Ilustração "O Gaúcho e a Prenda", da série "Tradições Gaúchas". Copyright Lu Paternostro. Proibida cópia, uso ou reprodução desta imagem sem a autorização da artista.
No humilde rancho de um posto, um moço encilhou o cavalo beijou a prenda e se foi. (...) E durante largo tempo ficou a moça na porta olhando a estrada a chorar, sem saber por que o marido tem que partir e lutar. (...) Então a moça franzina tomou uma decisão: esqueceu delicadeza, ternuras de quase noiva e atou os cabelos negros debaixo de um chapelão e se atirou no trabalho, cuidando de casa e campo, de gado e da plantação.(...) E a moça voltava ao rancho, tão moça ainda e tão só! E quando fitava a estrada, só via o vazio do nada, o nada, o silêncio e o pó.(...) Bendita mulher gaúcha que sabe amar e querer! Esposa e mãe, noiva e amante que espera o guasca distante e acaba por compreender que a vida é um poço de mágoa onde cada pingo d'água só faz sofrer e sofrer. Parte do poema “Mulher Gaúcha” de Antonio Augusto Fagundes O progresso me dá liberdade de compor versos estilizados Me proponho a cantar as raízes e as relíquias dos antepassados Tradição para o leigo é grossura a cultura enriquece o estado Só me resta dizer aos amigos o Rio Grande vai bem obrigado
“Mulher Gaúcha” Parte do poema de Antonio Augusto Fagundes
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O Gaúcho e a Prenda
Os gaúchos, também chamados de peão, são descendentes da mistura de europeus com índios. O nome é dado às pessoas que são naturais do Sul do Brasil e vale do Rio da Prata, num bioma chamado de pampas, geralmente ligado à atividade pecuárias destas regiões. No Uruguai e Argentina tem a nominação de gaúcho, com a sílaba forte no “ga”.
Mesmo com influências europeias como
portuguesas e espanholas, miscigenado aos índios, o gaúcho foi criando uma
cultura própria, regional.
Apreciam se apresentar como grandes
cavaleiros e seu cavalo crioulo, o cavalo do gaúcho, era tudo na vida dele.
Eram homens bravos, destemidos.
A vestimenta típica do gaúcho é
repleta de itens da indumentária indígena, como o poncho, o lenço colorado, a
pala, um tipo de poncho grande, e o chiripa, este último presente na vestimenta
do gaúcho até meados do século XIX, sendo posteriormente substituídos pelas
bombachas.
Já a prenda, a mulher gaúcha, é representada
como um tipo ideal de mulher. A mulher do tradicionalismo gaúcho é uma grande
conhecedora dos costumes e da tradição. Mulher forte, que não foge ao dever,
sua forma de vestir é simples, recatada, mas muito bem cuidada. Sua imagem
impõe respeito. “Foi construída historicamente uma memória gaúcha na qual a
prenda é a representação da figura da mulher que o tradicionalismo escolheu
para cultuar. (LUVIZOTTO, 2010).
Ensina-se às meninas gaúchas a
tradição de que uma mulher gaúcha deve ser o protótipo de dignidade e respeito.
Devido a essa importância, foram criadas leis estaduais a fim de manter as
tradições gaúchas, onde são definidas a forma de se vestir da mulher gaúcha.
A tradicional pilcha feminina, que
tem por objetivo valorizar as qualidades da prenda, é formada pelo vestido de
prenda, saia de armação, sapatilha e flor no cabelo, sendo o vestido
apresentado como a “síntese da sobriedade da mulher gaúcha”.
A bombacha, a calça larga e típica da
roupa do gaúcho, representa a imagem do homem dos pampas, tornando-se marca
exclusiva de sua identidade. A sua mulher, a prenda, sempre deixou evidente sua
preocupação em estar bem vestida para tornar-se bela e ser admirada com o seu
par eterno e arquetípica companheira
Abaixo, transcrevemos o trecho
referente à vestimenta da prenda, do “Manual das Pilchas gaúchas”, adotado pelo
Movimento Tradicionalista Gaúcho do Rio Grande do Sul, da lei 8.813 de 10 de
janeiro de 1989
Indumentária da Prenda Atual para Moças e Senhoras:
Vestido, saia e casaquinho, de uma ou duas peças, com a barra da saia no peito do pé, podendo ser godê, meio-godê, em panos, em babados ou evasês, com cortes na cintura, caderão ou corte princesa, atentando para a idade e estrutura física.
AS MANGAS:
Longas, três quartos ou até o cotovelo; podendo ser lisas ou levemente franzidas (não bufantes), com aplicações de fitas, bordados, babadinhos ou similares, sem exagero, no máximo duas aplicações.
O DECOTE:
Geralmente sem decote. Admite-se, no máximo, um leve decote, com ou sem gola, sem expor os ombros e o seio, sem contrastar com o recato da mulher gaúcha.
AS GOLAS:
Se usadas, podem ser arredondadas, sobrepostas, tipo paletó, padre, com ou sem detalhes, sem exageros.
Podem ser rendas, apliques, bordados, passa-fitas, gregas, fitilhos, fitas, viés, babadinhos lisos ou estampados miúdos, plissês, crochês, botõezinhos forrados, nervuras ou favos. Não sobrecarregar a fim de evitar a desfiguração dos modelos. A decoração com tecidos aplicados ou trabalhados com fitas que formam pontas de lanças e ondas devem ser evitados, optando-se pelos motivos florais, os quais compõem a tradição gaúcha.
