figuras Curiosas que Pulsam nos Canaviais

Prepare-se para uma viagem vibrante ao coração de Pernambuco, onde a história, a fé e a resistência do povo negro ganham vida em um espetáculo de cores, música e dança! O Maracatu é um cortejo carnavalesco de origem afro-brasileira, uma mistura poderosa de teatro, música e dança que ecoa a alma da África em solo brasileiro.

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Pernambuco: O Berço de uma Tradição Real

O Maracatu nasceu dos trabalhadores rurais, nas fazendas de cana-de-açúcar do interior de Pernambuco, na época do Brasil Império. Em sua origem, foi criado para camuflar a história e os cultos africanos, que eram proibidos pela coroa portuguesa e pela Igreja Católica. Era uma forma de resistência, uma linguagem secreta para preservar a herança e encontrar força na comunidade. No começo do século XIX, o Maracatu veio para Recife e hoje é um dos grandes momentos do Carnaval, especialmente na cidade de Nazaré da Mata, a 70 km de Recife, carinhosamente conhecida como a Cidade dos Maracatus.



Patrimônio Imaterial: A Coroa da Cultura Brasileira!

O Maracatu é uma manifestação cultural de valor inestimável, reconhecida por sua importância histórica e artística:

  • Maracatu Nação (Baque Virado) foi reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo IPHAN em 2014.
  • Maracatu Rural (Baque Solto) encontra-se em processo de Registro como patrimônio imaterial brasileiro pelo IPHAN.

Patrimônio Imaterial são as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas que uma comunidade reconhece como parte de sua herança cultural. O Maracatu, em suas duas formas, é um lembrete poderoso da força e beleza da cultura afro-brasileira, um elo vivo com nossos ancestrais e um símbolo de resistência e celebração.

Os Dois Reinos do Maracatu: Nação e Rural

O Maracatu se divide em dois tipos bem distintos, cada um com sua própria história, personagens e sonoridade:

1. Maracatu Nação (ou de Baque Virado)

É a forma mais antiga, com cerca de 30 a 50 brincantes, que tem como tema central a coroação dos reis africanos. É um desfile da corte real negra, uma forma de perpetuar a história dos ancestrais para as gerações nascidas no Brasil.

  • Personagens da Corte: O rei e a rainha são as figuras centrais, acompanhados por uma corte majestosa: damas de honra, príncipe e princesa, duque e duquesa, barão e baronesas, embaixador e porta-estandarte (que carrega o nome da agremiação ou a imagem de um animal). Há também a dama de corte, o vassalo (que carrega o pátio ou guarda-sol) e as damas de passo (Yabás ou baianas), que carregam a Calunga — uma boneca negra que representa as rainhas antepassadas da corte e toda a parte espiritual e ancestral. Em alguns cortejos, o caboclo de pena representa os índios guerreiros, inserindo a tradição brasileira.
  • Música e Instrumentos: A orquestra é composta exclusivamente por instrumentos de percussão, criando um ritmo forte e sincopado, a "batida do coração do Maracatu" . Os principais são: gonguê, ganzá, xequerê, maracá, caixas e alfaias (para a marcação grave dos ritmos). As músicas são toadas, cantadas pelo tirador de loas ou versos, que apita no início e no final de cada estrofe.
  • Religiosidade: O Maracatu Nação preserva sua origem religiosa. É parte do cortejo fazer a dança das calungas na frente das igrejas para homenagear Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, divindades negras católicas. Em terreiros, os homenageados são os orixás, denotando o caráter sincrético da tradição.

2. Maracatu Rural (ou de Baque Solto)

Criado posteriormente ao de Baque Virado, surge na zona da mata pernambucana nos séculos XIX e XX. Foi criado por agricultores das canas e sofreu influência e mescla de muitos outros folguedos de Pernambuco, como bumba-meu-boi, folia de reis e cavalo marinho. É uma celebração da vida rural, repleta de alegria e improvisação.

  • Personagens da Mata: O elenco é vasto e colorido: rei e rainha, porta-bandeira ou baliza, Mateus, Catirina, burro, caçador, porta-buquês, baianas, a boneca Aurora, caboclos de pena (com grandes cocares de penas e machados), o vassalo ou “menino da sombrinha” e o personagem principal, o Caboclo de Lança.
  • O Caboclo de Lança: É o guerreiro de Ogum, formado por trabalhadores rurais. Portam lanças de madeira adornadas com fitas coloridas e, na cabeça, ricos e exuberantes capacetes. Usam mantos muito coloridos que representam a armadura na encenação da batalha. Alguns usam grandes óculos e uma flor branca na boca, sendo o cravo a mais tradicional — um mistério que não tem nada mais sério que o Maracatu Rural, como canta Mestre Barachinha.
  • A Dança e o Enredo: No Maracatu de Baque Solto não há cortejo linear. Acontece em dois círculos concêntricos. No círculo de fora, os caboclos de lança correm e fazem algazarras, encenando a batalha, golpeando com suas lanças de dois metros de altura e carregando chocalhos nas costas que marcam o ritmo. No círculo menor, dançam as damas de buquê, baianas, caboclo de pena, boneca e estandarte. Quem comanda os movimentos é o apito do mestre, também responsável pelas cantorias das toadas.
  • Música e Instrumentos (Maracatu Orquestra): Seu conjunto de instrumentos é maior e mais diversificado que o de Baque Virado, sendo conhecido como Maracatu Orquestra. Nele encontramos: tarol ou caixa, porca ou cuíca, zabumba, surdo, ganzá, chocalho e metais como clarinetes, saxofone, trombone e pistom. No coro, ouvem-se vozes femininas, e seu ritmo é bem mais rápido.

