Jongo. Manifestações da Cultura Tradicional Brasileira. Série Brasis em Traços

Dança de roda com tambores sagrados, pontos enigmáticos e umbigadas que convidam à roda. Ritmo ancestral banto, considerado um dos “avós” do samba e guardião da memória dos cativeiros.

Ilustração "Jongo", da série "Manifestações da Cultura Brasileira. 
 Copyright Lu Paternostro. Proibida cópia, uso ou reprodução desta imagem sem a autorização da artista.
Ilustração "Jongo", da série "Manifestações da Cultura Brasileira.
Proibida cópia, uso ou reprodução desta imagem sem a autorização da artista.

Quando a noite descia,
ao som da Ave-Maria,
um som de tambor se ouvia.
Dentro de uma senzala, 
em um caminho pra Minas,
vozes de jongueiros se ouviam.

Na Fazenda da Bem Posta, em pleno Estado do Rio,
um jongueiro sentindo falta do caxambu,
tocava o candongueiro, após o angú.

Cantarolava a saracura,
levou o lenço da moça 
que ficou chorando, 
que pecado que ela leva quando morrer....

Saracura
Jongo de Serrinha

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Jongo: A Voz Ancestral que Pulsa nos Tambores e Ginga na Roda do Sudeste!

“Tava dormindo quando Quingoma me chamou Tava dormindo, Quingoma me chamou Levanta, nego, cativeiro se acabou Levanta, nego, cativeiro se acabou!” – Ponto de Jongo

Prepare-se para sentir a força da ancestralidade e a batida que ecoa a liberdade!

Jongo, também conhecido como tambu, batuque, tambor ou caxambu, é uma das mais profundas e emocionantes manifestações da cultura afro-brasileira.

Considerado um dos ritmos precursores do samba, o Jongo é uma forma de reverência e louvação aos antepassados, lembrando profundamente de suas raízes negras e exaltando suas histórias em suas canções.

A Origem no Cativeiro e a Voz da Resistência

O Jongo foi trazido para o Brasil pelos escravos angolanos, sendo uma expressão rítmica da mesma família do tambor de crioula, do samba de roda e do coco. Ele integra a percussão de tambores, as danças coletivas em roda, o bater das palmas e a umbigada – elementos comuns a essas danças de matriz africana.

Consolidou-se entre os escravos nas lavouras de café e cana-de-açúcar do Vale do Paraíba, no Sudeste brasileiro. Nos tempos da escravidão, o Jongo era uma forma de comunicação secreta e resistência. A poesia metafórica dos "pontos" (cantigas) permitia que os praticantes da dança se comunicassem por meio de enigmas que os capatazes e senhores não compreendiam . Era nos quintais das senzalas, à noite, que eles cantavam seus pontos de reclamação, de dor e de amor, encontrando força e consolo na comunidade.

Patrimônio Imaterial: Um Legado de Luta e Cultura!

A importância histórica e cultural do Jongo foi oficialmente reconhecida: o Jongo do Sudeste foi inscrito no Livro de Registro das Formas de Expressão como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo IPHAN em dezembro de 2005. Este reconhecimento celebra a relevância dessa expressão para a formação da multifacetada identidade cultural brasileira.

Patrimônio Imaterial são as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas que uma comunidade reconhece como parte de sua herança cultural. O Jongo é um exemplo potente de como a dança, o canto, a fé e a memória moldam a identidade de um povo e se tornam um legado de luta e resistência para o país.

A Roda do Jongo: Onde a Magia Acontece

O Jongo é praticado nos quintais das casas de periferias urbanas e de comunidades rurais do Sudeste brasileiro, em estados como Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. A dança e o canto acontecem em uma roda, onde a energia flui e a comunidade se conecta:

  • A Roda: Os dançarinos e cantadores formam um círculo, batendo palmas e respondendo ao solista.
  • O Solo e o Coro: Um dançarino faz o solo, cantando um "ponto" (cantiga), e os outros respondem em coro, criando um diálogo musical.
  • A Umbigada: Sozinhos ou em pares, os dançarinos vão até o centro da roda e dançam até serem substituídos por outro par, muitas vezes através da umbigada – um toque de umbigo que simboliza a transmissão de energia e o convite para entrar na dança.
  • A Dança Livre: Os praticantes dançam como sabem dançar: pulando, arrastando os pés, devagar ou mais rápido e solto. O passo masculino e feminino, embora com a mesma base, é executado com delicadeza pelas mulheres e com mais vigor pelos homens.



Música e Instrumentos: A Batida Sagrada dos Tambores

Para os jongueiros, os tambores são sagrados, pois fazem a conexão com as entidades do mundo espiritual. Seus guardiões são os líderes das próprias comunidades jongueiras. Os instrumentos musicais podem ser diferentes de um grupo para outro, mas o mais comum é terem dois ou três tambores. Em algumas comunidades, pode-se encontrar o chamado tambor de fricção, um tipo de cuíca em formato maior.

  • Os Pontos: O "ponto" é um dos elementos mais marcantes do Jongo, onde a palavra cantada assume características únicas. São cantigas que narram histórias, expressam sentimentos, transmitem ensinamentos e, antigamente, serviam como mensagens codificadas.
  • A Força do Tambor: Como ensinava o Mestre Darc, da Serrinha (RJ): "A gente tem que introjetar o tambor para depois tocar. Tambor é coração" .

Sincretismo e Fé: Jongo e o Catolicismo Afro-Brasileiro

Embora não sejam liturgias, os jongos estão associados ao catolicismo afro-brasileiro, em especial ao culto de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário. As festas desses santos são momentos importantes para a prática do Jongo, onde a fé católica se mescla com as tradições africanas, em um belo exemplo de sincretismo.

A Comunidade: Guardiões de uma Tradição Viva

O Jongo é uma tradição que se mantém viva graças à dedicação de mestres e comunidades inteiras. Mestre Darc, da Serrinha, no Rio de Janeiro, é um exemplo de quem ensinou e divulgou o Jongo, uma linha que vem de sua mãe, Dona Maria Joana, e que continua sendo transmitida para as novas gerações .

O inventário Nacional de Referências Culturais pesquisou diversas comunidades jongueiras em atividade, identificando grupos em Madureira (RJ), Valença (RJ), Angra dos Reis (RJ), Guaratinguetá (SP), São José dos Campos (SP), Lagoinha (SP), Conceição da Barra (ES), Linhares (ES), Cachoeiro de Itapemirim (ES), São Mateus (ES), entre outras.

Por que o Jongo é tão importante?

Porque ele é:

  • Precursor do Samba: Um dos ritmos que pavimentou o caminho para o samba, a maior expressão musical do Brasil.
  • Memória Viva: Um elo direto com a história dos escravos angolanos e sua luta por liberdade e dignidade.
  • Resistência Cultural: Uma forma de preservar a herança africana, resistindo à opressão e à invisibilidade.
  • Arte Total: Uma fusão de dança, música, canto e poesia em um espetáculo de profunda emoção.
  • Comunidade e Fé: Fortalece os laços sociais, transmite saberes e mantém viva a identidade do povo afro-brasileiro.

O Jongo é a batida do coração da África que pulsa no Sudeste brasileiro, um convite para sentir a força, a fé e a memória de uma cultura que dança e canta sua história com orgulho e resiliência!


Selo Brasis em Traços de Lu Paternostro

A série "Brasis em Traços" é uma coleção de ilustrações autorais da artista brasileira Lu Paternostro, focada na representação da cultura típica, tradicional e imaterial do Brasil. Com estilo colorido e detalhado, a série retrata festas, danças, tipos populares, lendas e a diversidade étnica brasileira, baseada em vasta pesquisa sobre o folclore e a identidade nacional.


Uma pequena lembrança para você:

Cada festa, folguedo, dança ou manifestação genuína de um povo não é algo fixo — é um organismo vivo, enraizado em um território e em constante transformação. Tudo é fluxo. Tudo é vivo, dinâmico. Como um rio, que corre sem nunca se deixar apreender por inteiro: não se captura um instante sem que ele já tenha se transformado.

É justamente aí que reside sua maior riqueza — nesse movimento contínuo, que existe no tempo e no corpo dos brincantes, despertando uma alegria difícil de nomear, mas impossível de não sentir.