OS TECIDOS:
Podem ser lisos, estampados miúdos, xadrez miúdo, petit-pois, riscado discreto, de acordo com as estações climáticas. Não são permitidos apenas os tecidos transparentes sem forro, slinck e similares, tecidos brilhosos (lamê, lurex e outros para uso à noite em festas não-tradicionais) e tecidos em cores contrastantes, chocantes ou fosforescentes.
A SAIA DE ARMAÇÃO:
Deve ser discreta e leve, na cor branca. Se tiver babados, estes devem concentrar-se no rodado da saia, diferentemente da indumentária típica baiana.
AS CORES:
De acordo com a sincronia das cores e a relação com a idade e o momento do uso. Evitar as cores contrastantes, chocantes e fosforescentes, assim como o preto (luto); a cor branca fica convencionada para uso das noivas e debutantes. Não usar combinações com as cores da bandeira do Rio Grande do Sul.
A BOMBACHINHA:
Branca de tecido leve ou rendada, deve cobrir os joelhos.
AS MEIAS:
Devem ser longas, brancas ou beges, para moças e senhoras. As mais maduras podem usar meias de tonalidades escuras.
OS SAPATOS:
Pretos, brancos ou beges; podem ter salto 5 (cinco) ou meio salto com tira sobre o peito do pé, que abotoe do lado de fora.
OS CABELOS:
Devem estar semi presos, presos ou em tranças, enfeitados com flores discretas que podem ser naturais ou artificiais, sem brilhos e purpurinas, combinando com o vestido. As senhoras mais jovens, eventualmente, podem usar travessas simples ou com flores discretas e passadores nos cabelos que poderão estar semipresos em coques ou penteados curtos. Fica facultado o não uso de enfeites nos cabelos das senhoras em respeito à idade ou ao gosto pessoal.
Discretas e de acordo com a idade e o momento social.
OS ACESSÓRIOS PERMITIDOS:
Fichú de seda com franjas ou de crochê, preso com broche ou camafeu. Chale (especialmente para as senhoras). Brincos (jóia ou semi-jóia) discretos. Um ou dois anéis (jóia ou semi-jóia). Camafeu ou broche. Capa de lã ou seda. Leque (senhoras ou senhoritas) em momentos não coreográficos. Faixa de prenda ou crachá. Chapéu (feminino) em ambientes abertos.
ACESSÓRIOS NÃO PERMITIDOS:
Brincos de plásticos ou similares coloridos. Relógio e pulseiras. Luvas ou meia-luva de renda, crochê ou tecido (ressalva-se no uso do traje (histórico urbano). Colares. Sombras e batons coloridos em excesso, uso de cílios postiços, unhas pintadas em cores não convencionais (verde, azul, amarelo, prata, preto, roxo, etc.) Sapatilhas do tipo ballet, amarradas na perna. Saias de armação com estruturas rígidas em arame, barbatanas e telas de nylon. Recomendações sobre o uso da indumentária da prenda em diferentes ocasiões
Os trajes ainda pode ser para as Ocasiões Formais, Informais e uso para cavalgar em festas campeiras e rodeios.
Ilustração "Gaúcho Pilchado", da série "Tradições Gaúchas". Copyright Lu Paternostro. Proibida cópia, uso ou reprodução desta imagem sem a autorização da artista.
EU
TENHO ORGULHO DE TER NASCIDO GAÚCHO
DE ANDAR PILCHADO E DE TOCAR MEU VIOLÃO
DE TER A PRENDA MAIS PRENDADA DO RIO GRANDE
E A PIAZADA QUE RESPEITA A TRADIÇÃO
UM BOM CAVALO, UM VELHO CUSCO COMPANHEIRO
QUE É MEU PARCEIRO EM QUALQUER OCASIÃO
TENHO SAÚDE E MUITA FORÇA PRA O TRABALHO
E O MEU TRÊS LISTA PRA UM CAUSO DE PRECISÃO
SOU RIOGRANDENSE, SOU BRASILEIRO
GUARDO AS FRONTEIRAS DO MEU PAÍS
SOU QUERO-QUERO, SENTINELA DO PAMPA
SOU ALMA QUE CANTA, SOU BEM FELIZ
VERDE, VERMELHO E O AMARELO DA BANDEIRA
LEMBRAM AS MATAS, NOSSO SANGUE E O TRIGAL
NOSSAS RIQUEZAS, NOSSO POVO, NOSSA GENTE
E UM PASSADO DE GRANDEZA SEM IGUAL
QUANDO UM GAÚCHO ESTENDE A MÃO AO COMPANHEIRO
UM CHIMARRÃO DEMONSTRA A HOSPITALIDADE
UM BOM CHURRASCO LOGO VEM ACOMPANHADO
DE UM FORTE ABRAÇO PRA PONTEAR NOVA AMIZADE
“Orgulho de Gaúcho” Grupo Quero-Quero- Compositor: Roberto Kopp
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Gaúcho Pilchado
A forma típica de se vestir do gaúcho é entendida como muito importante para a cultura sulina, pois preserva sua história com orgulho, passando através das gerações, a força das tradições e o orgulho de ser gaúcho.
Há regras fixas, que devem ser
seguidas com muito respeito, tanto para a vestimenta do gaúcho, como a da
“prenda”, a mulher gaúcha.
A pilcha, de acordo com o Dicionário
de Regionalismos, é “adorno, joia, dinheiro. Roupas, arreios, qualquer objeto
de valor. Vestimenta típica de gaúcho” (NUNES; NUNES, 1948, p. 373). No
dicionário Houaiss, significa “objeto de adorno, adereço, enfeite” e, ainda,
uma “peça de vestuário, especialmente o poncho, a bombacha, as botas e o
chiripá” (HOUAISS; VILLAR, 2009, p. 2210).