Artesanato e Indumentária: A Arte que Veste a Tradição

O Maracatu é um verdadeiro ateliê a céu aberto, onde a arte da costura e do bordado se transformam em fantasias deslumbrantes:

Lanças e Calungas: As lanças adornadas e as calungas (bonecas sagradas) são elementos visuais e simbólicos poderosos.

Bordados e Adereços: As vestimentas são ricas em detalhes, com bordados que podem levar de 15 dias a um mês para serem feitos, como as golas dos caboclos. Plumas, lantejoulas, fitas e espelhinhos adornam os trajes, criando um visual exuberante.

Capacetes e Coroas: Os capacetes dos caboclos de lança e as coroas dos reis e rainhas são obras de arte à parte, cheios de flores e brilho.

Por que o Maracatu é tão bonito e grandioso?

Porque ele é:

  • Realeza Viva: Um desfile que celebra a história e a dignidade dos reis e rainhas africanos no Brasil.
  • Resistência Cultural: Uma forma de preservar a herança africana e indígena, resistindo à opressão e à invisibilidade.
  • Arte Total: Uma fusão de música, dança, teatro, poesia e artes visuais em um espetáculo único.
  • Comunidade e Fé: Fortalece os laços sociais, celebra a fé sincrética e transmite tradições de geração em geração.
  • Energia Contagiante: Um ritmo que faz o coração vibrar e a alma se conectar com a força da ancestralidade.

O Maracatu é a batida da alma de Pernambuco, um convite para sentir a força, a beleza e a realeza de uma cultura que dança e canta sua história com orgulho e paixão!


Selo Brasis em Traços de Lu Paternostro

A série "Brasis em Traços" é uma coleção de ilustrações autorais da artista brasileira Lu Paternostro, focada na representação da cultura típica, tradicional e imaterial do Brasil. Com estilo colorido e detalhado, a série retrata festas, danças, tipos populares, lendas e a diversidade étnica brasileira, baseada em vasta pesquisa sobre o folclore e a identidade nacional.


Uma pequena lembrança para você:

Cada festa, folguedo, dança ou manifestação genuína de um povo não é algo fixo — é um organismo vivo, enraizado em um território e em constante transformação. Tudo é fluxo. Tudo é vivo, dinâmico. Como um rio, que corre sem nunca se deixar apreender por inteiro: não se captura um instante sem que ele já tenha se transformado.

É justamente aí que reside sua maior riqueza — nesse movimento contínuo, que existe no tempo e no corpo dos brincantes, despertando uma alegria difícil de nomear, mas impossível de não sentir.

Esta é apenas uma breve introdução ao tema, acompanhada de desenhos que buscam revelar um fragmento desse movimento.
Lu Paternostro

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NOTA LEGAL: Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização expressa dos autores

Marabaixo. Manifestações da Cultura Tradicional Brasileira. Série Brasis em Traços

Roda de dança de pé arrastado, caixas de couro e cantos que nasceram nos porões dos navios negreiros. Maior manifestação cultural do Amapá, une Festa do Divino, fé católica e matriz africana em um longo ciclo festivo.

Ilustração "Marabaixo", da série "Manifestações da Cultura Brasileira. 
 Copyright Lu Paternostro. Proibida cópia, uso ou reprodução desta imagem sem a autorização da artista.
Ilustração "Marabaixo", da série "Manifestações da Cultura Brasileira.
Proibida cópia, uso ou reprodução desta imagem sem a autorização da artista.

Aonde tu vais rapaz?
Neste caminho sozinho
Eu vou fazer minha morada
Lá nos campos do laguinho

As ruas do Macapá
Estão ficando um primor
Tem hospitais, tem escolas
Pros fíos do trabalhadô
Mas as casas que são feitas
É só prá morar os doutô
Dia primeiro de junho...

Marabaixo
Luiz Gonzaga
Música e poesia

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Marabaixo: A Batida da Resistência e da Fé que Pulsa no Coração do Amapá!