Esta é apenas uma breve introdução ao tema, acompanhada de desenhos que buscam revelar um fragmento desse movimento.
Lu Paternostro

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NOTA LEGAL: Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização expressa dos autores


Frevo. Manifestações da Cultura Tradicional Brasileira. Série Brasis em Traços

Explosão de cores, passos acrobáticos e sombrinhas vibrantes que transformam Recife e Olinda em um grande redemoinho de alegria. Um ritmo urbano, irreverente e virtuoso que é símbolo maior do Carnaval pernambucano.

Ilustração "Frevo", da série "Manifestações da Cultura Brasileira. 
 Copyright Lu Paternostro. Proibida cópia, uso ou reprodução desta imagem sem a autorização da artista.
Ilustração "Frevo", da série "Manifestações da Cultura Brasileira.
Proibida cópia, uso ou reprodução desta imagem sem a autorização da artista.

Lua tão linda, lua, lua, lua de Olinda
O sol abraça Recife tá chegando o carnaval, lua, lua linda

Lua nova que vi e fiquei sem dormir quando lembrei dos olhos dela
Sob os raios de ouro e as estrelas de prata vi teu corpo moreno tremendo de amor
Lembrei do Marco Zero onde ganhei a gata e da gente se amando no escurinho da praça
Mergulhei no meu sonho real fantasia quando o sol despertava e a lua dormia

Lembrei do Marco Zero onde ganhei a gata e da gente se amando no escurinho da praça
Mergulhei no meu sonho real fantasia quando o sol despertava e a lua dormia

Lua tão linda, lua, lua, lua de Olinda
O sol abraça Recife tá chegando o carnaval, lua, lua linda...

Frevo da Lua
Composição de Alceu Valença, Maurício
Oliveira e Gabriel Moura

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Frevo: A Explosão de Alegria que Faz Pernambuco Dançar!

Prepare-se para sentir a efervescência, a agitação e o rebuliço de um dos ritmos mais vibrantes do Brasil: o Frevo!

Nascido no carnaval de Pernambuco, no final do século XIX, ele se enraizou nas cidades de Recife e Olinda, tornando-se um símbolo de alegria, resistência e pura energia.

Com mais de um século de existência, o Frevo é um dos pilares do carnaval brasileiro, uma das mais significativas manifestações culturais do país.

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A Origem Fervilhante: Onde o Frevo Nasceu

O Frevo é um gênero musical urbano, extremamente acelerado, que tem características de competição desde sua origem. Ele surgiu em um momento de profundas transformações sociais e políticas em Pernambuco, na virada do século XIX para o século XX.

Para estudiosos como José Ramos Tinhorão, o Frevo é criação de músicos brancos e mulatos, muitos deles instrumentistas de bandas militares, tocadores de marchas e dobrados, ou componentes de grupos especialistas em música de dança da época, como polcas, tangos e maxixes.

O bairro de São José, nas áreas próximas ao porto de Recife, é considerado o berço do Frevo de Rua. Ali, as bandas militares e suas rivalidades, junto com os escravos recém libertados e capoeiristas, iam para as ruas em um momento em que as classes populares conquistavam seu espaço nas cidades.

Surgido das classes menos favorecidas da sociedade, o Frevo foi, a princípio, renegado pela elite. Mas sua energia estimulante e a alegria permanente logo seduziram todas as esferas da população.

Frevo: O Nome que Explode em Significado

O nome "Frevo" vem de "ferver", um ritmo que causa efervescência, agitação, rebuliço e uma aura de muita vivacidade aos seus participantes. É a "chaleira que ferve", indicando que a cidade vai ferver para brincar, e não para brigar!

Patrimônio Imaterial: Um Tesouro de Pernambuco para o Mundo!

O Frevo é uma manifestação cultural tão rica e importante que foi reconhecida nacional e internacionalmente:

  • Em fevereiro de 2007, o Frevo foi inscrito no Livro dos Registros de Bens Imateriais do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), na categoria “Formas de Expressão”. Carmem Lélis, diretora da Casa do Carnaval e importante especialista em Frevo, foi uma das responsáveis pelo dossiê que levou a esse reconhecimento.
  • Em 2012, a UNESCO reconheceu o Frevo como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.

Patrimônio Imaterial são as tradições vivas, as expressões, os conhecimentos e as práticas que uma comunidade reconhece como parte de sua herança cultural. O Frevo, com sua música, dança, história e a paixão de seus brincantes, é um exemplo vibrante de como a criatividade e a alegria são transmitidas de geração em geração, moldando a identidade de um povo.

Os Três Tipos de Frevo: Uma Dança de Emoções

Do repertório variado e eclético dessa música ligeira, feita para o carnaval, nasceram os três tipos de Frevo:

  1. Frevo-de-Rua: Não possui letras, feito unicamente para ser dançado. É o "Frevo Rasgado", onde você vai para a rua para extravasar, sem precisar saber passos complexos.
  2. Frevo-de-Bloco: Possivelmente vindo de serenatas feitas por grupos de rapazes munidos de violões, banjos, cavaquinhos e clarinetes. Atualmente, as mulheres também participam, e ele é mais lírico, com um coral feminino e uma orquestra de pau e cordas (com violinos, violões, banjos e pandeiros, e pouco metal).
  3. Frevo-Canção (ou Marcha-Canção): Possui letras e se parece muito com as marchinhas de carnaval, com uma melodia mais cantada.



A Dança do Frevo: Mais de 100 Passos de Pura Agilidade!

A dança do Frevo, conhecida como "passo", é uma das suas maiores riquezas. Com mais de 100 tipos de passos catalogados, ela é um jogo de braços e pernas que exige flexibilidade, agilidade e a destreza de um acrobata.

  • Origem Capoeirista: Os primeiros passos são atribuídos à ginga dos capoeiristas, que defendiam os blocos e contribuíram na criação dos movimentos. A presença negra no Brasil, que era de luta, passa a ser de alegria e dança no Frevo.
  • Nomes Criativos: Os nomes dos passos fazem referência ao mundo do trabalho e às profissões dos participantes, como "parafuso", "dobradiça", "locomotiva", "ferrolho", "tesoura", "pontilhado", "ponta de pé", "calcanhar", "Saci-Pererê" e "pernada" (com movimentos fortes da capoeira).
  • Influências Globais: Além das raízes locais, o Frevo absorveu influências de outras culturas. Da dança eslava vieram os famosos saltos conhecidos como "carpados", e até musicais americanos inspiraram passos como o "passeio na pracinha".

O Frevo pode ser dançado de duas formas: uma com passos complexos e acrobáticos, e outra, mais livre, onde o povo simplesmente se entrega à alegria e participa, sem regras rígidas. Como dizem: "Você pode dançar com os braços, o dedo para cima… qualquer passo que você queira, não precisa ser um bailarino especial para dançar o Frevo!"

A Sombrinha: De Arma de Defesa a Símbolo de Alegria

sombrinha colorida é parte do tradicional adereço dos dançarinos e um dos principais símbolos do carnaval pernambucano. Mas sua história é fascinante!

  • Origem como Arma: No início do Frevo, a capoeira era proibida no Brasil. As sombrinhas teriam sido usadas como armas de defesa pelos capoeiristas que protegiam os blocos. Eram guarda-chuvas pretos, velhos e esfarrapados, ou apenas a armação, usados para furar em caso de conflito.
  • Transformação: Com o tempo, o guarda-chuva foi se modificando, se colorindo, diminuindo e fazendo parte da alegoria da festa, tornando-se um ornamento vibrante que exalta os movimentos dos dançarinos.

Indumentária: Cores que Exaltam o Movimento

A vestimenta característica do Frevo é um espetáculo à parte, com roupas de um colorido vivo e muito brilho, que exaltam os movimentos e se destacam aos olhos dos espectadores:

  • Homens: Camisas mais curtas, justas ou amarradas na cintura, e calças bem apertadas, variando entre abaixo do joelho e acima do tornozelo.
  • Mulheres: Saias curtíssimas ou fitas que caem como saias, shorts curtos por baixo e corpetes ou blusas curtas.