Para defini-la, foi criada a Lei
Estadual de nº 8.813, de 10 de janeiro de 1989, que oficializa o traje de honra
e de uso preferencial no estado do Rio Grande do Sul, tanto para os homens como
para as mulheres. O Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG) e os Centros de
Tradições Gaúchas (CTG), um dos maiores movimentos de cultura popular,
organizado e centralizado do Brasil, é o órgão que preserva a cultura gaúcha em
todas as partes do Brasil, define as regras de uso dos componentes da
vestimenta, a fim de disciplinar e orientar as prendas e os peões a se vestirem
adequadamente em várias ocasiões.
A origem do Gaúcho Pilchado vem da
colonização dos pampas pelos povos ibéricos, e é resultado da união de
influências históricas, sociais e culturais que foram se adequando à realidade
do trabalho no campo.
O MTG define três tipos de
vestimentas que devem ser usadas tanto pelos homens como pelas mulheres que são
a pilcha para atividades artísticas e sociais, a pilcha campeira e a pilcha
para a prática de esportes (truco, bocha campeira, etc)
O gaúcho tem orgulho e muito respeito
pelas suas batalhas, sua hombridade, sua mistura de raças fortes, por suas
tradições. Por conta disso, independentemente de suas crenças particulares,
seguir as regras é demonstrar-se consciente e respeitoso de sua história,
tornando-se ator da preservação de um patrimônio cultural único, legado que
tende a se esfacelar numa cultura em constante mudança, globalizada, que perde
facilmente suas raízes.
O “Gaúcho Pilchado”
Aqui transcreveremos o texto, na
íntegra, de orientação para a vestimenta do Gaúcho ou Peão Pilchado, segundo as
Diretrizes para a Pilcha Gaúcha, estabelecida pelo Movimento Tradicionalista
Gaúcho.
DIRETRIZES PARA OS TRAJE ATUAL PEÃO
ADULTO, VETERANO E JUVENIL
A BOMBACHA
Tecidos: brim (não jeans), sarja (lã), linho, algodão, oxford, microfibra Cores: claras ou escuras, sóbrias ou neutras, tais como marrom, bege, cinza, azul-marinho, verde escuro, branca. Fugindo as cores agressivas, fosforescentes, contrastantes e cítricas, como vermelho, amarelo, laranja, verde-limão, cor-de-rosa. Padrão: liso, listradinho e xadrez miúdo e discreto. Modelo: cós largo sem alças, dois bolsos na lateral, com punho abotoado no tornozelo. Favos: O uso de favos e enfeites de botões (devem ser do tamanho daqueles utilizados nas camisas, vedados os de metal) depende da tradição regional. As bombachas podem ter, nos favos, letras, marcas e botões. Quando usar favos, deverão ser da mesma cor e tecido da bombacha. Os desenhos serão idênticos em uma e outra perna. Largura: com ou sem favos, coincidindo a largura da perna com a largura da cintura, ou seja, uma pessoa que use sua bombachas no tamanho 40, automaticamente deverá ter, aproximadamente, uma largura de cada perna de 40 cm de tal forma que não seja confundida com uma calça. Uso: As bombachas deverão estar sempre para dentro das botas. Vedações: É vedado o uso de bombachas plissadas e coloridas
A CAMISA
Tecido: preferencialmente algodão, tricoline, viscose, linho ou vigela, microfibra (não transparente), oxford. Padrão: liso ou riscado discreto. Cores: sóbrias, claras ou neutras, preferencialmente branca. Evitando cores agressivas e contrastantes. Gola: social (ou seja, abotoada na frente, em toda a extensão, com gola atual, com punho ajustado com um ou mais botões). Mangas longas: para ocasiões sociais ou formais, como festividades, cerimônias, fandangos, concursos. Mangas curtas: para atividades de serviço, de lazer e situações informais. Camiseta de malha ou camisa de gola polo: exclusivamente para situações informais e não representativas. Porém, podem ser usadas com distintivo da Entidade, da Região Tradicionalista e do MTG. Vedações: Vedado o uso de camisas de cetim e estampadas.
AS BOTAS
Material: de couro liso Cores: preto, marrom (todos os tons) ou couro sem tingimento. Cano:a altura do cano varia de acordo com a região. Normalmente o cano vai até o joelho. Solado: o solado deve ser de couro, podendo ter meia sola de borracha ou látex. A altura máxima de um centímetro (entra em vigor em 1º de janeiro de 2012). Botas “garrão de potro”: são utilizadas exclusivamente com trajes de época. Vedações: é vedado o uso de botas brancas. Proibidos quaisquer tipos de bordados ou palavras escritas nas botas.
O COLETE
Uso: se usar paletó poderá dispensar o colete. Modelo: tradicional, sem mangas e sem gola, com uma única carreira de botões na frente, podendo ser abotoado, ou não. Com a parte posterior (costas) de tecido leve, ajustado com fivela, de uma cor só, no comprimento até a altura da cintura. Cor: da mesma cor das bombachas, podendo ser tom sobre tom. Tecido: mesmo padrão de tecido da bombacha.
O CINTO (OU GUAIACA)
Material: de couro. Guaiacas: de uma a três guaiacas internas ou não. Fivelas: uma ou duas fivelas frontais com, no mínimo, sete cm de largura. Florão: quando usado deve ter função de fivela. Vedação: Cinto com rastra (enfeite de metal com correntes na parte frontal).
O CHAPÉU
Material: de feltro ou pelo de lebre. Abas: a partir de 6 cm. Copa: de acordo com as características regionais. Barbicacho: de couro ou crina, podendo ter algum enfeite de metal e, ou fivela para regulagem. Vedação: é vedado o uso de boinas e bonés.