“Eu tinha bom, eu te diga aí que eu tinha Mama, eu tinha, eu disse: olha, achava preso na gaiola Bateu as asas, foi embora, acaba Preto a gaiola, a scheila já foi embora, tô Ela já foi embora, tu indo depois na água e foi do veículo dentro do meu coração” – Toada de Marabaixo

Prepare-se para descobrir um dos mais vibrantes e emocionantes rituais do Brasil, um tesouro cultural que pulsa no extremo norte do país: o Marabaixo! Essa manifestação, praticamente desconhecida de muitos brasileiros, é a maior expressão cultural do Amapá, um ritual de origem africana que compõe festas católicas populares em comunidades negras da área metropolitana de Macapá, a capital do estado

A dança e o canto do Marabaixo constituem o lado profano da Festa do Divino e acontecem integradas a esta comemoração.

O Marabaixo acontece no ritmo de tambores ou das caixas, instrumentos de percussão construídos com madeira e pele de animais. As mulheres dançam de forma vigorosa, com suas saias de cores vivas, no ritmo forte e intenso dos batuques. Durante o ritual são servidas bebidas, sendo a mais típica a gengibirra.

No dia 16 de junho comemora-se o dia estadual do Marabaixo no Amapá.

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A Origem no Mar e a Força da Resistência

O Marabaixo é uma dança da cultura africana, provavelmente trazida pelos negros que chegaram ao Amapá no século XVIII, escravizados para a construção da Fortaleza de São José, ou por famílias africanas fugidas de guerras.

Sua origem é contada em lamentos que ecoam a travessia do Atlântico: "No mar acima, no mar abaixo, nós cantávamos", referindo-se ao movimento do navio nas ondas. Essa dança de "pé arrastado no chão", com movimentos de lado, simboliza a dificuldade de se movimentar estando acorrentado, mas também a resistência e a capacidade de expressar a vida mesmo na adversidade.

O Marabaixo é, portanto, luta, resistência, história e memória. É a identidade amapaense que surge da vivência e convivência dos seus ancestrais.

Patrimônio Imaterial: Um Tesouro Nacional do Amapá!

A grandiosidade e a importância do Marabaixo foram oficialmente reconhecidas: o Ciclo do Marabaixo foi inscrito no Livro de Registro das Formas de Expressão como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo IPHAN em 2018. Este reconhecimento celebra a riqueza dessa manifestação e a dedicação das comunidades que a mantêm viva.

Patrimônio Imaterial são as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas que uma comunidade reconhece como parte de sua herança cultural. O Marabaixo é um exemplo potente de como a dança, o canto, a fé e a memória moldam a identidade de um povo e se tornam um legado para o país.

O Ciclo do Marabaixo: Fé e Folia por Sessenta Dias

O Marabaixo não é apenas uma dança; é um ciclo de celebrações que se estende por aproximadamente sessenta dias, unindo o sagrado e o profano. As festividades têm início no Domingo de Páscoa e se desenvolvem com uma série de rituais:

  • Levantamento de Mastros: Em homenagem ao Divino Espírito Santo e à Santíssima Trindade.
  • Missas, Novenas e Procissões: O lado católico da festa, onde a fé é expressa em devoção.
  • Danças e Cantorias do Marabaixo: O lado profano, onde a comunidade se reúne para dançar e cantar ao ritmo dos tambores.
  • Derrubada dos Mastros: Marca o encerramento do ciclo anual, em um ritual que simboliza a renovação.

Comunidades como o Quilombo Maruanum, por exemplo, vivem o Marabaixo como parte intrínseca de sua fé e tradição, festejando santos como Santa Luzia em dezembro.



A Dança: Vigor, Ginga e Expressão Coletiva

A dança do Marabaixo é vigorosa e contagiante, um verdadeiro "batuque marabaixo”:

  • Mulheres: Dançam de forma intensa, com suas saias de cores vivas, girando e batendo os pés no ritmo forte dos tambores. Levam uma toalha nos ombros para limpar o suor, que se tornou um adorno típico de suas vestimentas. Muitas usam um ramalhete de flores na cabeça, como rosas ou jasmins, para dar um visual ainda mais bonito.
  • Homens: Fazem gestos que remetem à queda de corpo e à capoeira, que era jogada antigamente em frente à secular Igreja de São José.

É uma dança de roda, de corpo, braço e gingado, que expressa a alegria e a identidade do povo negro.

Música e Instrumentos: A Batida que Conta Histórias

O Marabaixo acontece no ritmo intenso dos tambores ou das caixas, instrumentos de percussão construídos artesanalmente com madeira e pele de animais. A confecção dessas caixas é um processo totalmente artesanal, que leva semanas e é transmitido de geração em geração.

  • Toques e Ladrões: Existem muitos toques diferentes para cada momento do Marabaixo. As músicas são as "ladrões", versos espontâneos e improvisados que as dançarinas e cantadores entoam durante as reuniões, contando fatos do dia a dia, da comunidade, da natureza e da vida. É uma forma de "jogar direto" a realidade, de lutar e resistir.