A Orquestra do Frevo: A Batida que Contagia

A música é a alma do Frevo, e as orquestras são o coração dessa batida frenética. Elas são compostas principalmente por instrumentos de metal, que dão a sonoridade potente e inconfundível do Frevo de Rua:

  • Trompetes, Trombones e Saxofones: Os metais são a espinha dorsal da melodia e da harmonia, com suas notas agudas e vibrantes.
  • Tubas e Bombardinos: Dão a base e a profundidade sonora.
  • Percussão: Caixas, surdos e outros tambores garantem o ritmo acelerado e contagiante.

No Frevo de Bloco, a orquestra de pau e cordas traz violões, banjos, cavaquinhos, violinos e pandeiros, criando uma sonoridade mais lírica e melódica.

A Comunidade do Frevo: Guardiões de uma Tradição Viva

Por trás de cada passo, cada nota e cada sombrinha colorida, há uma comunidade de artistas, dançarinos, músicos e professores que dedicam suas vidas ao Frevo. Grupos como os Guerreiros do Passo, que dão aulas de danças pernambucanas para a comunidade desde 2006, e a Companhia Trapiá de Dança, que faz do Frevo um espetáculo teatral com muita dança e música, são exemplos vivos dessa paixão.

Ver uma criança como João Lucas, de apenas 8 anos, com "muito Frevo no pé", é a certeza de que essa manifestação cultural jamais morrerá. O Frevo está umbilicalmente ligado ao povo pernambucano; pensar em um é lembrar do outro.

Por que o Frevo é tão grandioso?

Porque ele é:

  • Ritmo: Que incendeia a alma e faz o corpo vibrar.
  • Dança: Que expressa a liberdade, a agilidade e a criatividade.
  • História: Que conta a luta e a resistência de um povo.
  • Arte: Nas músicas, nos passos, nas fantasias e na sombrinha.
  • Patrimônio: Que nos lembra da importância de preservar a cultura democrática e libertadora de Pernambuco.

O Frevo é a quentura, a brasa no pé, a vontade de explodir em alegria que faz de Pernambuco o centro da cultura brasileira!


Selo Brasis em Traços de Lu Paternostro

A série "Brasis em Traços" é uma coleção de ilustrações autorais da artista brasileira Lu Paternostro, focada na representação da cultura típica, tradicional e imaterial do Brasil. Com estilo colorido e detalhado, a série retrata festas, danças, tipos populares, lendas e a diversidade étnica brasileira, baseada em vasta pesquisa sobre o folclore e a identidade nacional.


Uma pequena lembrança para você:

Cada festa, folguedo, dança ou manifestação genuína de um povo não é algo fixo — é um organismo vivo, enraizado em um território e em constante transformação. Tudo é fluxo. Tudo é vivo, dinâmico. Como um rio, que corre sem nunca se deixar apreender por inteiro: não se captura um instante sem que ele já tenha se transformado.

É justamente aí que reside sua maior riqueza — nesse movimento contínuo, que existe no tempo e no corpo dos brincantes, despertando uma alegria difícil de nomear, mas impossível de não sentir.

Esta é apenas uma breve introdução ao tema, acompanhada de desenhos que buscam revelar um fragmento desse movimento.
Lu Paternostro

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NOTA LEGAL: Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização expressa dos autores

Folia de Reis. Manifestações da Cultura Tradicional Brasileira. Série Brasis em Traços

Cortejo devoto que percorre casas e estradas, cantando a jornada dos Três Reis Magos até o Menino Jesus. Bandeiras, violas, fitas e promessas tornam a Epifania uma festa de fé, música e comunidade.

Ilustração "Folia de Reis", da série "Manifestações da Cultura Brasileira. 
 Copyright Lu Paternostro. Proibida cópia, uso ou reprodução desta imagem sem a autorização da artista.
Ilustração "Folia de Reis", da série "Manifestações da Cultura Brasileira.
Proibida cópia, uso ou reprodução desta imagem sem a autorização da artista.

Senhor e dono da casa, vai chegando a folia 
Vem beijar a nossa bandeira e escutar a cantoria
Vem beijar a nossa bandeira e escutar a cantoria ai ai ai !

Senhor e dono da casa, se não for muito custoso
Vem abrir a sua porta que nóis viemos de pouso
Vem abrir a sua porta que nóis viemos de pouso ai ai ai !

Nosso corpo quer descanso nóis precisamos dum canto
Nossa arma quem vigia é o divino espírito santo
Nossa arma quem vigia é o divino espírito santo ai ai ai !

Senhor e dono da casa, a folia vai saindo 
Fica com deus nosso pai e a proteção do divino
Fica com deus nosso pai e a proteção do divino ai ai ai !

Folia de Reis
André e Andrade
Moda de folia aos santos reis

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Folia de Reis: A Procissão Sagrada que Une Fé, Música e Comunidade!

Prepare-se para mergulhar em uma das mais antigas e sagradas tradições do Brasil: a Folia de Reis, também conhecida como Reisado ou Companhia de Reis. É um auto popular, um teatro do povo, que une fé, música e caminhada em uma jornada que se repete todos os anos, entre o Natal e o dia 6 de janeiro — a Festa de Santos Reis.
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A Origem da Jornada: Uma Viagem que Vem da Europa

A Folia de Reis representa simbolicamente a viagem dos Três Reis Magos — Gaspar, Melchior e Baltazar — à gruta de Belém, para adorar o Menino Deus recém-nascido. Essa tradição tem raízes europeias, possivelmente relacionada às “Jornadas de Pastorinhas” e outras procissões natalinas, onde grupos percorriam as casas pedindo esmolas e cantando em louvor ao nascimento de Jesus.

No Brasil, a Folia de Reis se enraizou profundamente, especialmente em populações rurais, adaptando-se à realidade local e ganhando contornos únicos de devoção, arte e sociabilidade.

Patrimônio Imaterial: A Tradição que se Renova

Embora a Folia de Reis ainda não tenha um título unificado de Patrimônio Imaterial da Humanidade, ela é reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil em diversas regiões, sendo um dos rituais mais importantes para a identidade cultural do interior do país.

Patrimônio Imaterial são as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas que uma comunidade reconhece como parte de sua herança cultural. A Folia de Reis é um exemplo vivo de como a fé, a música e a caminhada coletiva moldam a alma de um povo.



A Chegada na Casa: O Ritual de Porta em Porta

A Folia de Reis é, antes de tudo, uma procissão itinerante. O grupo, chamado de “Companhia”, caminha de casa em casa, cantando, tocando e levando a bandeira com a imagem dos Santos Reis. O ritual é sempre o mesmo, mas cada visita é única:

  • Canto de Chegada: O mestre ou embaixador pede permissão ao dono da casa para entrar, saudando a família e pedindo acolhida.
  • Adoração ao Presépio: A Companhia se dirige ao altar, onde está o presépio ou a lapinha, e canta em louvor ao Menino Jesus.
  • Coleta e Agradecimento: Os foliões recolhem doações (mantimentos, dinheiro, bebidas), que serão usadas para a grande festa do dia 6 de janeiro. Em troca, agradecem com cantos, versos e até danças.
  • Canto de Despedida: Antes de seguir viagem, a Folia se despede, deixando a bênção dos Santos Reis na casa visitada.

Como relata um folião: “Tem pessoa que chega a chorar quando a companhia chega na casa… Você chega, canta, agradece o mantimento que a gente recebe, e no dia da festa, faz o comes e bebe para todo mundo.”

Os Personagens da Folia: Uma Hierarquia Sagrada

Cada membro da Companhia tem uma função específica, formando uma verdadeira “corte” em movimento:

  • Mestre ou Embaixador: É o líder, o organizador e o conhecedor dos fundamentos da Folia. É ele quem inicia as cantorias e mantém a coesão do grupo.
  • Bandeireiro (ou Bandeireira): Conduz a bandeira, o símbolo que legitima a Companhia. É uma figura de grande respeito, responsável por proteger o estandarte sagrado.
  • Músicos e Cantadores: Divididos em vozes (quinta, contra-tala, tala, requinta), formam o coro que entoa as toadas características. Os instrumentos variam conforme a região, mas geralmente incluem viola, violão, cavaquinho, sanfona, pandeiro e caixa.
  • Palhaços ou Bastiões: Personagens curiosos e sagrados, vestidos com roupas coloridas e, muitas vezes, máscaras. São os “guerreiros” da Folia, responsáveis por proteger a bandeira, recolher as ofertas, “quebrar os atrapalhos” (desafios e brincadeiras) e anunciar a chegada da Companhia. Nomes como Pai Juão, Catrina, Mocorongo, Mateus e Alferes aparecem em diferentes regiões do Brasil.
  • Reis Magos: Alguns grupos incluem pessoas caracterizadas como os Três Reis, reforçando o sentido do auto.
  • Festeiro: Pessoa que organiza a festa de chegada da bandeira em sua casa ou comunidade.
  • Apontador de Prendas: Anota todas as ofertas recebidas, garantindo a transparência da coleta.