O PALETÓ
Uso: usado especialmente para ocasiões formais. Cor: A combinação de cor, com as bombachas, deve ser harmoniosa, evitando cores contrastantes. Vedações: é vedado o uso de túnicas militares substituindo o paletó.
O LENÇO
Cores: vermelho, branco, azul, verde, amarelo e carijó (nas cores citadas e ainda, marrom e cinza). Tamanho: no caso do uso com algum tipo de nó, com a medida de 25 cm a partir deste. Com o uso do passador de lenço, com a medida de 30 cm a partir deste. Passadores: de metal, couro ou osso.
A FAIXA
Uso: opcional. Cor: lisa, na cor vermelha ou preta de for de lã. Bege cru se for de algodão. Largura: de 10 a 12 cm.
A PALA
Uso: opcional. Tamanho: tamanho padrão, com abertura na gola. Dimensões aproximada 2m X 1,60m. Opções: poderá ser usado no ombro, meia-espalda, atado da direita para a esquerda, com todos os trajes.
AS ESPORAS
Uso: trata-se de peça utilizada nas lides campeiras. É admissível o uso nas representações coreográficas de danças tradicionais. Vedação: é vedado o uso em bailes e fandangos.
A FACA
Uso: é opcional, para grupos adultos, veteranos e no ENART, nas apresentações artísticas. Tamanho: de 15 a 30 cm de lâmina. Vedação: é vedado o uso nas atividades sociais, exceto apresentações artísticas.
Notas:O termo bombacha vem do espanhol “bombacho”, que significa calças largas.
“O lenço vermelho, fui incluído na pilcha pelos primeiros tradicionalistas na década de 1940, como uma homenagem aos gaúchos que lutaram na Revolução Farroupilha. É tratado com um símbolo de liberdade e coragem pelos tradicionalistas. ” (LUVIZOTTO,2010)
Por Lu Paternostro NOTA LEGAL: Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização expressa dos autores
Ilustração "Portugueses e o Vira", da série "Imigrantes do Brasil". Copyright Lu Paternostro. Proibida cópia, uso ou reprodução desta imagem sem a autorização da artista.
Portugueses
Os portugueses, depois dos
africanos, é o segundo grupo de imigrantes no Brasil.
Durante mais de três séculos de
colonização, deixaram várias heranças na cultura e costumes do país, sendo a
mais significativa a língua portuguesa e a formação do povo brasileiro.
Distribuídos por todo o
território, estão inteiramente integrados à sociedade brasileira.
Portugal, em sua história, teve um
momento de grande influência da cultura árabe, que mesclou vários aspectos de
sua cultura com a cultura portuguesa, e que foram sendo trazidos pelos colonizadores
para o Brasil. Exemplos da influência árabe são os algarismos arábicos usados
até hoje. O moinho d´água, a cultura do algodão, o bicho da seda, a laranjeira,
a cana de açúcar, a azulejo, a tela mourisca, a varanda, o “muxarabi”, o gosto
pelo açúcar, a doçaria, o pandeiro e outros aspectos da cultura
árabe-portuguesa no Brasil.
Inúmeras foram as heranças do
povo português, principalmente na cultura tradicional do Brasil como os
carnavais e entrudos, as festas juninas, cavalhadas, farras de boi, fandango,
reisado, pastoris, as rodas infantis, além de um dos nossos maiores patrimônios
imateriais: o bumba-meu-boi, uma dança dramática de origem lusitana, sendo hoje
uma das mais típicas do nosso país.
Quanto às danças, as mais conhecidas são o Vira, gênero musico-coreográfico típico do folclore português, mais característico da região do Minho; o Fandango; a Chula; o Corridinho; a Cana Verde, onde homens e mulheres executam animadas coreografias com muitas palmas, guitarras e acordeões, danças que refletem as tradições de namoro e galanteio, executadas com grande alegria e exuberância de seus trajes coloridos e festivos.
Temos ainda o pau de fitas ou
danças das fitas, onde um grupo de dançantes segurando fitas coloridas atadas a
um mastro, executam os movimentos coordenados e vão trançando e destrançando as
fitas ao redor do mastro, formando texturas típicas e efêmeras, criadas da
coreografia dos dançantes.
No folclore, os portugueses
introduziram personagens típicos como a Cuca, o Lobisomem, conhecido em vários
países da Europa, o Bicho Papão, a Mula-Sem-Cabeça, a história da Burrinha de Padre,
lendas e personagens que povoaram o imaginário infantil de tanta gente!
Outro aspecto importantíssimo
da influência portuguesa são os instrumentos musicais como o piano, a clarineta, o violino, o contrabaixo, o violoncelo, a viola, a
sanfona, o triângulo, e até o pandeiro. Todos os instrumentos musicais básicos
do choro brasileiro como o cavaquinho, a flauta e o violão, vieram também de
Portugal.
Na religião,
temos o culto ao Divino e a São Gonçalo de Amarante, grupos religiosos
das folias ou bandeiras, recomenda de almas e tantas outras que hoje são
tradições da cultura regional.
Já na
gastronomia, a feijoada, criada pelos escravos, seria uma adaptação dos cozidos
portugueses A jaca e a manga foram introduzidas pelos portugueses na colônia,
assim como o habito de se comer alimentos com bacalhau.
A doçaria
portuguesa tem um destaque a parte, e arrebatam nossa imaginação com seus nomes
tão “ilustrativos” como: Pastéis de Nata ou Belém, Santa Clara e Coimbra,
Toucinho do Céu, Pudim Abade de Priscos, Pinhoada, Fatias de Tomar, Barriga de
Freira, Dom Rodrigo, Aletria, Papo de Anjo, Ovos Moles de Aveiro, Bolinhos de
Chuva, Toureiros da Golegã, Tiborna, Pão de Ló e as Cavacas Portuguesas.