A Gengibirra: O Sabor da Tradição

Durante o ritual, são servidas bebidas, sendo a mais típica a gengibirra, feita com gengibre e cachaça. Essa bebida embala os foliões, que chegam a dançar a noite toda, fortalecendo os laços comunitários e a energia da festa.

Sincretismo e Identidade: Fé Católica e Matriz Africana

O Marabaixo é um exemplo vivo do sincretismo religioso brasileiro. Embora esteja integrado às festas católicas do Divino Espírito Santo, ele carrega em si a profunda matriz africana. Como relatam os próprios participantes, eles fazem um culto ancestral, um culto de matriz africana, muitas vezes sem saber, percebendo a conexão entre seus santos e os orixás, como a "Vovó do Barro" e Nanã.

Apesar de alguns preconceitos que associavam o Marabaixo a "macumba", os mestres e a comunidade afirmam que é uma manifestação cultural que envolve a religião católica, mas que merece todo o respeito e valorização, assim como qualquer outra religião de matriz africana.

Sincretismo e Identidade: Fé Católica e Matriz Africana

O Marabaixo é um exemplo vivo do sincretismo religioso brasileiro. Embora esteja integrado às festas católicas do Divino Espírito Santo, ele carrega em si a profunda matriz africana.

Como relatam os próprios participantes, eles fazem um culto ancestral, um culto de matriz africana, muitas vezes sem saber, percebendo a conexão entre seus santos e os orixás, como a "Vovó do Barro" e Nanã.

Apesar de alguns preconceitos que associavam o Marabaixo a "macumba", os mestres e a comunidade afirmam que é uma manifestação cultural que envolve a religião católica, mas que merece todo o respeito e valorização, assim como qualquer outra religião de matriz africana.

A Comunidade: Guardiões de uma Herança Viva

No dia 16 de junho, comemora-se o Dia Estadual do Marabaixo no Amapá, com missas e batuqueradas que reúnem vários grupos de danças folclóricas. Grupos organizados trabalham incansavelmente para manter vivas as tradições de raiz de seu povo e ancestrais.

A juventude, que antes via o Marabaixo como "coisa de velho", tem se inserido cada vez mais, garantindo a continuidade dessa cultura . É uma cultura que se transmite de mãe para filha, de avó para neta, de mestre para aprendiz, em um ciclo contínuo de vida e memória.

Por que o Marabaixo é tão importante para nossa cultura?

Porque ele é:

  • Resistência e Memória: Um elo vivo com a história dos negros escravizados e sua luta pela preservação da cultura.
  • Sincretismo Vibrante: Uma fusão única de fé católica e matriz africana, que celebra a diversidade religiosa do Brasil.
  • Arte Total: Uma expressão completa de dança, música, canto, poesia e artesanato.
  • Comunidade e Identidade: Fortalece os laços sociais, transmite saberes e mantém viva a identidade do povo amapaense.
  • Energia Contagiante: Um ritmo que faz o corpo vibrar e a alma se conectar com a força da ancestralidade.

O Marabaixo é a batida do coração do Amapá, um convite para sentir a força, a fé e a alegria de uma cultura que dança e canta sua história com orgulho e resiliência!


Selo Brasis em Traços de Lu Paternostro

A série "Brasis em Traços" é uma coleção de ilustrações autorais da artista brasileira Lu Paternostro, focada na representação da cultura típica, tradicional e imaterial do Brasil. Com estilo colorido e detalhado, a série retrata festas, danças, tipos populares, lendas e a diversidade étnica brasileira, baseada em vasta pesquisa sobre o folclore e a identidade nacional.


Uma pequena lembrança para você:

Cada festa, folguedo, dança ou manifestação genuína de um povo não é algo fixo — é um organismo vivo, enraizado em um território e em constante transformação. Tudo é fluxo. Tudo é vivo, dinâmico. Como um rio, que corre sem nunca se deixar apreender por inteiro: não se captura um instante sem que ele já tenha se transformado.

É justamente aí que reside sua maior riqueza — nesse movimento contínuo, que existe no tempo e no corpo dos brincantes, despertando uma alegria difícil de nomear, mas impossível de não sentir.

Esta é apenas uma breve introdução ao tema, acompanhada de desenhos que buscam revelar um fragmento desse movimento.
Lu Paternostro

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NOTA LEGAL: Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização expressa dos autoresos autores

Jongo. Manifestações da Cultura Tradicional Brasileira. Série Brasis em Traços

Dança de roda com tambores sagrados, pontos enigmáticos e umbigadas que convidam à roda. Ritmo ancestral banto, considerado um dos “avós” do samba e guardião da memória dos cativeiros.