Música, Dança e Instrumentos: A Trilha da Caminhada

A música é a alma da Folia de Reis. As toadas (cantigas) são passadas de geração em geração, e cada região tem seu estilo: a toada baiana, a mineira, a paulista, a goiana… Algumas são idênticas, outras têm variações melódicas e de letra.

Os instrumentos mais comuns são:

  • Viola e Violão: Enfeitados com fitas coloridas, que carregam simbolismos (fitas azuis, rosa e amarelas para a Virgem Maria; branca para o Divino Espírito Santo).
  • Sanfona: Traz o calor e a melodia contagiante das toadas.
  • Pandeiro e Caixa: Marcam o ritmo da caminhada e dos cantos.
  • Rabeca, Bandolim, Cavaquinho: Comuns em algumas regiões, enriquecendo a sonoridade.

As danças, como a dança-da-jaca, o balanceado, o cateretê e o “meio-dia”, são executadas principalmente pelos palhaços e bastiões, trazendo alegria e energia ao ritual.

VAMOS CONHECER A RABECA?

A Voz Rústica e Encantadora do Brasil Profundo

Muito mais que uma "prima" do violino, a rabeca é a síntese da nossa identidade. Enquanto o violino erudito busca a perfeição cristalina das salas de concerto, a rabeca busca o "chão de barro" — um timbre terroso, visceral e profundamente afetuoso.

A Alma Esculpida à Mão

O que torna a rabeca fascinante é o seu fazer artesanal. Ela é fruto do conhecimento de mestres luthieres que utilizam madeiras nativas e segredos ancestrais. Diferente dos instrumentos industriais, cada rabeca é única: tem corpo, rosto e uma alma própria, moldada pelo carinho de quem a esculpe.

O Olhar dos Mestres

O mestre Luís da Câmara Cascudo, em seu clássico Dicionário do Folclore Brasileiro, já a definia como o instrumento de arco por excelência das nossas festas. Para ele, a rabeca é o fôlego das folias, bailes e procissões, adaptando seu som ao "sotaque" de cada região do país.

Um Patrimônio de Todos Nós

A importância da rabeca é tamanha que o IPHAN a reconhece como elemento vital de bens registrados como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. Ela é a protagonista absoluta de celebrações como:

  • Fandango Caiçara (SP/PR)
  • Cavalo-Marinho (PE)
  • Maracatu Rural (PE)

Ouvir uma rabeca não é apenas apreciar uma música; é abraçar um Brasil que canta sua própria história com as mãos e o coração.


Vamos apurar nosso ouvido? Ao ouvir uma rabeca tocando, preste atenção nas "imperfeições" do som, que parecem até "desafinados". É nessa sensação de "imperfeição" que reside a verdadeira humanidade, a beleza e a essência deste instrumento.

A Folia como Missão: “É um Chamado!”

Para muitos foliões, a Folia de Reis não é apenas uma tradição, mas uma missão espiritual. Como diz um mestre de 75 anos, que segue a tradição desde os 7: “É o chamado, é uma missão que a gente tem. Meu pai faleceu, eu assumi. Se não queria, mas o santo rei manda, não tem jeito.”

A Folia de Reis atravessa gerações. Em muitas famílias, pai, avô, bisavô e filhos participam juntos, mantendo viva a chama da devoção e da comunidade. Há relatos de milagres, promessas cumpridas e vidas transformadas pela fé expressa na caminhada dos Santos Reis.

Por que a Folia de Reis é tão rica?

Porque ela é:

  • Fé em Movimento: Uma procissão que leva a bênção de casa em casa, unindo o sagrado e o cotidiano.
  • Comunidade: Uma celebração coletiva, onde todos são convidados a participar, doar e compartilhar.
  • Tradição Viva: Uma herança cultural transmitida de pai para filho, que resiste ao tempo e à modernidade.
  • Arte Popular: Um auto teatral, musical e dançante, que expressa a criatividade e a alma do povo brasileiro.
  • Riqueza nos Detalhes: Os ornamentos se modificam pelo Brasil afora, modificando-se conforme cada local.

A Folia de Reis é a jornada dos Reis Magos reencenada pelo povo, uma procissão de esperança, música e fé que faz do Brasil um país ainda mais sagrado e humano.


Selo Brasis em Traços de Lu Paternostro

A série "Brasis em Traços" é uma coleção de ilustrações autorais da artista brasileira Lu Paternostro, focada na representação da cultura típica, tradicional e imaterial do Brasil. Com estilo colorido e detalhado, a série retrata festas, danças, tipos populares, lendas e a diversidade étnica brasileira, baseada em vasta pesquisa sobre o folclore e a identidade nacional.


Uma pequena lembrança para você:

Cada festa, folguedo, dança ou manifestação genuína de um povo não é algo fixo — é um organismo vivo, enraizado em um território e em constante transformação. Tudo é fluxo. Tudo é vivo, dinâmico. Como um rio, que corre sem nunca se deixar apreender por inteiro: não se captura um instante sem que ele já tenha se transformado.

É justamente aí que reside sua maior riqueza — nesse movimento contínuo, que existe no tempo e no corpo dos brincantes, despertando uma alegria difícil de nomear, mas impossível de não sentir.

Esta é apenas uma breve introdução ao tema, acompanhada de desenhos que buscam revelar um fragmento desse movimento.
Lu Paternostro

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NOTA LEGAL: Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização expressa dos autores

Congada. Manifestações da Cultura Tradicional Brasileira. Série Brasis em Traços

Teatro de rua que celebra a coroação de reis do Congo, com espadas, bastões e cantos de fé. Mistura de catolicismo e matriz africana que exalta São Benedito, Nossa Senhora do Rosário e a realeza negra.

Ilustração "Congada", da série "Manifestações da Cultura Brasileira. 
 Copyright Lu Paternostro. Proibida cópia, uso ou reprodução desta imagem sem a autorização da artista.
Ilustração "Congada", da série "Manifestações da Cultura Brasileira.
Proibida cópia, uso ou reprodução desta imagem sem a autorização da artista.

Benedito Santo 
De Jesus querido 
Valha-me Deus 
Que eu tenho sofrido 

Que santo é aquele 
Que vem no andor 
É São Benedito 
Enfeitado de flor 

É conga, é conga, é congada 
Bate marimba e tambor 
Vou pegar minha espada 
Que eu também sou lutador....

Congada
Romildo e Toninho Nascimento
Música e poesia

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Congada: A Realeza Negra que Dança a Fé, a Luta e a Memória no Coração do Brasil!

Prepare-se para testemunhar um espetáculo de fé, resistência e realeza!

Congada, também conhecida por Congo ou Congado, é uma manifestação cultural e religiosa de origem Africana, um folguedo de rua que reúne tradições mouras e cristãs. Os grupos vão cantando, marchando e dançando, batendo suas espadas numa coreografia complexa, trocando de lugar. Vestem-se com roupas características e por pura devoção mantém sua tradição viva. Tradicionalmente o ponto alto é representação da coroação do rei e rainha do Congo.

A congada acontece em várias festividades durante o ano todo, principalmente em festas de Nossa Senhora do Rosário e em alguns locais, nas festas do Divino.