Outra curiosidade interessante é que, a forma de comercializar pequenos folhetos com textos que contam fatos do cotidiano, temas religiosos, lendas e histórias fantásticas, pendurados em cordões ou cordéis, a Literatura de Cordel, foram trazidos pelos portugueses para o Brasil, desde o início da colonização. Porém, na segunda metade do século XIX, começaram as impressões de folhetos brasileiros, com características próprias. No Brasil, a literatura de cordel é produção típica do Nordeste, sobretudo nos estados de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. Hoje, porém, podemos encontrá-la em feiras, casas de cultura e livrarias do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. Os portugueses se miscigenaram aos índios e negros, formando a diversidade tão típica do povo brasileiro.
O Vira
No desenho represento uma das mais conhecidas e tradicionais: o Vira, onde pode-se dançar aos pares ou apenas mulheres, sempre com as mãos para cima, provavelmente um gesto vindo do ternário da valsa tornando-se, segundo alguns autores, uma das mais antigas danças populares portuguesas. Chama-se Vira porque há uma "viragem" de corpos que é característica, fazendo com que a saia da mulher comece a forma um tipo de sino. "Ô Rosa, arredonda a saia", como se costuma cantar. Usualmente dança-se em duplas que ficam em rodas ou filas, com constante trocas de casais.
Na imagem insiro a Guitarra Portuguesa, o mais precioso símbolo dos instrumentos tradicionais portugueses. Podem ser também Guitarra do Porto, do Minho e de Coimbra. O pandeiro pode ou não ser utilizado, mas o usei porque enfeita bastante a imagem.
Além da guitarra, uma outra representação típica, é o Galo de Barcelos, um dos maiores ícones do turismo de Portugal. A lenda por trás do galo aumenta seu significado e importância para o povo português que o associa a virtudes, coisas positivas e sorte! Por isso é tão famoso, tão conhecido e até visto na fachada de igrejas seculares em Portugal.
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Por Lu Paternostro NOTA LEGAL: Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização expressa dos autores
No mundo são mais de 60 milhões de descendentes de italianos, dos quais a metade está no Brasil. Com 31 milhões de pessoas descendentes, o Brasil desponta como o maior país com raízes italianas no mundo. Esses imigrantes contribuíram e influenciaram em muito a formação da identidade brasileira.
Ilustração "Italianos e a Tarantela", da série "Imigrantes do Brasil". Copyright Lu Paternostro. Proibida cópia, uso ou reprodução desta imagem sem a autorização da artista.
Italianos
Os estados de São Paulo, Rio Grande do Sul e Minas Gerais foram os
principais destinos dos italianos. Chegaram e foram para o Rio Grande do Sul
trabalhar, nas terras altas. Nas cidades paulistas, trabalharam também em outras
atividades, principalmente como operários da construção e da indústria têxtil.
Na capital de São Paulo, bairros como Bixiga, Brás e Mooca são tradicionalmente
relacionados à colônia italiana.
Encontramos a influência do povo
italiano no Brasil em toda parte: na culinária, em personalidades, no modo de
falar (principalmente do paulistano), nas expressões, na música, na ciência e
nas artes sendo, as principais, as festas de igrejas, comilança de Natal, os
presépios, massas como macarronada e pizzas, os vinhos gaúchos, capelinhas, a
reza do terço, os cruzeiros de beira de estrada, as procissões, os ex-votos e
tantas outras. Um povo que tem como principal característica, o amor pelo
trabalho e pela família.
Ao chegarem no Brasil, se
instalaram em condições adversas, trabalhando principalmente na
agricultura. Lutavam para sobreviver e manter
suas tradições e costumes, como a forma de preparar seus alimentos, servir,
mantendo a diversidade e a fartura. Como vieram para o sul do Brasil, instalaram-se
em terras altas e muito frias, conservando a cultura de se comer pratos
tradicionais como a Fortaia, uma omelete forte feita com linguiça e outros
ingredientes, a galinha ao molho, animais de caça e caldos, dentre outros, para
aquecer do frio. Um exemplo deste período é a tradicional polenta, um prato
típico da Itália, feito com a farinha que vem do milho, plantado por eles.
Durante a saga dos primeiros
italianos no Brasil, estes nunca deixaram de festejar a boa colheita em festas
onde as famílias cantavam, jogavam, dançavam. Comia-se muito, sempre acompanhado
de um bom vinho, preparados especialmente para este dia.
No início se juntavam em
comunidades e depois em vilas tornando-se, posteriormente, cidades. Trouxeram
seus costumes católicos de construir capelas, rezarem juntos, lembrando sua
cultura, a tradição do seu país. Procuravam manter sua língua materna usando o
dialeto Talian, conhecido como veneto brasileiro, de origem no norte da Itália,
região do Veneto, hoje considerado patrimônio nacional, como “Referência
Cultural Brasileira”, pelo Ministério da Cultura, falado por cerca de 500 mil
pessoas, em 133 cidades brasileiras. Na
cidade e Serafina Correia, localizada no estado do Rio Grande do Sul, se tem o
talian como segunda língua.
Embora o início da imigração
italiana fosse quase que exclusivamente rural, com o passar do tempo muitos
começaram a se dirigir para as zonas urbanas, contribuindo para o
desenvolvimento do comercio e da indústria.