Ilustração "Jongo", da série "Manifestações da Cultura Brasileira. 
 Copyright Lu Paternostro. Proibida cópia, uso ou reprodução desta imagem sem a autorização da artista.
Ilustração "Jongo", da série "Manifestações da Cultura Brasileira.
Proibida cópia, uso ou reprodução desta imagem sem a autorização da artista.

Quando a noite descia,
ao som da Ave-Maria,
um som de tambor se ouvia.
Dentro de uma senzala, 
em um caminho pra Minas,
vozes de jongueiros se ouviam.

Na Fazenda da Bem Posta, em pleno Estado do Rio,
um jongueiro sentindo falta do caxambu,
tocava o candongueiro, após o angú.

Cantarolava a saracura,
levou o lenço da moça 
que ficou chorando, 
que pecado que ela leva quando morrer....

Saracura
Jongo de Serrinha

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Jongo: A Voz Ancestral que Pulsa nos Tambores e Ginga na Roda do Sudeste!

“Tava dormindo quando Quingoma me chamou Tava dormindo, Quingoma me chamou Levanta, nego, cativeiro se acabou Levanta, nego, cativeiro se acabou!” – Ponto de Jongo

Prepare-se para sentir a força da ancestralidade e a batida que ecoa a liberdade!

Jongo, também conhecido como tambu, batuque, tambor ou caxambu, é uma das mais profundas e emocionantes manifestações da cultura afro-brasileira.

Considerado um dos ritmos precursores do samba, o Jongo é uma forma de reverência e louvação aos antepassados, lembrando profundamente de suas raízes negras e exaltando suas histórias em suas canções.

A Origem no Cativeiro e a Voz da Resistência

O Jongo foi trazido para o Brasil pelos escravos angolanos, sendo uma expressão rítmica da mesma família do tambor de crioula, do samba de roda e do coco. Ele integra a percussão de tambores, as danças coletivas em roda, o bater das palmas e a umbigada – elementos comuns a essas danças de matriz africana.

Consolidou-se entre os escravos nas lavouras de café e cana-de-açúcar do Vale do Paraíba, no Sudeste brasileiro. Nos tempos da escravidão, o Jongo era uma forma de comunicação secreta e resistência. A poesia metafórica dos "pontos" (cantigas) permitia que os praticantes da dança se comunicassem por meio de enigmas que os capatazes e senhores não compreendiam . Era nos quintais das senzalas, à noite, que eles cantavam seus pontos de reclamação, de dor e de amor, encontrando força e consolo na comunidade.

Patrimônio Imaterial: Um Legado de Luta e Cultura!

A importância histórica e cultural do Jongo foi oficialmente reconhecida: o Jongo do Sudeste foi inscrito no Livro de Registro das Formas de Expressão como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo IPHAN em dezembro de 2005. Este reconhecimento celebra a relevância dessa expressão para a formação da multifacetada identidade cultural brasileira.

Patrimônio Imaterial são as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas que uma comunidade reconhece como parte de sua herança cultural. O Jongo é um exemplo potente de como a dança, o canto, a fé e a memória moldam a identidade de um povo e se tornam um legado de luta e resistência para o país.

A Roda do Jongo: Onde a Magia Acontece

O Jongo é praticado nos quintais das casas de periferias urbanas e de comunidades rurais do Sudeste brasileiro, em estados como Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. A dança e o canto acontecem em uma roda, onde a energia flui e a comunidade se conecta:

  • A Roda: Os dançarinos e cantadores formam um círculo, batendo palmas e respondendo ao solista.
  • O Solo e o Coro: Um dançarino faz o solo, cantando um "ponto" (cantiga), e os outros respondem em coro, criando um diálogo musical.
  • A Umbigada: Sozinhos ou em pares, os dançarinos vão até o centro da roda e dançam até serem substituídos por outro par, muitas vezes através da umbigada – um toque de umbigo que simboliza a transmissão de energia e o convite para entrar na dança.
  • A Dança Livre: Os praticantes dançam como sabem dançar: pulando, arrastando os pés, devagar ou mais rápido e solto. O passo masculino e feminino, embora com a mesma base, é executado com delicadeza pelas mulheres e com mais vigor pelos homens.



Música e Instrumentos: A Batida Sagrada dos Tambores

Para os jongueiros, os tambores são sagrados, pois fazem a conexão com as entidades do mundo espiritual. Seus guardiões são os líderes das próprias comunidades jongueiras. Os instrumentos musicais podem ser diferentes de um grupo para outro, mas o mais comum é terem dois ou três tambores. Em algumas comunidades, pode-se encontrar o chamado tambor de fricção, um tipo de cuíca em formato maior.

  • Os Pontos: O "ponto" é um dos elementos mais marcantes do Jongo, onde a palavra cantada assume características únicas. São cantigas que narram histórias, expressam sentimentos, transmitem ensinamentos e, antigamente, serviam como mensagens codificadas.
  • A Força do Tambor: Como ensinava o Mestre Darc, da Serrinha (RJ): "A gente tem que introjetar o tambor para depois tocar. Tambor é coração" .