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A Origem Real e a Resistência no Cativeiro

A Congada remete às lutas travadas no território africano, principalmente no Congo, onde muitos reis perderam seus tronos e vieram a ser escravos no Brasil, durante a colonização portuguesa no século XV. A devoção de seu povo os mantinha reis mesmo sem nada governarem, uma forma de resgatar o reino que foi perdido em suas terras de origem  

No Brasil, a Congada consolidou-se como uma forma de os negros escravizados expressarem sua cultura e fé. Temendo rebeliões, os senhores brancos e a Igreja permitiam que dançassem suas congadas, mas escolheram para isso as datas de devoção dos santos cristãos. Assim, a Congada se tornou uma mistura das peças trazidas pelos negros escravizados com a religiosidade cristã praticada na colônia

Patrimônio Cultural: A Realeza que se Mantém Viva!

A Congada, com sua riqueza e profundidade, é um patrimônio vivo que reflete a identidade do povo afro-brasileiro. Embora não possua um título unificado de Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo IPHAN, diversas manifestações de Congado em estados como Minas Gerais, São Paulo e Goiás são reconhecidas como Patrimônio Cultural Imaterial em nível estadual ou municipal. Sua importância para a formação da identidade cultural brasileira é inegável e amplamente valorizada.

Patrimônio Imaterial são as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas que uma comunidade reconhece como parte de sua herança cultural. A Congada é um exemplo grandioso de como a fé, a dança, o teatro e a música se entrelaçam para manter viva a memória de uma realeza perdida e a esperança de um povo.



O Cortejo da Congada: Teatro, Dança e Devoção

A Congada é uma espécie de teatro de rua, um bailado dramático que relembra a história de lutas e conquistas de forma simbólica, não deixando morrer a lembrança do poder do povo negro  

Os grupos vão cantando, marchando e dançando, batendo suas espadas ou bastões em uma coreografia complexa, trocando de lugar  

Coroação dos Reis: O ponto central da festa é a representação da coroação do rei e da rainha do Congo, um ritual de grande pompa e significado. Embora em muitos lugares essa tradição esteja se perdendo, restando apenas os "ternos" e suas danças compassadas  

  • Ternos ou Guardas: Os cortejos são acompanhados por grupos denominados "ternos" ou "guardas", cada um com seu líder, o capitão .
  • Embaixadas: Em alguns locais, há uma encenação dramática chamada "embaixada", que representa as lutas entre mouros e cristãos, ou pagãos e batizados, em forma de coreografias .

Rituais: Durante as festas, há levantamento de mastros, muita música, dança, batuque de zabumba, canto, louvação e animação.

Personagens e Indumentária: A Hierarquia em Cores e Brilho

As roupas são muito importantes na Congada, pois representam a hierarquia e os personagens, identificando os diferentes grupos do cortejo pelas características das cores e adereços .

  • Reis e Rainhas: Vestem trajes majestosos, com coroas, mantos e adereços que simbolizam a realeza africana.
  • Guerreiros/Dançarinos: Usam camisas, capas, chapéus, espadas e lenços, feitos de tecidos confortáveis para não inibir os movimentos. Há uma série de fitas e bandeiras coloridas que trazem a imagem dos santos .
  • Santos Negros: Os santos cultuados nas congadas, presentes em seus estandartes, são normalmente santos negros como São Benedito, Santa Efigênia e Nossa Senhora do Rosário  

. A Princesa Isabel também é saudada, cruzando a tradição da monarquia africana com a brasileira .

  • Chico Rei: A lenda de Chico Rei, um monarca do Congo que foi escravizado, comprou sua alforria e a de mais de 200 escravizados, e levantou a Igreja de Santa Efigênia em Ouro Preto, faz parte das tradições orais e da memória dos congadeiros .

Música e Instrumentos: A Batida que Chama a Energia Ancestral

A música é o coração da Congada, com cantos que são puxados por uma pessoa e a multidão acompanha o refrão . As letras falam do sofrimento da escravidão, dos lamentos de um povo arrancado de sua terra, mas também são cantos de esperança e redenção, na espera de uma vida melhor .

Os instrumentos musicais utilizados são diversos e conferem a sonoridade única da Congada:

  • Tambores: Cuíca, caixa, pandeiro, tamborim, surdo, tarol, zabumba. Os tambores são a força da Congada, chamando a energia positiva dos antepassados .
  • Cordas: Cavaquinho, viola, violão, rabeca ou violino popular.
  • Outros: Reco-reco, sanfona, acordeão, agogô.

O canto é entoado com letras em português, mas também com palavras do idioma banto, na melhor tradição oral . Há um sincretismo musical, onde se cantam músicas públicas como benditos aos santos católicos e, em terreiros, saúda-se marinheiros, pretos velhos, orixás como Iansã e Xangô .

Fé e Espiritualidade: A Devoção que Move a Congada

A Congada acontece em várias festividades durante o ano todo, principalmente em festas de Nossa Senhora do Rosário e, em alguns locais, nas festas do Divino  

É uma manifestação que envolve o canto, a dança, o teatro e a espiritualidade cristã e de matriz africana .

Para os congadeiros, a Congada é uma questão de devoção e fé. É uma forma de receber as energias dos antepassados, dos espíritos de luz que protegem o grupo. A vibração dos tambores e a dança sem canseira, mesmo suando, são a prova de que estão recebendo o axé dos que já se foram . É uma missão que exige preparo espiritual e muita dedicação.

Por que a Congada é tão importante para o Brasil?

Porque ela é:

  • Memória Viva: Um elo direto com a história da realeza africana e a resistência dos negros escravizados no Brasil.
  • Sincretismo Profundo: Uma fusão única de fé católica e matriz africana, que celebra a diversidade religiosa do Brasil.
  • Arte Total: Uma expressão completa de dança, música, canto, teatro e artes visuais em um espetáculo de profunda emoção.
  • Comunidade e Fé: Fortalece os laços sociais, transmite saberes e mantém viva a identidade do povo afro-brasileiro.
  • Energia Contagiante: Um ritmo que faz o corpo vibrar e a alma se conectar com a força da ancestralidade.

A Congada é a batida do coração da África que pulsa no Brasil, um convite para sentir a força, a fé e a memória de uma cultura que dança e canta sua história com orgulho e resiliência!


Selo Brasis em Traços de Lu Paternostro

A série "Brasis em Traços" é uma coleção de ilustrações autorais da artista brasileira Lu Paternostro, focada na representação da cultura típica, tradicional e imaterial do Brasil. Com estilo colorido e detalhado, a série retrata festas, danças, tipos populares, lendas e a diversidade étnica brasileira, baseada em vasta pesquisa sobre o folclore e a identidade nacional.


Uma pequena lembrança para você:

Cada festa, folguedo, dança ou manifestação genuína de um povo não é algo fixo — é um organismo vivo, enraizado em um território e em constante transformação. Tudo é fluxo. Tudo é vivo, dinâmico. Como um rio, que corre sem nunca se deixar apreender por inteiro: não se captura um instante sem que ele já tenha se transformado.

É justamente aí que reside sua maior riqueza — nesse movimento contínuo, que existe no tempo e no corpo dos brincantes, despertando uma alegria difícil de nomear, mas impossível de não sentir.

Esta é apenas uma breve introdução ao tema, acompanhada de desenhos que buscam revelar um fragmento desse movimento.
Lu Paternostro

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NOTA LEGAL: Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização expressa dos autores

Capoeira. Manifestações da Cultura Tradicional Brasileira. Série Brasis em Traços

Arte afro-brasileira que mistura luta, dança, música e jogo simbólico em uma roda marcada por berimbau, atabaque e palmas. Nascida nos tempos de escravidão como forma de resistência, hoje é Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil e da Humanidade, praticada em todo o mundo.

Ilustração "Capoeira", da série "Manifestações da Cultura Brasileira. 
 Copyright Lu Paternostro. Proibida cópia, uso ou reprodução desta imagem sem a autorização da artista.
Ilustração "Capoeira", da série "Manifestações da Cultura Brasileira.
Proibida cópia, uso ou reprodução desta imagem sem a autorização da artista.