Em 1901, 90% dos operários de
fabricas eram italianos em São Paulo. Isso os fez protagonistas do
desenvolvimento das principais cidades do Brasil. Porém estes operários
ganhavam muito mal, o que os forçava a morarem amontoados em moradias chamadas
cortiços. Os bairros Brás, Mooca e Bixiga em São Paulo, que nasceram desta
época, estão ligados ao passado operário destes imigrantes. A maioria dos
primeiros grandes industriais de São Paulo vieram das colônias italianas.
Com o passar do tempo, o setor de
serviço das cidades brasileiras cresceu e muitos imigrantes italianos deixaram
as indústrias para trabalhar como artesãos autônomos, pequenos comerciantes,
motoristas de ônibus e táxi, vendedores de frutas e vegetais, sapateiros,
garçons. Também foram os italianos que
tiveram grande importância na formação dos primeiros sindicatos brasileiros – o
engajamento político dos italianos e espanhóis era notório fossem eles
comunistas, anarquistas ou socialistas.
Apenas seis estados brasileiros
concentraram a quase totalidade da imigração italiana no Brasil: São Paulo, Rio
Grande do Sul, Minas Gerais, Espírito Santo, Santa Catarina e Paraná.
O Estado de São Paulo, até
1920, havia recebido aproximadamente 70% dos imigrantes italianos que vieram
para o Brasil, atraídos pelas fazendas de café, vindos de diversas regiões da Itália.
Através dos chamados Núcleos
Coloniais, gerados pelas vendas de lotes para incentivar a fixação de
imigrantes em terras rurais, criaram-se centros de italianos, como na cidade de
São Caetano do Sul; o distrito de Quirim, a 1ª Colônia Italiana do Vale do
Paraíba, em Taubaté; Santa Olímpia e Santana na cidade de Piracicaba; núcleo
Barão de Jundiaí, na cidade de Jundiaí; Sabaúna na cidade de Mogi das Cruzes;
Piaguí, na cidade de Guaratinguetá; Cascalho, na cidade de Cordeirópolis;
Pariquera-Açú, na cidade de Pariquera-Açú; Antônio Prado, na cidade de Ribeirão
Preto; Pedrinhas Paulista, Canas, entre outros.
No Rio Grande do Sul, o
primeiro estado a receber imigrantes no Brasil, os imigrantes se instalaram nas
terras selvagens, das serras gaúchas. Neste local formou-se as três primeiras
colônias italianas, que deram origem às cidades de Garibaldi, Bento Gonçalves e
Caxias do Sul.
Antonio Prado é considerada a
mais italiana das cidades brasileiras e possui o maior acervo nacional de
arquitetura urbana em madeira proveniente dos imigrantes italianos que chegaram
à região em 1886, sendo considerada, pelo IPHAN - Instituto do Patrimônio Histórico
e Artístico Nacional, o Maior Acervo de Casas Tombadas pelo Patrimônio
Histórico Brasileiro. Na cidade, encontramos a Sopa Imperial, patrimônio
imaterial da gastronomia, que é composta de uma massa feita com ovos, queijo
ralado, farinha de trigo, assada e, posteriormente, cortada em pedacinhos, que
são cozidos em caldo de galinha.
Minas Gerais recebeu o terceiro
maior fluxo de italianos que vieram para o Brasil, muitos deles vindo de várias
regiões da Itália, sobretudo da Sardenha, região italiana que muito pouco
contribuiu com a imigração no Brasil. No
Rio de Janeiro, ao contrário do que aconteceu no restante do Brasil, os italianos
foram para as regiões urbanas, trabalhando nas indústrias e no comercio.
Já o Estado do Espirito Santo,
abriga uma das maiores colônias italianas do Brasil. Foram para a região das
serras, porém largados a sua própria sorte pelo governo brasileiro, enfrentando
situações de muita penúria e necessidade.
No estado de Santa Catarina, fundaram a Colônia de
Nova Itália, atual São João Batista. Outras colônias foram sendo criadas como Rio dos
Cedros, Rodeio, Ascurra
e Apiúna, todas estas no entorno da colônia alemã de Blumenau.
No ano de 1875 imigrantes do Tirol Italiano fundaram Nova Trento,
e em 1876 foi fundado Porto Franco, hoje Botuverá.
Diversas outras colônias foram sendo formadas em várias cidades do estado. Os
eventos que mais caracterizam essa colonização no sul do estado são as festas
típicas, como a festa do vinho e o Ritorno Alle Origine, ambos no município de Urussanga.
No estado do Paraná, chegaram
para as lavouras de café e constituíram diversas colônias entre mistas e etnicamente
italianas. A Colônia Alfredo Chaves, que posteriormente se tornaria a cidade de
Colombo, foi uma das quatro onde se concentraram os primeiros italianos que
chegaram ao estado. As outras são a Senador Dantas, que deu origem ao bairro
curitibano Água Verde, a Santa Felicidade, atual polo gastronômico da
capital paranaense e a Colônia de Santa Maria do Tirol, localizada no município de Piraquara,
Grande Curitiba.
Já a Colônia Cecilia foi a primeira experiência anarquista do país. Localizada no atual município de Palmeira os colonos, um grupo de libertários mobilizados pelo italianoGiovanni Rossi, plantaram mais de oitenta alqueires de terra - em área que lhes fora cedida pelo Imperador Pedro II, pouco antes da proclamação da República - e construíram mais de dez quilômetros de estrada, numa época na qual inexistiam máquinas, tratores ou guindastes de transporte de terras.
A alegria faz parte dos
imigrantes italianos, que gostam muito de cantar as canções de seu país. No
Brasil trouxeram a gaita piano, o acordeon, que tanto anima os bailes, do Rio
Grande do Sul. Muitas das danças gaúchas tiveram suas origens com a imigração
italiana, como por exemplo o xote de quatro passos.