Sincretismo e Fé: Jongo e o Catolicismo Afro-Brasileiro

Embora não sejam liturgias, os jongos estão associados ao catolicismo afro-brasileiro, em especial ao culto de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário. As festas desses santos são momentos importantes para a prática do Jongo, onde a fé católica se mescla com as tradições africanas, em um belo exemplo de sincretismo.

A Comunidade: Guardiões de uma Tradição Viva

O Jongo é uma tradição que se mantém viva graças à dedicação de mestres e comunidades inteiras. Mestre Darc, da Serrinha, no Rio de Janeiro, é um exemplo de quem ensinou e divulgou o Jongo, uma linha que vem de sua mãe, Dona Maria Joana, e que continua sendo transmitida para as novas gerações .

O inventário Nacional de Referências Culturais pesquisou diversas comunidades jongueiras em atividade, identificando grupos em Madureira (RJ), Valença (RJ), Angra dos Reis (RJ), Guaratinguetá (SP), São José dos Campos (SP), Lagoinha (SP), Conceição da Barra (ES), Linhares (ES), Cachoeiro de Itapemirim (ES), São Mateus (ES), entre outras.

Por que o Jongo é tão importante?

Porque ele é:

  • Precursor do Samba: Um dos ritmos que pavimentou o caminho para o samba, a maior expressão musical do Brasil.
  • Memória Viva: Um elo direto com a história dos escravos angolanos e sua luta por liberdade e dignidade.
  • Resistência Cultural: Uma forma de preservar a herança africana, resistindo à opressão e à invisibilidade.
  • Arte Total: Uma fusão de dança, música, canto e poesia em um espetáculo de profunda emoção.
  • Comunidade e Fé: Fortalece os laços sociais, transmite saberes e mantém viva a identidade do povo afro-brasileiro.

O Jongo é a batida do coração da África que pulsa no Sudeste brasileiro, um convite para sentir a força, a fé e a memória de uma cultura que dança e canta sua história com orgulho e resiliência!


Selo Brasis em Traços de Lu Paternostro

A série "Brasis em Traços" é uma coleção de ilustrações autorais da artista brasileira Lu Paternostro, focada na representação da cultura típica, tradicional e imaterial do Brasil. Com estilo colorido e detalhado, a série retrata festas, danças, tipos populares, lendas e a diversidade étnica brasileira, baseada em vasta pesquisa sobre o folclore e a identidade nacional.


Uma pequena lembrança para você:

Cada festa, folguedo, dança ou manifestação genuína de um povo não é algo fixo — é um organismo vivo, enraizado em um território e em constante transformação. Tudo é fluxo. Tudo é vivo, dinâmico. Como um rio, que corre sem nunca se deixar apreender por inteiro: não se captura um instante sem que ele já tenha se transformado.

É justamente aí que reside sua maior riqueza — nesse movimento contínuo, que existe no tempo e no corpo dos brincantes, despertando uma alegria difícil de nomear, mas impossível de não sentir.

Esta é apenas uma breve introdução ao tema, acompanhada de desenhos que buscam revelar um fragmento desse movimento.
Lu Paternostro

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NOTA LEGAL: Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização expressa dos autores


Frevo. Manifestações da Cultura Tradicional Brasileira. Série Brasis em Traços

Explosão de cores, passos acrobáticos e sombrinhas vibrantes que transformam Recife e Olinda em um grande redemoinho de alegria. Um ritmo urbano, irreverente e virtuoso que é símbolo maior do Carnaval pernambucano.

Ilustração "Frevo", da série "Manifestações da Cultura Brasileira. 
 Copyright Lu Paternostro. Proibida cópia, uso ou reprodução desta imagem sem a autorização da artista.
Ilustração "Frevo", da série "Manifestações da Cultura Brasileira.
Proibida cópia, uso ou reprodução desta imagem sem a autorização da artista.

Lua tão linda, lua, lua, lua de Olinda
O sol abraça Recife tá chegando o carnaval, lua, lua linda

Lua nova que vi e fiquei sem dormir quando lembrei dos olhos dela
Sob os raios de ouro e as estrelas de prata vi teu corpo moreno tremendo de amor
Lembrei do Marco Zero onde ganhei a gata e da gente se amando no escurinho da praça
Mergulhei no meu sonho real fantasia quando o sol despertava e a lua dormia

Lembrei do Marco Zero onde ganhei a gata e da gente se amando no escurinho da praça
Mergulhei no meu sonho real fantasia quando o sol despertava e a lua dormia

Lua tão linda, lua, lua, lua de Olinda
O sol abraça Recife tá chegando o carnaval, lua, lua linda...