Quem é homem de bem não trai
O amor que lhe quer seu bem
Quem diz muito que vai, não vai
Assim como não vai, não vem
Quem de dentro de si não sai
Vai morrer sem amar ninguém
O dinheiro de quem não dá
É o trabalho de quem não tem

Capoeira que é bom não cai
Mas se um dia ele cai, cai bem
Capoeira me mandou dizer que já chegou
Chegou para lutar
Berimbau me confirmou vai ter briga de amor
Tristeza, camará

Se não tivesse o amor
Se não tivesse essa dor
E se não tivesse o sofrer
E se não tivesse o chorar
Melhor era tudo se acabar

Eu amei, amei demais
O que eu sofri por causa de amor ninguém sofreu
Eu chorei, perdi a paz
Mas o que eu sei é que ninguém nunca teve mais, mais do que eu

Capoeira me mandou dizer que já chegou
Chegou para lutar
Berimbau me confirmou vai ter briga de amor
Tristeza camará

Berimbau
Baden Powell
Música e poesia

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Capoeira: A Luta-Dança que Libertou Corpos e Almas!

“Capoeira me mandou dizer que já chegou. Chegou para lutar Berimbau. Me confirmou, vai ter briga de amor Tristeza, camará”
– “Berimbau”, Baden Powell e Vinicius de Moraes

Imagine uma arte que é ao mesmo tempo luta, dança, música, jogo e filosofia de vida. Essa é a Capoeira, uma das mais poderosas e belas expressões da cultura afro-brasileira, que se espalhou por todo o Brasil e por mais de 150 países, encantando o mundo com sua ginga e sua história de resistência.

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A Semente Africana em Solo Brasileiro

A Capoeira tem sua origem nas raízes africanas, trazida pelos escravos para o Brasil. Desenvolveu-se com força e expressão, principalmente em grandes cidades portuárias como Salvador, Rio de Janeiro e Recife.

No cenário de opressão da escravidão, os negros, em seus raros momentos de lazer, preservavam suas culturas através da música, dança e brincadeiras. Foi assim que a Capoeira nasceu: uma luta criada para a autodefesa e para auxiliar nas fugas, praticada nas senzalas e, posteriormente, nos quilombos.

A astúcia da Capoeira: Como os senhores de escravos não aceitariam que eles praticassem qualquer tipo de luta, os movimentos eram disfarçados em forma de dança. A musicalidade sempre esteve presente, tornando a Capoeira uma luta que se camuflava em arte, uma estratégia de sobrevivência e resistência.

Capoeira: O que significa esse nome?

A palavra Capoeira tem origem na língua indígena Tupi, de ka'a ("mata") e pûer ("que foi"), significando "mato ralo" ou "mato que foi derrubado". Essa vegetação rasteira era típica das clareiras e periferias das cidades, onde os escravos e libertos costumavam praticar essa luta espetacular. Era ali, nesse "mato que foi", que eles transformavam seus corpos em armas poderosíssimas contra os ataques e perseguições dos capitães do mato.



Patrimônio Imaterial: Um Tesouro da Humanidade!

A Capoeira é tão importante que foi reconhecida mundialmente!

  • Em outubro de 2008, a "Roda de Capoeira" e o "Ofício de seus Mestres" foram inscritos no Livro dos Registros de Bens Imateriais do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), nas categorias "Formas de Expressão" e "Saberes".
  • Em 2014, a UNESCO reconheceu a Roda de Capoeira como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.

Patrimônio Imaterial são as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas que as comunidades reconhecem como parte do seu patrimônio cultural. No caso da Capoeira, é a ginga, a música, a filosofia, a história de resistência e a sabedoria dos mestres que são protegidas e valorizadas para serem transmitidas de geração em geração.

A Roda: O Círculo Mágico da Capoeira

roda de capoeira é um local mágico, um espaço de transmissão dos saberes dos mestres capoeiristas. É um círculo de capoeiristas onde a bateria musical comanda o ritmo e onde a capoeira é jogada, tocada e cantada. Diferente de outras lutas, os capoeiristas não dizem que estão "lutando", mas sim que estão "jogando" capoeira.

O jogo deve seguir o ritmo dos instrumentos, e cada toque determina um tipo diferente de jogo: alguns permitem movimentos mais rápidos e agressivos, outros mais acrobáticos ou rasteiros.

Os Movimentos: Ginga, Ataque e Defesa

A Capoeira é composta por diversos movimentos que exigem desenvoltura, flexibilidade, rapidez, destreza e muita agilidade:

  • A Ginga: É o movimento principal, a base da Capoeira. O praticante fica se mexendo, "gingando" o tempo todo, de um lado para o outro, de forma cadenciada e no ritmo do berimbau. A ginga é um movimento de defesa, mas a partir dela pode ser aplicado um golpe fatal!
  • Ataques: Chutes, rasteiras, saltos incríveis, cotoveladas, cabeçadas e movimentos elaborados que acontecem tanto no solo quanto no ar.
  • Mandinga: Um termo comum na capoeira, refere-se à forma como o capoeirista ginga e se conecta com toda a sua ancestralidade durante o jogo. A mandinga é a identidade de cada capoeirista!



Os Sotaques da Capoeira: Angola, Regional e Contemporânea

Atualmente, consideram-se três tipos principais de Capoeira, cada um com suas características e filosofias:

  1. Capoeira Angola (ou Capoeira de Vadiação): É a forma mais antiga, com movimentos mais rasteiros, lentos e focados na malícia e na estratégia. O Mestre Pastinha, em 1941, criou o primeiro espaço formal para o ensino da vadiação, resgatando essa tradição.
  2. Capoeira Regional: Criada no começo do século XX pelo lendário Mestre Bimba, que fundou, em 1932, a primeira Academia de Capoeira no Brasil. A Regional é mais rápida, com movimentos acrobáticos e golpes mais objetivos, incorporando elementos de outras lutas.
  3. Capoeira Contemporânea: Uma fusão de elementos da Angola e da Regional, buscando a versatilidade e a adaptação aos novos tempos.

A Bateria: A Alma Sonora da Roda

A música é o coração da Capoeira, e a bateria é quem comanda a roda. Os instrumentos são tocados pelos mestres e alunos mais experientes, ditando o ritmo e a energia do jogo:

  • Berimbau: O instrumento principal, que praticamente comanda a forma de acontecer a capoeira. Seu toque determina o tipo de jogo.
  • Pandeiros: Trazem o brilho e a marcação rítmica.
  • Atabaques: Tambores que dão a base percussiva e a força ancestral.
  • Agogô: Um instrumento de percussão com dois ou mais sinos.
  • Reco-reco e Caxixi: Adicionam texturas e sons complementares.

As canções da Capoeira são divididas em ladainhas, chulas, corridos ou quadras, e são acompanhadas pelas palmas dos capoeiristas que formam a roda, criando um coro vibrante.

A Perseguição e a Resistência: A Capoeira como Símbolo de Luta

A história da Capoeira é também uma história de perseguição e resistência. No século XIX, no Rio de Janeiro e em Recife, a Capoeira foi duramente reprimida. Em 1890, o governo republicano brasileiro chegou a decretar a proibição da Capoeira em todo o território nacional, criminalizando seus praticantes.

Eduardo Bueno, o historiador, nos lembra que a Capoeira era crime há muito tempo. No início do século XX, por exemplo, em 1909, um capoeirista chamado Cyriaco detonou um mestre de Jiu-Jitsu japonês em uma luta no Rio de Janeiro, mostrando a força da Capoeira, mesmo sendo proibida. Muitos capoeiristas foram presos e enviados para o exílio em Fernando de Noronha ou para o Acre.

No entanto, a Capoeira nunca se calou. Ela se tornou uma forma de os negros, que não tinham terra, moradia ou trabalho após a abolição, transformarem seu corpo em arma e sua cultura em resistência.

A virada: Durante a Guerra do Paraguai, muitos capoeiras foram cooptados e enviados para lutar, criando o Batalhão dos Zuavos, que se destacou em batalha. Mais tarde, na Revolta da Vacina (1904), no Rio de Janeiro, capoeiristas como o lendário Prata Preta lideraram a resistência popular, mostrando que a Capoeira era a voz e a força do povo.

Foi somente na década de 1930, com o presidente Getúlio Vargas, que a proibição da Capoeira foi suspensa, e ela começou a ser identificada como um esporte genuinamente brasileiro.

Identidade e Tradição: Os Apelidos e as Cordas

  • Apelidos: Um costume muito presente nos grupos de capoeira é batizar um "camarada" (sinônimo de amigo, companheiro) com um apelido. Essa é uma herança dos tempos de perseguição policial, quando o apelido servia como um codinome para dificultar a identificação.