A dança tradicional mais conhecida dos brasileiros é a Tarantela, um bailado composto de diversos casais, que vão dançando no ritmo que aumenta, tornando-se mais enérgico, animando a todos. Em geral é conduzida por um cantor central e acompanhada por castanholas e tamborim. Seu nome vem da cidade de Taranto, na região da Puglia, no sul da Itália
Também, temos alguns jogos
tradicionais italianos que encontramos em nossa cultura como a bocha, o
futebol, a amora, etc.
Os italianos trouxeram para o
Brasil, também, a sua forma típica de construir: casas de pedras e madeira
altas, piso de chão batido, que possuíam uma parte bem abaixo do nível do solo,
geralmente aproveitando o declive dos terrenos, popularmente chamado de porão.
Esta área da casa era naturalmente mais fria, local onde os imigrantes
armazenavam bebidas como vinho, cachaça, graspa, sucos e alimentos como o
vinagre, salames, ossocol e tantos outros.
Havia também o sótão, ou jirau,
localizado na parte de cima da casa, entre o teto e o telhado, um local normalmente
mais quente, onde eram conservados alimentos que deveriam ser conservados
secos.
*Nota: O ossocol é um embutido
de suíno, envolto em peritônio de boi ou de porco, amarrado por uma rede
elástica, curtido durante, aproximadamente, 3 a 6 meses em ambiente fresco e
arejado, protegido do sol. Seu nome deriva de osso colo, que na língua vêneta significa "osso do
pescoço", já que era feito originalmente com a carne do pescoço. No
Brasil, é produzido e apreciado em locais colonizados pelos italianos, oriundos
da província do Vêneto, como na cidade de Venda Nova do Imigrante, no Estado do Espírito Santo.
Na gastronomia os italianos
gostam de “stare a tavola” ou sentar-se à mesa, comendo, comemorando,
confraternizando, rindo, discutindo, se alegrando. Além de inúmeros hábitos,
como o de se tomar e produzir vinhos, diversos pratos e costumes da cultura italiana
foram incorporados à alimentação brasileira, como o hábito de comer panetone
no Natal,
pizza
e espaguete,
principalmente no Sudeste.
Os italianos que permaneceram no Brasil e aqui reconstruíram suas vidas, influenciaram a formação dessa nação em diversos aspectos e contribuíram para o desenvolvimento do país social e economicamente.
A Tarantela
Na ilustração representei a Tarantela, caracterizada pelas danças em pares, e troca rápida de casais. Forma-se um circulo de dançantes no sentido horário, até a música se tornar muito rápida, quando todos trocam de direção. Eventualmente ficando tão rápida que fica difícil manter o ritmo. É associada à tarântula (aranha), cujo veneno induziria à dança frenética.
Normalmente são dançadas com roupas mais sóbrias. Como gosto de colorir tudo, dei cores aos trajes de forma variada, por ser uma dança alegre.
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Por Lu Paternostro NOTA LEGAL: Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização expressa dos autores
Chamarra, vaneira, chula, pezinho e tantas outras danças que celebram a vida no campo, o galpão, o chimarrão e a força do gaúcho. Pares marcando o compasso do acordeom e da gaita, em coreografias de orgulho e tradição.
Ilustração "Danças Gaúchas", da série "Manifestações da Cultura Brasileira. Proibida cópia, uso ou reprodução desta imagem sem a autorização da artista.
Tão bela flor, Quero-Mana,
Quero-Mana lá de fora,
Foi um gaúcho que trouxe,
Na roseta da espora, ai!
Minha terra, minha terra,
ela lá e eu aqui, ai,
Por muito bem que me tratem
Não esqueço onde eu nasci
Tão bela flor, Quero-Mana,
Tão bela flor, é verdade,
Do que é ruim ninguém se lembra,
do que é bom se tem saudade, ai!
Quero-Mana Música da dança tradicional gaucha
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Danças Gaúchas: O Coração do Sul que Dança com Honra e Tradição!
Prepare-se para sentir o ritmo forte dos sapateados, a elegância dos pares e a alma fidalga do povo gaúcho! As danças gaúchas são uma das mais belas e autênticas expressões da cultura do sul do Brasil, marcadas pela influência de três grandes culturas: espanhola, portuguesa e francesa. Elas contam a história de um povo que valoriza a honra, o respeito e a celebração da vida.
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Raízes do Sul: Onde Tudo Começou
As danças gaúchas nasceram da mistura de tradições trazidas pelos colonizadores europeus e adaptadas ao modo de vida do gaúcho, o homem do campo, o peão das estâncias. Essa fusão criou um repertório riquíssimo, onde se vê:
A alegria comunitária, onde todos participam, cantam e celebram juntos.
A fidalguia e o respeito à mulher, presentes no cortejo e nos gestos delicados das danças de par.
A força e a perícia dos sapateados, herança das danças ibéricas, que mostram a destreza e a energia dos dançarinos.
Patrimônio Imaterial: A Tradição que se Mantém Viva
Embora as danças gaúchas como um todo ainda não tenham um título unificado de Patrimônio Imaterial da Humanidade, muitas delas, assim como o próprio modo de vida do gaúcho, são consideradas Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil em diversas esferas estaduais e municipais. Elas são a alma do Rio Grande do Sul, transmitidas de geração em geração nos CTGs (Centros de Tradição Gaúcha) e nas festas populares.
Patrimônio Imaterial são as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas que uma comunidade reconhece como parte de sua herança cultural. As danças gaúchas são um exemplo vivo de como a tradição, a música e a dança moldam a identidade de um povo.