Frevo da Lua
Composição de Alceu Valença, Maurício
Oliveira e Gabriel Moura

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Frevo: A Explosão de Alegria que Faz Pernambuco Dançar!

Prepare-se para sentir a efervescência, a agitação e o rebuliço de um dos ritmos mais vibrantes do Brasil: o Frevo!

Nascido no carnaval de Pernambuco, no final do século XIX, ele se enraizou nas cidades de Recife e Olinda, tornando-se um símbolo de alegria, resistência e pura energia.

Com mais de um século de existência, o Frevo é um dos pilares do carnaval brasileiro, uma das mais significativas manifestações culturais do país.

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A Origem Fervilhante: Onde o Frevo Nasceu

O Frevo é um gênero musical urbano, extremamente acelerado, que tem características de competição desde sua origem. Ele surgiu em um momento de profundas transformações sociais e políticas em Pernambuco, na virada do século XIX para o século XX.

Para estudiosos como José Ramos Tinhorão, o Frevo é criação de músicos brancos e mulatos, muitos deles instrumentistas de bandas militares, tocadores de marchas e dobrados, ou componentes de grupos especialistas em música de dança da época, como polcas, tangos e maxixes.

O bairro de São José, nas áreas próximas ao porto de Recife, é considerado o berço do Frevo de Rua. Ali, as bandas militares e suas rivalidades, junto com os escravos recém libertados e capoeiristas, iam para as ruas em um momento em que as classes populares conquistavam seu espaço nas cidades.

Surgido das classes menos favorecidas da sociedade, o Frevo foi, a princípio, renegado pela elite. Mas sua energia estimulante e a alegria permanente logo seduziram todas as esferas da população.

Frevo: O Nome que Explode em Significado

O nome "Frevo" vem de "ferver", um ritmo que causa efervescência, agitação, rebuliço e uma aura de muita vivacidade aos seus participantes. É a "chaleira que ferve", indicando que a cidade vai ferver para brincar, e não para brigar!

Patrimônio Imaterial: Um Tesouro de Pernambuco para o Mundo!

O Frevo é uma manifestação cultural tão rica e importante que foi reconhecida nacional e internacionalmente:

  • Em fevereiro de 2007, o Frevo foi inscrito no Livro dos Registros de Bens Imateriais do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), na categoria “Formas de Expressão”. Carmem Lélis, diretora da Casa do Carnaval e importante especialista em Frevo, foi uma das responsáveis pelo dossiê que levou a esse reconhecimento.
  • Em 2012, a UNESCO reconheceu o Frevo como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.

Patrimônio Imaterial são as tradições vivas, as expressões, os conhecimentos e as práticas que uma comunidade reconhece como parte de sua herança cultural. O Frevo, com sua música, dança, história e a paixão de seus brincantes, é um exemplo vibrante de como a criatividade e a alegria são transmitidas de geração em geração, moldando a identidade de um povo.

Os Três Tipos de Frevo: Uma Dança de Emoções

Do repertório variado e eclético dessa música ligeira, feita para o carnaval, nasceram os três tipos de Frevo:

  1. Frevo-de-Rua: Não possui letras, feito unicamente para ser dançado. É o "Frevo Rasgado", onde você vai para a rua para extravasar, sem precisar saber passos complexos.
  2. Frevo-de-Bloco: Possivelmente vindo de serenatas feitas por grupos de rapazes munidos de violões, banjos, cavaquinhos e clarinetes. Atualmente, as mulheres também participam, e ele é mais lírico, com um coral feminino e uma orquestra de pau e cordas (com violinos, violões, banjos e pandeiros, e pouco metal).
  3. Frevo-Canção (ou Marcha-Canção): Possui letras e se parece muito com as marchinhas de carnaval, com uma melodia mais cantada.



A Dança do Frevo: Mais de 100 Passos de Pura Agilidade!

A dança do Frevo, conhecida como "passo", é uma das suas maiores riquezas. Com mais de 100 tipos de passos catalogados, ela é um jogo de braços e pernas que exige flexibilidade, agilidade e a destreza de um acrobata.

  • Origem Capoeirista: Os primeiros passos são atribuídos à ginga dos capoeiristas, que defendiam os blocos e contribuíram na criação dos movimentos. A presença negra no Brasil, que era de luta, passa a ser de alegria e dança no Frevo.
  • Nomes Criativos: Os nomes dos passos fazem referência ao mundo do trabalho e às profissões dos participantes, como "parafuso", "dobradiça", "locomotiva", "ferrolho", "tesoura", "pontilhado", "ponta de pé", "calcanhar", "Saci-Pererê" e "pernada" (com movimentos fortes da capoeira).
  • Influências Globais: Além das raízes locais, o Frevo absorveu influências de outras culturas. Da dança eslava vieram os famosos saltos conhecidos como "carpados", e até musicais americanos inspiraram passos como o "passeio na pracinha".