Vestimenta: Geralmente, usa-se uma calça branca chamada ABADÁ e uma corda amarrada como cinto. As diferentes cores das cordas simbolizam a graduação dos capoeiristas, embora a ordem das cores possa variar entre os grupos.

A Capoeira Hoje: Um Patrimônio Vivo e Global

A Capoeira deixou de ser apenas uma forma de defesa pessoal para assumir o papel de resistência cultural. Ela engloba toda a ancestralidade africana e continua a ser um símbolo da identidade brasileira, reconhecido internacionalmente.

Atualmente, a Capoeira está presente em mais de 150 países, sendo uma grande responsável pela propagação da língua portuguesa, já que todas as aulas são ensinadas em português. Inúmeros estrangeiros vêm ao Brasil para conhecer mais da nossa cultura através da Capoeira, e muitos mestres brasileiros levam essa arte para o mundo, onde, infelizmente, muitas vezes são mais respeitados e valorizados do que em seu próprio país.

A Capoeira é um movimento que resgata jovens, promove a cultura e mantém viva a chama da ancestralidade.

Por que a Capoeira é tão importante?

Porque ela é:

  • Luta: Que ensina a se defender e a resistir.
  • Dança: Que expressa a liberdade e a beleza do movimento.
  • Música: Que embala a alma e conta histórias.
  • História: Que revela a força e a resiliência do povo brasileiro.
  • Patrimônio: Que nos lembra da importância de preservar nossas raízes e tradições afro-brasileiras.

A Capoeira é a ginga do Brasil que não se curva, que luta, canta e dança pela liberdade!


Selo Brasis em Traços de Lu Paternostro

A série "Brasis em Traços" é uma coleção de ilustrações autorais da artista brasileira Lu Paternostro, focada na representação da cultura típica, tradicional e imaterial do Brasil. Com estilo colorido e detalhado, a série retrata festas, danças, tipos populares, lendas e a diversidade étnica brasileira, baseada em vasta pesquisa sobre o folclore e a identidade nacional.


Uma pequena lembrança para você:

Cada festa, folguedo, dança ou manifestação genuína de um povo não é algo fixo — é um organismo vivo, enraizado em um território e em constante transformação. Tudo é fluxo. Tudo é vivo, dinâmico. Como um rio, que corre sem nunca se deixar apreender por inteiro: não se captura um instante sem que ele já tenha se transformado.

É justamente aí que reside sua maior riqueza — nesse movimento contínuo, que existe no tempo e no corpo dos brincantes, despertando uma alegria difícil de nomear, mas impossível de não sentir.

Esta é apenas uma breve introdução ao tema, acompanhada de desenhos que buscam revelar um fragmento desse movimento.
Lu Paternostro

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NOTA LEGAL: Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização expressa dos autores

Boi Bumbá. Manifestações da Cultura Tradicional Brasileira. Brasis em Traços

No coração do Bumba Meu Boi, comunidades se dividem entre sotaques e cores para celebrar a morte e ressurreição do boi, em uma festa de fé, música e identidade. Reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil e da Humanidade, é a maior expressão da cultura popular maranhense.

boi bumbá lu paternostro brasis em traços

Ilustração "Boi Bumbá", da série "Manifestações da Cultura Brasileira.
Proibida cópia, uso ou reprodução desta imagem sem a autorização da artista.

Tu precisa ir pro Norte
Ver Bumba meu Boi Bumbá

Ê bum bum Bumba meu Boi
Ê Bumba meu Boi Bumbá
(Ê bum bum bum Bumba meu boi
Ê Bumba meu Boi Bumbá)

Tu precisa ver a dança
Do reisado imperiá

(Ê bum bum bum Bumba meu boi
Ê Bumba meu Boi Bumbá)

No dia desse festejo
Vai toda gente pra rua

Ê bum bum Bumba meu Boi
Ê Bumba meu Boi Bumbá
(Ê bum bum bum Bumba meu boi
Ê Bumba meu Boi Bumbá)

Todo mundo qué espiá
A dança do Boi Bumbá!

Ê bum bum bum Bumba meu Boi...

Bumba meu Boi
Jackson do Pandeiro
Música e poesia

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Bumba Meu Boi / Boi Bumbá: O Milagre que Faz o Brasil Dançar!

“Tu precisa ir pro Norte Ver Bumba meu Boi Bumbá Ê bum bum Bumba meu Boi Ê Bumba meu Boi Bumbá!”
– Jackson do Pandeiro, “Bumba meu Boi”

De norte a sul do Brasil, a figura do boi é um ícone cultural. Mas é no Maranhão que a brincadeira do Boi Bumbá se torna uma explosão de vida, incorporada ao cotidiano do povo. Uma extraordinária mistura de dança, folclore, música, religião e teatro que faz a terra tremer!

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O Coração da Brasilidade: Onde Tudo Começou

O Bumba Meu Boi é um dos traços mais marcantes da identidade cultural brasileira. Nascido no século XVIII, no Nordeste, ele é o resultado de um encontro mágico de três mundos:

  • A Europa: Com seus autos populares e a história da fazenda.
  • A África: Com seus ritmos contagiantes, instrumentos e a força da religiosidade.
  • Os Povos Indígenas: Com a conexão com a natureza, as cores vibrantes e os rituais ancestrais.

Essa rica tradição se mantém viva até hoje, especialmente no Maranhão, onde o Bumba Meu Boi não é apenas uma festa, mas um terreno fértil onde as comunidades dialogam, criam e celebram a vida.



Um Boi, Mil Nomes: A Diversidade pelo Brasil

O Bumba Meu Boi viaja pelo Brasil e, como um camaleão cultural, adquire características diversas na dança, ritmo, personagens e enredo. Por isso, ele ganha muitos nomes:

  • Maranhão, Pará, Rondônia, Amazonas: Boi-Bumbá ou Pavulagem
  • Pernambuco: Boi-Calemba ou Bumbá
  • Ceará: Boi de Reis, Boi-Surubim ou Boi-Zumbi
  • Bahia: Boi-Janeiro, Boi-Estrela-do-Mar, Dromedário e Mulinha-de-Ouro
  • Minas Gerais e Rio de Janeiro: Bumba ou Folguedo do Boi
  • Espírito Santo: Boi de Reis
  • São Paulo: Boi-de-Jacá e Dança-do-Boi
  • Paraná e Santa Catarina: Boi-de-Mourão ou Boi-de-Mamão
  • Rio Grande do Sul: Bumba, Boizinho ou Boi-Mamão

Cada nome é um convite para descobrir um pedacinho da alma brasileira!

O Enredo Mágico: Desejo, Morte e um Milagre Ecumênico!

A lenda central do Bumba Meu Boi é um verdadeiro teatro popular:

  • Mãe Catirina, grávida de Pai Francisco, tem um desejo inusitado: comer a língua do melhor boi da fazenda.
  • Para satisfazer sua amada, Pai Francisco não hesita e mata o boi preferido do seu senhor.
  • Ao descobrir o ocorrido, o fazendeiro fica furioso e ordena a punição do culpado.
  • Temendo pela própria vida, Pai Francisco pede ajuda a santos, orixás e pajés.
  • E, para o alívio de todos, o boi ressuscita! Um verdadeiro milagre ecumênico que une fé católica, religiões afro-brasileiras e saberes indígenas em uma explosão de alegria.

Ano após ano, os personagens dessa lenda ganham vida nos grupos de Bumba Meu Boi, mostrando que a fé e a esperança podem mover montanhas… ou ressuscitar bois!

"Quanto mais a gente embelezar aquela cultura que a gente cultiva e gosta, a decoração, e quanto mais a gente trabalhar para ver ela bonita, dar aquela vida para ela, mais feliz na vida a gente fica."