As Danças Mais Famosas: Um Baile de Histórias e Passos
O universo das danças gaúchas é vasto e profuso. Cada dança tem sua própria história, seu ritmo e sua coreografia. Aqui estão algumas das mais emblemáticas:
1. Anú
Uma das danças mais tradicionais, dividida em duas partes: uma cantada, com um cortejo cerimonioso entre os pares, e outra para ser sapateada, com evoluções marcantes. Originalmente, os pares dançavam soltos, mas não independentes, em um diálogo de respeito e cortejo.
2. Balaio
De origem nordestina, mas com forte presença no Sul, mistura sapateados vigorosos com movimentos de roda. Tem influências dos lundus africanos e das quadrilhas europeias, sendo uma dança de conjunto que exige sincronia e energia.
3. Chimarrita
Trazida pelos colonos portugueses dos Açores e da Madeira, é uma dança de pares em fileiras opostas, que lembra as danças típicas portuguesas. Reflete a ternura e a delicadeza, sendo muito apreciada pelos tradicionalistas.
4. Pezinho
Também de origem açoriana, é uma dança onde todos os dançarinos cantam durante toda a coreografia. Os pares giram em torno de si, tomados pelos braços, em uma celebração de união e alegria.
5. Cana Verde
Uma dança de pares enlaçados, com evoluções que lembram a quadrilha europeia, mas com um toque gaúcho. Os balanceios e os cumprimentos entre os dançarinos são marcantes.
6. Chamamé
De origem platina (Argentina, Uruguai e Sul do Brasil), é uma dança de par solto, com passos rápidos e giros, ao som de uma música contagiante, geralmente tocada com acordeão.
7. Chula
Uma dança de desafio, praticada apenas por homens. Ao som da gaita gaúcha, os peões sapateiam sobre uma vara de quatro metros, em uma incrível sequência coreográfica que exige força, equilíbrio e destreza. É a expressão máxima da virilidade e da competição saudável.
Essas danças mostram a diversidade do repertório gaúcho. O Xote e a Valsa trazem a elegância dos salões europeus. A Milonga e a Vanera têm uma cadência mais dolente e apaixonada. O Bugio é uma dança típica dos peões, com influências indígenas, marcada por passos arrastados e um ritmo contagiante.
Instrumentos e Ritmos: A Trilha Sonora do Pampa
A música gaúcha é o coração das danças, e seus instrumentos são inconfundíveis:
Gaita (Acordeão): O instrumento mais emblemático, que comanda a maioria das danças, do xote à chula.
Violão e Viola: Acompanham as cantigas e dão base harmônica às melodias.
Bombo Legüero: Um tambor de origem indígena, tocado com uma baqueta, que marca o ritmo forte dos sapateados.
Castanholas: Usadas em algumas danças de influência espanhola, como o Fandango.
Trajes Típicos: O Orgulho de Ser Gaúcho
O traje típico é parte fundamental da dança gaúcha, não apenas como fantasia, mas como símbolo de identidade:
Homem (Pilcha): Bombacha (calça larga amarrada no tornozelo), camisa, lenço no pescoço, poncho e bota. O traje reflete o vestuário do peão do campo.
Mulher (Prenda): Saia rodada e longa, blusa, avental e um lenço colorido. O traje é elegante e remete às tradições das mulheres do campo.
Uma coisa bacana: É bem interessante a forma como o Gaúcho se preocupa em manter sua vestimenta tradicional impecável e cheias de regras. Conheça o Gaúcho Pilchado aqui
A Dança como Identidade: O que Ela Representa
As danças gaúchas são muito mais do que passos coreografados. Elas representam:
Respeito: O cortejo, a condução da dama e a postura dos dançarinos mostram a importância da fidalguia e do respeito mútuo.
Comunidade: As danças de roda e de conjunto celebram a união e a participação de todos.
Tradição: Cada passo, cada melodia e cada traje contam a história do povo gaúcho, suas origens, suas lutas e suas conquistas.
Vigor e Perícia: Os sapateados e desafios, como a Chula, mostram a força física e a destreza do gaúcho.
Por que as Danças Gaúchas são tão tão interessantes?
Porque elas são:
Autênticas: Expressam a alma do povo do sul com sinceridade e orgulho.
Vivas: São praticadas e celebradas todos os dias nos CTGs, festas e encontros de tradição.
Ricas: Com uma variedade imensa de ritmos, passos e histórias.
Patrimônio: Mantêm viva a herança cultural de gerações, sendo um elo entre o passado e o presente.
As danças gaúchas são o coração do sul pulsando em ritmo de sapateado, canto e celebração!
A série "Brasis em Traços" é uma coleção de ilustrações autorais da artista brasileira Lu Paternostro, focada na representação da cultura típica, tradicional e imaterial do Brasil. Com estilo colorido e detalhado, a série retrata festas, danças, tipos populares, lendas e a diversidade étnica brasileira, baseada em vasta pesquisa sobre o folclore e a identidade nacional.
Uma pequena lembrança para você:
Cada festa, folguedo, dança ou manifestação genuína de um povo não é algo fixo — é um organismo vivo, enraizado em um território e em constante transformação. Tudo é fluxo. Tudo é vivo, dinâmico. Como um rio, que corre sem nunca se deixar apreender por inteiro: não se captura um instante sem que ele já tenha se transformado.
É justamente aí que reside sua maior riqueza — nesse movimento contínuo, que existe no tempo e no corpo dos brincantes, despertando uma alegria difícil de nomear, mas impossível de não sentir.
Esta é apenas uma breve introdução ao tema, acompanhada de desenhos que buscam revelar um fragmento desse movimento. Lu Paternostro