O Frevo pode ser dançado de duas formas: uma com passos complexos e acrobáticos, e outra, mais livre, onde o povo simplesmente se entrega à alegria e participa, sem regras rígidas. Como dizem: "Você pode dançar com os braços, o dedo para cima… qualquer passo que você queira, não precisa ser um bailarino especial para dançar o Frevo!"

A Sombrinha: De Arma de Defesa a Símbolo de Alegria

sombrinha colorida é parte do tradicional adereço dos dançarinos e um dos principais símbolos do carnaval pernambucano. Mas sua história é fascinante!

  • Origem como Arma: No início do Frevo, a capoeira era proibida no Brasil. As sombrinhas teriam sido usadas como armas de defesa pelos capoeiristas que protegiam os blocos. Eram guarda-chuvas pretos, velhos e esfarrapados, ou apenas a armação, usados para furar em caso de conflito.
  • Transformação: Com o tempo, o guarda-chuva foi se modificando, se colorindo, diminuindo e fazendo parte da alegoria da festa, tornando-se um ornamento vibrante que exalta os movimentos dos dançarinos.

Indumentária: Cores que Exaltam o Movimento

A vestimenta característica do Frevo é um espetáculo à parte, com roupas de um colorido vivo e muito brilho, que exaltam os movimentos e se destacam aos olhos dos espectadores:

  • Homens: Camisas mais curtas, justas ou amarradas na cintura, e calças bem apertadas, variando entre abaixo do joelho e acima do tornozelo.
  • Mulheres: Saias curtíssimas ou fitas que caem como saias, shorts curtos por baixo e corpetes ou blusas curtas.

A Orquestra do Frevo: A Batida que Contagia

A música é a alma do Frevo, e as orquestras são o coração dessa batida frenética. Elas são compostas principalmente por instrumentos de metal, que dão a sonoridade potente e inconfundível do Frevo de Rua:

  • Trompetes, Trombones e Saxofones: Os metais são a espinha dorsal da melodia e da harmonia, com suas notas agudas e vibrantes.
  • Tubas e Bombardinos: Dão a base e a profundidade sonora.
  • Percussão: Caixas, surdos e outros tambores garantem o ritmo acelerado e contagiante.

No Frevo de Bloco, a orquestra de pau e cordas traz violões, banjos, cavaquinhos, violinos e pandeiros, criando uma sonoridade mais lírica e melódica.

A Comunidade do Frevo: Guardiões de uma Tradição Viva

Por trás de cada passo, cada nota e cada sombrinha colorida, há uma comunidade de artistas, dançarinos, músicos e professores que dedicam suas vidas ao Frevo. Grupos como os Guerreiros do Passo, que dão aulas de danças pernambucanas para a comunidade desde 2006, e a Companhia Trapiá de Dança, que faz do Frevo um espetáculo teatral com muita dança e música, são exemplos vivos dessa paixão.

Ver uma criança como João Lucas, de apenas 8 anos, com "muito Frevo no pé", é a certeza de que essa manifestação cultural jamais morrerá. O Frevo está umbilicalmente ligado ao povo pernambucano; pensar em um é lembrar do outro.

Por que o Frevo é tão grandioso?

Porque ele é:

  • Ritmo: Que incendeia a alma e faz o corpo vibrar.
  • Dança: Que expressa a liberdade, a agilidade e a criatividade.
  • História: Que conta a luta e a resistência de um povo.
  • Arte: Nas músicas, nos passos, nas fantasias e na sombrinha.
  • Patrimônio: Que nos lembra da importância de preservar a cultura democrática e libertadora de Pernambuco.

O Frevo é a quentura, a brasa no pé, a vontade de explodir em alegria que faz de Pernambuco o centro da cultura brasileira!


Selo Brasis em Traços de Lu Paternostro

A série "Brasis em Traços" é uma coleção de ilustrações autorais da artista brasileira Lu Paternostro, focada na representação da cultura típica, tradicional e imaterial do Brasil. Com estilo colorido e detalhado, a série retrata festas, danças, tipos populares, lendas e a diversidade étnica brasileira, baseada em vasta pesquisa sobre o folclore e a identidade nacional.


Uma pequena lembrança para você:

Cada festa, folguedo, dança ou manifestação genuína de um povo não é algo fixo — é um organismo vivo, enraizado em um território e em constante transformação. Tudo é fluxo. Tudo é vivo, dinâmico. Como um rio, que corre sem nunca se deixar apreender por inteiro: não se captura um instante sem que ele já tenha se transformado.

É justamente aí que reside sua maior riqueza — nesse movimento contínuo, que existe no tempo e no corpo dos brincantes, despertando uma alegria difícil de nomear, mas impossível de não sentir.

Esta é apenas uma breve introdução ao tema, acompanhada de desenhos que buscam revelar um fragmento desse movimento.
Lu Paternostro

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