Uma brincante falando sobre os enfeites das vestimentas

Personagens que Encantam e Divertem

O Bumba Meu Boi é um desfile de figuras inesquecíveis:

  • O Boi: A estrela da festa, um boneco imponente, ricamente bordado.
  • Pai Francisco e Mãe Catirina: O casal cômico que inicia a aventura.
  • Capitão: O mestre de cerimônias que comanda a brincadeira.
  • Vaqueiros, índios, índias e caboclos: Com suas danças e indumentárias deslumbrantes, defendem o boi e a fazenda.
  • Cazumbás: Figuras misteriosas com máscaras e batas coloridas, que fazem soar seus sinos ao rebolar, misturando o assustador com o divertido.

Como disse um brincante: "Eu posso ser uma índia, uma Cabocla de pena, um Caboclo Real, uma Catirina, um bicho palha… meu personagem é meio brabo, ele representa a parte mais brava do boi, defendendo o que é nosso!"

A Arte Viva: Bordados, Indumentárias e Artesanato

Toda essa celebração requer muito esforço e dedicação. O Bumba Meu Boi é um terreno fértil para o artesanato e a arte popular:

  • Indumentárias Bordadas: As fantasias são verdadeiras obras de arte, ricamente bordadas com canutilhos, miçangas, lantejoulas e fios dourados. As bordadeiras trabalham com esmero por meses, transformando tecidos em sonhos.
  • Instrumentos Artesanais: As toadas são embaladas por instrumentos construídos de forma artesanal, cada um com seu som e sua história.
  • O Boi: A estrutura de madeira do boi, coberta por veludo e bordados preciosos, é um testemunho do talento coletivo de marceneiros, costureiras e artistas.

É um trabalho que envolve uma parcela grande da população, que se dedica com responsabilidade e paixão para que o brilho desse grandioso acontecimento se revele.

Os Sotaques do Maranhão: Uma Sinfonia de Ritmos!

O Bumba Meu Boi do Maranhão é famoso por seus cinco "sotaques" – formas rítmicas e estéticas que definem cada grupo. A diferença fundamental está nos instrumentos, nos sons e na forma de dançar:

  1. Sotaque da Ilha (ou de Matraca):
    • Ritmo: Mais lento, com gestos curtos e menos gingado, lembrando rituais indígenas.
    • Instrumentos: Predominam as matracas (peças de madeira batidas), e o tambor-onça (uma cuíca que imita o ronco do boi).
    • Personagem: O Caboclo Real, um índio mitológico coberto de penas multicoloridas.
    • Exemplo de grupo: Boi de Iguaíba.
  2. Sotaque de Zabumba:
    • Origem: Antigo, com raízes nitidamente africanas, vindo do município de Guimarães.
    • Ritmo: Vibrante, com alternância de cadências lentas e apressadas.
    • Instrumentos: O zabumba (tambor grande) é o centro da marcação rítmica.
    • Dança: Os brincantes usam os calcanhares como ponto principal de apoio.
    • Fantasias: Ricamente bordadas com canutilhos e miçangas.
    • Exemplo de grupo: Boi da Liberdade.
  3. Sotaque Costa de Mão:
    • Origem: Encontrado na região de Cururupu, litoral oeste do Maranhão.
    • Ritmo: Cadenciado, marcado por maracas, caixas e o pandeiro, que é batido com as costas das mãos (daí o nome!).
    • Fantasias: Calças de veludo bordadas e chapéus em forma de cogumelos.
    • Exemplo de grupo: Boi Brilho da Sociedade.
  4. Sotaque da Baixada (ou de Pindaré):
    • Origem: Vale do Rio de Pindaré.
    • Ritmo: Suave, mas contagiante.
    • Personagem: O Cazumbá veste uma bata bordada ou de veludo, com uma grande máscara de bichos de longos fios, e faz soar seus chocalhos ao rebolar.
    • Instrumentos: Pandeiros e matracas com um toque suave.
    • Exemplo de grupo: Boi Santa Fé.
  5. Sotaque de Orquestra:
    • Origem: Região do Rio.
    • Ritmo: Influenciado por diversos gêneros musicais, com uma batida mais dançante.
    • Instrumentos: Incorpora instrumentos de sopro e de cordas, além da sanfona.
    • Fantasias: Muito coloridas, arrastando multidões.
    • Curiosidade: Alguns veem como descaracterização, outros como uma adaptação aos novos tempos, que só aumenta o interesse pela manifestação.
    • Exemplo de grupo: Boi de Axixá.


Fé, Devoção e Ecumenismo: A Alma do Festejo

O Bumba Meu Boi é um complexo cultural que congrega diversas manifestações culturais e religiosas:

  • Devoção aos Santos Juninos: Especialmente São João e São Pedro, com fogueiras e bandeirinhas coloridas.
  • Religiões Afro-Brasileiras: Traços do Tambor de Mina, Tambor da Mata e Terecô, com a presença de orixás e entidades espirituais.
  • Rituais Indígenas: Elementos que remetem à ancestralidade e à conexão com a terra.

Na noite de 23 de junho, véspera de São João, o batismo do novo couro do boi é um momento sagrado. Sob a proteção de um altar e velas, o boi é abençoado com água benta e rezas católicas, um ritual de proteção para que não ocorra nenhum acidente ou violência durante a festa. É a expectativa de uma proteção sobrenatural que une diferentes crenças.

O Ciclo da Vida: Da Preparação à Morte e Renascimento

A celebração do Bumba Meu Boi não é apenas um dia, mas um ciclo que movimenta a economia e a vida maranhense por meses:

  • Preparação: Logo após o Carnaval, as sedes dos Bois já estão voltadas para as apresentações juninas.
  • Ensaios: Um mês antes da festa, os ensaios tornam-se cotidianos, com coreografias cuidadosamente ensaiadas e toadas marcantes.
  • Cortejo: Um imponente cortejo ganha as ruas, reunindo vários grupos e recebendo convidados.
  • Apresentação: Com os pandeiros aquecidos em fogueiras e sob a luz da lua, o novo couro do boi é apresentado à comunidade.
  • Matança: O momento derradeiro da festa, em alguns grupos, só acontece em outubro. É a encenação da morte do boi, onde vaqueiros laçam o animal que luta bravamente, cumprindo seu destino traçado pelo desejo de Mãe Catirina.
  • Renascimento: Apesar da tristeza pelo fim do espetáculo, fica a alegria de saber que o ciclo se fechou e que as raízes estão vivas, garantindo que o boi renascerá no próximo ano.

Vida Longa ao Bumba Meu Boi do Maranhão!

O Bumba Meu Boi é, como disse o modernista Mário de Andrade, "a mais complexa, estranha e original de todas as nossas danças dramáticas". É inspiração, pura beleza que une dança, música, religião e folclore.

Manter preservada essa tradição é a certeza de vida longa a esse verdadeiro mosaico de sotaques, que faz São Luís e o Maranhão vibrarem em uma explosão de alegria e criatividade.

“Ó lua, a tua beleza me faz lembrar o tempo bom que se foi Teu brilho quando vem surgindo, vai transluzir o couro do nosso boi Clareia o terreiro, clareia, aonde o meu Batalhão vadeia!”

Essa linda toada, "Ó Lua", é de autoria de Humberto do Maranhão.

Ele é um dos grandes compositores e mestres do Bumba Meu Boi, e essa canção é um clássico que embala muitos grupos e emociona o público.


Selo Brasis em Traços de Lu Paternostro

A série "Brasis em Traços" é uma coleção de ilustrações autorais da artista brasileira Lu Paternostro, focada na representação da cultura típica, tradicional e imaterial do Brasil. Com estilo colorido e detalhado, a série retrata festas, danças, tipos populares, lendas e a diversidade étnica brasileira, baseada em vasta pesquisa sobre o folclore e a identidade nacional.


Uma pequena lembrança para você:

Cada festa, folguedo, dança ou manifestação genuína de um povo não é algo fixo — é um organismo vivo, enraizado em um território e em constante transformação. Tudo é fluxo. Tudo é vivo, dinâmico. Como um rio, que corre sem nunca se deixar apreender por inteiro: não se captura um instante sem que ele já tenha se transformado.

É justamente aí que reside sua maior riqueza — nesse movimento contínuo, que existe no tempo e no corpo dos brincantes, despertando uma alegria difícil de nomear, mas impossível de não sentir.

Esta é apenas uma breve introdução ao tema, acompanhada de desenhos que buscam revelar um fragmento desse movimento.
Lu Paternostro

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